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Antes de liderar o Governo britânico, Theresa May defendeu a permanência na UE

Leon Neal / Getty Images

“The Guardian” revela gravação exclusiva de um discurso privado da conservadora a responsáveis do Goldman Sachs em maio, no qual May, à data ministra do Interior, referia que a saída do Reino Unido da União Europeia provavelmente se traduziria numa fuga em massa de empresas e capital

Um mês antes de suceder a David Cameron à frente do Governo britânico, Theresa May defendeu a permanência do Reino Unido na União Europeia como forma de combater a "provável" fuga de empresas do país num cenário Brexit, numa conversa privada com membros do banco de investimento Goldman Sachs cuja gravação foi revelada esta terça-feira pelo "The Guardian".

Na gravação, a agora primeira-ministra britânica é ouvida a delinear uma série de preocupações com a possibilidade de o Brexit avançar por decisão dos britânicos no referendo de 23 de junho, uma postura que contrasta com os discursos públicos que proferiu durante a campanha para a consulta, nos quais parecia opor-se aos que defendem a permanência no bloco regional.

A audiência privada com responsáveis do Goldman Sachs aconteceu em Londres a 26 de maio, um mês antes da consulta popular que deu a vitória ao Brexit e que abriu caminho à demissão de Cameron e à tomada de posse de May. Nesse encontro, a então ministra do Interior defendeu que o Reino Unido tinha benefícios económicos em permanecer na UE e podia aproveitar o momento para assumir a liderança do bloco, sublinhando esperar que os eleitores britânicos pusessem os olhos no futuro e não no passado na hora de tomarem a sua decisão.

Na reunião de uma hora, a governante disse ainda estar preocupada com o potencial efeito do Brexit na economia britânica, em particular dada a "provável" fuga de empresas e capital de Londres no caso de o país decidir abandonar a UE. "Penso que os argumentos económicos são claros. Penso que fazer parte de um bloco de trocas com 500 milhões [de habitantes] é muito importante para nós, como vos dizia há pouco, um dos assuntos em questão é que muitas pessoas investem aqui no Reino Unido porque é o Reino Unido na Europa", declarou May. "Se não estivéssemos na Europa, penso que haveria empresas que questionariam se precisam de desenvolver a sua presença na Europa continental em vez de no Reino Unido. Portanto penso que há benefícios definitivos para nós em termos económicos [de permanecer na UE]."

Mais do que contrastar com a sua postura durante a campanha para o referendo, as declarações privadas de May há cinco meses entram em rota de colisão com as suas ações e argumentos enquanto primeira-ministra do Reino Unido, sobretudo nas últimas semanas. Na semana passada, May voltou a declarar, numa conferência do seu Partido Conservador, que está empenhada em reduzir os números de imigração para o Reino Unido e que não tem pudores em colocar isso à frente da integração no mercado comum europeu.

Nesse discurso, a chefe do Executivo britânico reconheceu que as empresas britânicas precisam da "liberdade máxima de trocas e operações [garantidas pelo] mercado único" mas não à custa de "voltar a abdicar do controlo da imigração" ou de aceitar permanecer sob a jurisdição do Tribunal Europeu de Justiça. Os dirigentes da UE, como é o caso de Donald Tusk, presidente do Conselho, mantêm que o Reino Unido não pode continuar no mercado único se não respeitar os quatro pilares fundamentais do espaço comum europeu, entre eles a livre circulação de pessoas.

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