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Um milhão de chineses investigados por corrupção

AFP/GETTY

O anúncio surge no âmbito de uma campanha lançada há anos pelo Presidente Xi Jinping e levou a que ministros, outros altos responsáveis e até funcionários locais vissem as suas finanças e as suas vidas examinadas à lupa por inspetores do Partido Comunista

Luís M. Faria

Jornalista

Mais de um milhão de funcionários chineses foram investigados por corrupção nos últimos três anos. O anúncio surgiu em vésperas da reunião plenária do Partido Comunista, que vai decorrer nos próximos quatro dias à porta fechada.

No âmbito de campanha anticorrupção lançada em 2014 pelo Presidente Xi Jinping, ministros, outros altos responsáveis e até funcionários locais viram as suas finanças e as suas vidas examinadas à lupa por inspetores do partido. Muitos deles foram presos e largas dezenas condenados e/ou expulsos do partido. Nas palavras de Xi, “se não corrigirmos tendências pouco saudáveis e permitirmos que elas se desenvolvam, será como pôr um muro entre o Partido e o povo, e perderemos as nossas raízes, o nosso sangue vital e a nossa força”.

Xi prometeu atacar por igual “tigres e moscas”, ou seja, tanto os funcionários de topo como os de importância menor. Mas há quem pense que o seu objetivo será diferente. O Presidente estaria menos preocupado em combater a corrupção no país do que em aproveitar um pretexto popular para se livrar de rivais políticos e levar a cabo uma limpeza geral que produza um efeito intimidatório e reforce o seu próprio poder, eventualmente permitindo-lhe ficar no cargo para além dez anos que são tradicionais para os Presidentes chineses.

“Sempre na estrada”

Especulações à parte, a campanha segue em frente. A sua última peça é um documentário intitulado “Sempre na Estrada”, que foi realizado pelo departamento de propaganda da Comissão Central para Inspeção Disciplinar (CCID), em conjunto com a Televisão Central da China. Os seus oito episódios examinam quatro dezenas de casos ocorridos em 22 províncias ou regiões. Há entrevistas com inspetores e especialistas no fenómeno da corrupção e, mais espetacularmente, há confissões de chefes partidários de província, oficiais do Exército que foram demitidos e outros funcionários.

Entre os que falam, Zhou Benshu, ex-chefe partidário na província de Hebei, admitiu ter feito favores a “amigos” de negócios e aos seus próprios filhos. “Foi por minha própria culpa que acabei assim (…) Tenho de aceitar o castigo do partido. A vida é um programa em direto e não pode ser vivida outra vez”, diz Zhou no documentário, que tem estado a passar em CCTV e no site da CCID.

Além das exibições públicas de riqueza, um aspeto por vezes notado nessas histórias são as estratégias fárcicas a que alguns funcionários recorriam para esconder o dinheiro ilícito. Árvores ocas, campos de arroz, casas de banho, tudo servia para guardar valores que podiam chegar às dezenas de milhões, não raro em dinheiro vivo.

Quatro pratos e uma sopa

De 2014 para cá, as autoridades têm apresentado regularmente números para mostrar que a campanha está a produzir resultados. Já houve sentenças duras, que receberam ampla publicidade. Em agosto de 2015, um tribunal militar condenou à morte (com pena suspensa) o antigo vice-chefe do departamento de logística das Forças Armadas. Subornos, desvio de dinheiro, peculato e abuso de poder foram as acusações, e é o tipo de crimes normalmente em causa nessas situações. Alguns deles – em especial, os abusos de poder a nível local – despertam especial indignação entre as populações.

No plenário agora iniciado, espera-se que sejam apresentadas novas regras de conduta para os membros do PC chinês. A fórmula que resume o atual espírito de austeridade é “quatro pratos e uma sopa”. Mas nem toda a gente concordará. Além dos diretamente atingidos, também sofrem os restaurantes e os hotéis de topo, bem como as lojas que vendem produtos de luxo – sobretudo se estes forem do tipo que se vê à luz do dia. Neste momento, é problemático exibir, por exemplo, objetos em jade, relógios caros, cigarros de certas marcas. Já a lingerie de luxo não tem problema, por andar escondida. As lojas que a vendem parecem continuar tão prósperas como antes, ou até mais.

Macau também foi atingido, pois o jogo é uma atividade conspícua, e o governo local controla com zelo os fluxos de dinheiro para dentro e fora do antigo território português. Fala-se numa quebra de receita estimada em 20 ou 30%. Se aí não há nada a fazer – exceto esperar que a onda repressiva chegue ao fim –, já alguns restaurantes e lojas encontraram formas curiosas de se adaptar, lembrando o que se passava na América durante a Proibição. Por fora, assumem o aspeto de lugares modestos, quase tabernas; mas por dentro são autênticos paraísos de luxo, com elevadores privados aos quais se acede através de garagens subterrâneas.

Familiares de líderes na Mossack Fonseca

Outro aspeto da campanha que levanta inquietações é a sua aplicação aparentemente seletiva. As recentes revelações sobre a Mossack Fonseca, empresa envolvida nos Panama Papers, mostraram que 29% das companhias ativas presentes nos registos dessa firma de advogados eram chinesas. O número total delas – 16,300 – parece incrível. Nenhum escritório da firma em Hong-Kong era dos mais movimentados. E havia nomes notórios envolvidos. Um cunhado do Presidente Xi Jinping, por exemplo, tinha três companhias registadas nas Ilhas Virgens Britânicas, com negócios no valor de centenas de milhões de dólares.

Outros dois membros do comité executivo do Politburo encontravam-se na mesma situação, com companhias igualmente registadas nas Ilhas Virgens em nome de um cunhado e de uma cunhada. Ao todo, familiares de oito líderes ou ex-líderes do partido, incluindo um presidente, um vice-presidente e um ex-primeiro ministro, tinham contas offshore. Como seria previsível, essas informações não circularam nos media chineses. Numa referência tipicamente sumária, um jornal do Partido Comunista disse que era ”uma nova forma de as nações ocidentais que são aliadas ideológicas” atacarem “as elites políticas não ocidentais”.