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Falhanço em Alepo é a “vergonha da nossa geração”

ABDALRHMAN ISMAIL/REUTERS

Numa reunião especial esta quarta-feira em Nova Iorque, o chefe humanitário da ONU criticou os membros do Conselho de Segurança, em particular a Rússia, por não travarem matança de civis na cidade síria. Embaixador russo respondeu que o responsável deve guardar as descrições “desonestas” e trágicas do cenário de horror em Alepo para o seu futuro romance

Os ânimos exaltaram-se esta quarta-feira numa reunião dos membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas, com o chefe humanitário da organização a criticá-los, em particular a Rússia, pelos falhanços em travar a matança de civis no leste de Alepo, e o embaixador russo na ONU, Vitaly Churkin, a classificar a descrição da situação no terreno por Stephen O'Brien como "injusta e desonesta".

No encontro, os representantes dos Estados Unidos, Reino Unido e França alinharam-se com o dirigente da ONU nas críticas a Moscovo e ao seu aliado, o regime sírio de Bashar al-Assad, numa altura em que a situação na Síria e em particular em Alepo continua a aprofundar o fosso entre os EUA e a Rússia e a paralisar o Conselho de Segurança, no qual ambos têm poder de veto. O falhanço do organismo mais poderoso das Nações Unidas em agir face à situação em Alepo, diz O'Brien, é "a vergonha da nossa geração".

O chefe da ONU para as questões humanitárias e ajuda de emergência convidou os enviados dos membros permanentes do Conselho a imaginarem-se entre as cerca de 275 mil pessoas que continuam encurraladas no leste de Alepo, sob bombardeamentos quase constantes do regime e da força aérea russa. E num dos mais fortes ataques a um representante da organização em tempos recentes, Churkin aconselhou O'Brien a deixar os comentários sobre Alepo e a Síria "para o romance que vai escrever um destes dias".

"Deixem-me levar-vos até ao leste de Alepo esta tarde", começou por declarar o representante da ONU. "Estão numa cave profunda, acotovelados com as vossas crianças e pais idosos, com os cheiros de urina e vómito provocados pelo medo presos às vossas narinas, à espera de uma bomba criada para destruir caves e abrigos que vocês sabem que pode matar-vos ali, no vosso derradeiro santuário, que é igual àquele onde o vosso vizinho acabou de morrer na noite anterior. Ou imaginem-se lá em cima na rua a usarem apenas as vossas mãos para desenterrarem destroços e abrirem caminho por entre o cimento e as barras de metal letais que foram projetadas contra vocês, na tentativa desesperada de chegarem às vossas crianças pequenas que não se vêem mas cujos gritos vocês ouvem por entre o pó e a terra debaixo dos vossos pés, a engasgarem-se enquanto tentam respirar mergulhados num pó tóxico e no cheiro de gás pronto a ser inflamado e a explodir sobre vocês.

Estas pessoas são iguais a vocês e a mim, só que não estão sentadas numa mesa em Nova Iorque mas sim condenadas a um sofrimento desesperado e impiedoso, sem futuro", continuou O'Brien, dizendo-se "incandescente com raiva" por causa da passividade do Conselho de Segurança face à catástrofe humanitária em curso em Alepo. "As vidas das pessoas foram destruídas e a Síria está destruída. E tudo sob a nossa monitorização coletiva. Não tem de ser assim, isto não é inevitável, não é um acidente... Nunca a frase do poeta Robert Burns, sobre 'a falta de humanidade do Homem para com o Homem', fez tanto sentido. Isto pode ser travado mas vocês, do Conselho de Segurança, têm de escolher travá-lo. Este Conselho foi encarregue de acabar com este horror. Não há hoje quaisquer dúvidas de que vocês, membros deste Conselho, sabem o que se está a passar — sabem-no clara e tragicamente. A questão é: o que vão fazer? Se não agirem deixará de haver povo sírio ou Síria para salvar. Esse será o legado do Conselho, a vergonha da nossa geração."

O'Brien diz que mais 400 pessoas morreram e duas mil ficaram feridas desde o seu último relatório sobre Alepo, apresentado no final de setembro

O'Brien diz que mais 400 pessoas morreram e duas mil ficaram feridas desde o seu último relatório sobre Alepo, apresentado no final de setembro

FAYEZ NURELDINE

Em particular, O'Brien teceu críticas ao bombardeamento do leste de Alepo pelas forças do regime de Assad e o seu aliado russo, uma zona da cidade no noroeste do país que está sob controlo dos rebeldes da oposição. Nos últimos três dias, a ofensiva renovada após o colapso de um cessar-fogo negociado entre os EUA e a Rússia provocou pelo menos 100 mortos, incluindo 17 mulheres e 22 crianças, ferindo outras 533 pessoas.

A Rússia, que está alienada dentro do Conselho num momento em que preside ao organismo, foi particularmente destacada no discurso de O'Brien, que diz que a campanha militar ordenada pelo regime e apoiada pelas forças russas é "a mais sustentada campanha de bombardeamentos aéreos intensivos" na guerra da Síria, em curso há quase seis anos e que já provocou quase meio milhão de mortos. "Alepo tornou-se essencialmente uma zona de morte. Desde o meu último relatório, apresentado há menos de um mês a este Conselho, mais 400 pessoas morreram e quase duas mil ficaram feridas no leste de Alepo. Muitas delas, demasiadas, eram crianças."

Em resposta à apresentação do último relatório de O'Brien, Churkin disse que não podia ficar calado e lançou ataques ao representante e aos parceiros do Conselho. "Se eu quisesse levar um sermão ia à igreja", disse o diplomata russo, antes de a homóloga norte-americana, Samantha Power, ripostar que, "perante o que está a acontecer [em Alepo], talvez fosse mais útil mais gente ir à igreja".

Quando Churkin falou em desonestidade da parte do chefe de assuntos humanitários, gerou-se uma troca de acusações acesa, com Power a dizer que as declarações do embaixador russo são "um ataque à ONU" e a desmentir as alegações russas de que a campanha de bombardeamentos tem como alvos apenas "terroristas" (como o regime de Assad classifica todos os grupos que lutam pela sua deposição desde março de 2011). Aqui, a embaixadora norte-americana referiu as cerca de 100 mil crianças que continuam encurraladas no leste de Alepo, perguntando a Churkin se também as considera terroristas.

Já o embaixador britânico na ONU, Matthew Rycroft, defendeu as declarações de O'Brien como "factos", acusando diretamente Churkin de serem "factos de que não gosta". Citado pelo "The Guardian", Richard Gowan, especialista da ONU que integra o Conselho Europeu de Relações Externas, disse que o tom da retórica de Churkin dirigida a O'Brien reflete um novo nível de desdém da parte de Moscovo.

"A Rússia tem estado a afiar as suas garras há algum tempo. Churkin condenou recentemente o príncipe Zeid, alto-comissário para os direitos humanos, por 'ir além dos limites das suas responsabilidades' ao criticar o uso do seu poder de veto por Moscovo nas votações da Síria. Mas o puro azedume que dirigiu hoje contra O'Brien está noutro nível", acusou Gowan. "Os ataques da Rússia ao sistema da ONU fazem lembrar o tratamento brutal de Kofi Annan e dos seus funcionários pela administração Bush no rescaldo da disputa sobre o Iraque. John Bolton [embaixador dos EUA nas Nações Unidas à data] acusou Mark Malloch Brown de críticas 'ilegítimas' ao público americano, por exemplo. Mas até Bolton guardou as suas opiniões mais feias para o seu livro de memórias."

No domingo, a Rússia e o regime sírio retomaram os bombardeamentos ao leste de Alepo após uma trégua de três dias, durante a qual não implementaram quaisquer planos de retirada de civis feridos. O falhanço de mais este cessar-fogo foi atribuído por O'Brien aos dois aliados mas também aos grupos rebeldes da oposição que continuam sitiados na parte oriental de Alepo.