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Internacional

Espanha criticada por autorizar Rússia a reabastecer navios de guerra em Ceuta

Passagem da frota de navios de guerra russos pelo canal inglês há uma semana gerou críticas a Londres por demonstrar "fraqueza"

Leon Neal

Aliados dizem que é “totalmente inapropriado” que um membro da NATO permita que Moscovo use um dos seus portos para reabastecer navios que “vai usar para bombardear civis” na Síria. Jornal “El País” avança que Madrid está a rever autorização concedida à frota de oito navios liderada pelo porta-aviões Almirante Kuznetsov

O Governo espanhol está a ser duramente criticado por, alegadamente, ter autorizado navios de guerra russos a reabastecerem no porto de Ceuta, em rota para o Mediterrâneo oriental, de onde as forças de Moscovo planeiam enviar mais caças para a Síria no início de novembro. É esperado que a flotilha de oito navios e submarinos, liderada pelo porta-aviões Almirante Kuznetsov, atraque no enclave espanhol do norte de África após 10 dias em mar alto, depois de ter atravessado o estreito de Gibraltar esta manhã.

Este terça-feira, o jornal espanhol "ABC" avançou que dois navios, a fragata Almirante Juan de Borbón e o barco de apoio logístico Cantabria estavam a acompanhar os navios de guerra à sua passagem por águas internacionais, com o plano delineado de permitir que a frota russa se reabasteça em Ceuta já esta quarta-feira. Horas depois, o "El País" noticiou que o Ministério dos Negócios Estrangeiros espanhol está a rever a autorização concedida à flotilha russa para que use Ceuta como ponto de paragem essencial.

Na semana passada, o conjunto de navios de guerra de Moscovo foi monitorizado por embarcações da Marinha Real britânica à sua passagem pelo canal inglês, em rota para Ceuta — um enclave espanhol que fica na ponta mais a norte do continente africano, que integra Espanha mas que é disputada por Marrocos. O "The Guardian" diz que, apesar de Ceuta integrar a União Europeia, o seu estatuto na NATO é incerto.

Na terça à noite, o secretário-geral da aliança avisou que os navios russos a que Espanha se prepara para dar apoio vão ser usados para atacar civis no noroeste da Síria, onde Moscovo tem apoiado a campanha de bombardeamentos do regime de Bashar al-Assad para expulsar os rebeldes da oposição da cidade de Alepo.

"Estamos preocupados e já deixámos claro o potencial uso daquele grupo de batalha para aumentar os ataques aéreos contra civis em Alepo", disse Jens Stoltenberg. "Cabe a cada nação decidir se estes navios devem reabastecer em diferentes portos ao longo da rota até ao Mediterrâneo Oriental."

A NATO tem estado a acompanhar com redobrada atenção as movimentações da frota de oito navios, desde a sua partida do norte da Rússia em direção ao mar que banha o sul do continente europeu, de onde Moscovo planeia enviar caças para retomar os ataques no noroeste da Síria dentro de uma semana, acrescenta Stoltenberg. "O grupo de batalha pode ser usado para aumentar as capacidades da Rússia para integrar as operações de combate na Síria e executar ainda mais ataques aéreos contra Alepo."

Fontes da aliança militar dizem que a flotilha enviada pela Rússia para a região, num episódio raro desde a queda da União Soviética, envolve o único porta-aviões do país, bem como um cruzador movido a energia nuclear, dois navios antissubmarinos e quatro navios de apoio, provavelmente escoltados por submarinos. Diplomatas avançam que a frota transporta dezenas de caças e helicópteros e que vai juntar-se às dez embarcações russas que já estão atracadas ao largo da costa síria.

No Twitter, Guy Verhofstadt, ex-primeiro-ministro belga e atual representante da UE para as negociações do Brexit, disse que a decisão espanhola de autorizar o reabastecimento dos navios russos é "escandalosa".

O representante norte-americano para a NATO sublinha que a Rússia está no seu direito de mover navios em águas internacionais, embora ressalve que isso poderá trazer problemas a Espanha se os navios vierem, de facto, a ser usados para reforçar a ofensiva síria contra áreas de maioria civil. "O problema surgirá se este navio [o porta-aviões] contribuir para o bombardeamento indiscriminado de alvos civis no noroeste da Síria, em particular dentro e ao redor de Alepo", declarou o embaixador Douglas Lute aos jornalistas.

Em entrevista ao "Daily Telegraph", o ex-ministro da Defesa do Reino Unido, Gerald Howarth, criticou Madrid pela atitude "totalmente inapropriada" de permitir que a Rússia reabasteça os seus navios em Ceuta. O ex-chefe da Marinha britânica, Lord West, lembra que o país "é alvo de sanções [europeias]" e que autorizá-lo a atracar navios nesta zona é "uma coisa extraordinária para um membro da NATO fazer". Contactado pelo jornal, o gabinete do chefe da diplomacia espanhola disse que os pedidos russos desta natureza "são analisados caso a caso" e lembrou que "os navios da Marinha russa têm apresentado pedidos aos portos espanhóis há anos". Segundo o "El País", pelo menos 60 navios de guerra russos atracaram em Ceuta desde 2011.

Na semana passada, a flotilha russa atravessou o canal inglês logo após a primeira-ministra britânica, Theresa May, ter condenado publicamente as ações da Rússia na Síria, dizendo que Moscovo está a apoiar as "atrocidades repugnantes" que o regime de Bashar al-Assad está a executar. Ontem, um porta-voz do número 10 de Downing Street recusou as críticas que alguns têm tecido ao Reino Unido por ter permitido a passagem dos navios de guerra russos pelas suas águas. "Rejeito quaisquer sugestões de que os russos sentem que somos demasiado fracos", disse o vice-porta-voz de May.

O destacamento desta frota liderada pelo porta-aviões Almirante Kuznetsov tinha sido anunciado pelo ministro russo da Defesa Sergei Shoigu, em setembro, com a agência russa Tass a avançar que o governante terá dito ao conselho nacional de defesa que o plano era aumentar as "capacidades de combate" da frota que o país já tem destacada no Mediterrâneo.

Analistas militares citados pelo "Telegraph" referem que o passo é uma demonstração de força da parte de Moscovo, dado que cada vez menos países têm capacidade de enviar navios e aviões de guerra para tão longe de casa, ainda que neste caso a Rússia esteja dependente do reabastecimento em Espanha.