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Partido dos Piratas em rota para vencer eleições na Islândia

Birgitta Jónsdóttir, líder Partido dos Piratas, Islândia

HALLDOR KOLBEINS / AFP / GETTY IMAGES

O país dos vikings é um dos mais prósperos, pacíficos e equitativos do mundo mas nem por isso escapou à revolta contra o sistema e o statu quo, que tem dominado este ano de surpresas nas urnas. Uma nova sondagem dá mais de 22% das intenções de voto aos Piratas, colocando o jovem partido no primeiro lugar da corrida a poucos dias das legislativas, que os Panama Papers anteciparam para o próximo sábado

Tudo começou em junho: contra o que previam várias sondagens e vários políticos britânicos e europeus, mais de 50% da população britânica foi às urnas no final desse mês para votar contra a manutenção do Reino Unido na União Europeia. Ao Brexit, seguiu-se a inesperada nomeação republicana de Donald Trump nos Estados Unidos na conclusão das primárias do partido em julho, a baixíssima participação eleitoral dos húngaros num referendo contra o acolhimento de refugiados (que o primeiro-ministro Viktor Órban achava que tinha um resultado garantido à partida a favor das suas políticas restritivas) e o chumbo popular do acordo de paz que o Governo colombiano tinha alcançado com as FARC para pôr fim a 52 anos de guerra civil. (Pode acrescentar-se à lista as verdadeiras lutas de palavras nas redes sociais depois de ter sido Bob Dylan, um músico e não escritor, a ser laureado com o Nobel da Literatura.)

Por causa das várias surpresas que têm marcado este ano, os analistas têm sido contidos nas previsões dos resultados das presidenciais norte-americanas, que se disputam a 8 de novembro e que, segundo quase todas as sondagens, irão ditar a vitória de Hillary Clinton. Mas e se ganhar Donald Trump? É mais uma surpresa possível, mesmo que muitos a ditem improvável, mas antes disso outra surpresa deverá ter lugar. Pelo menos assim o indicam os mais recentes inquéritos de opinião na Islândia, que no próximo sábado vai às urnas escolher o seu próximo Governo.

De acordo com uma sondagem do Instituto de Ciências Sociais da Universidade da Islândia para o diário nacional “Morgunblaðið”, 22,6% dos eleitores do país dizem que vão votar no Partido dos Piratas, parte de um movimento internacional com o mesmo nome que, na Islândia, foi fundado há apenas quatro anos. No inquérito conduzido na internet, um em cada cinco islandeses disse favorecer o movimento anti-sistema, antecipando-se agora a possível vitória deste nas eleições de 29 de outubro.

Até a fundadora do partido foi apanhada de surpresa com os resultados do inquérito online, dizendo ao “Washington Post” que não esperava “de forma alguma” que o seu movimento político conseguisse alcançar um lugar tão importante na política islandesa volvidos tão poucos anos de atividade no país. “As pessoas querem mudanças reais e entendem que temos de ser nós a mudar os sistemas, temos de modernizar a forma como fazemos leis”, defende Birgitta Jónsdóttir, 49 anos, ex-ativista da WikiLeaks, programadora web que é também poeta e que já ofereceu asilo ao ex-analista da NSA Edward Snowden.

A remota nação nórdica alberga o mais antigo parlamento do mundo, cujas origens remontam a 930 AC, na era dos colonizadores Norse

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Alexander Scheuber / Getty Images

Para Jónsdóttir e os seus apoiantes, o partido agrega o melhor da direita e da esquerda numa nação que, com igual surpresa, se tornou numa espécie de tubo de ensaio da onda de rebelião popular que tem varrido o Ocidente desde 2008. Sendo um dos países mais prósperos, equitativos e pacíficos do mundo, com um total de 320 mil habitantes, correspondente a menos de dois terços da população de Lisboa (a cidade, não a área metropolitana), a terra dos vikings é um palco inesperado de revolta social — ou assim era, até a população sentir os impactos da crise que fizeram com que a economia próspera do país tivesse de ser resgatada por um pacote de ajuda internacional no valor de 4600 milhões de dólares (mais de 4200 milhões de euros).

Banqueiros foram presos e, nas ruas, as pessoas demonstraram o seu descontentamento, seguido de uma espécie de alieanação dos eleitores igual à que tem sido registada noutros países do continente europeu, nos EUA e noutras zonas do globo. A mobilização esteve em suspenso até abril, quando os primeiros documentos dos Panama Papers revelaram que a mulher do então primeiro-ministro era dona de uma empresa offshore que detinha participações em alguns dos bancos islandeses que colapsaram na sequência da crise financeira. Milhares de islandeses voltaram a sair às ruas nessa altura, forçando a demissão de Sigmundur Davíð Gunnlaugsson e abrindo caminho às eleições antecipadas do próximo sábado.

Com isto “a desconfiança que já estava a germinar há muito explodiu”, explica ao WaPo Ragnheithur Kristjánsdóttir, professor de história política na Universidade da Islândia. “No passado tivemos partidos novos mas que acabaram sempre por sucumbir. O que é surpreendente desta vez é que eles [os Piratas] estão a conseguir agarrar o momento.”

Isso é notório não só na popularidade do partido em rota para vencer as legislativas como de outros novos movimentos políticos, caso do Viðreisn (“Restabelecimento”), ainda mais jovem que o Partido dos Piratas. O seu líder, Benedikt Jóhannesson, que também angaria muitas intenções de voto nas sondagens a par dos baixos apoios aos partidos “do sistema”, admite que muitos podem achar que é uma piada ter os Piratas a dirigir o país. Mas, ressalva, “os eleitores pensam que uma piada é melhor do que o que temos agora”. Na reportagem do “Washington Post”, fala da possibilidade de integrar uma coligação como partido minoritário se as previsões de vitória dos Piratas se concretizarem — porque, diz, apesar de discordarem em vários pontos, estão juntos na crença de que são necessárias mudanças profundas e radicais. “Alguns dos nossos partidos foram criados há 100 anos, mas os sistemas em que se movimentaram, digamos nos anos 1960, não funcionam obrigatoriamente nos anos 2010.”

Os ditos “partidos do sistema” continuam a tentar reverter a tendência, questionando se o Partido dos Piratas tem sequer uma agenda política para implementar caso vença. É o caso do Partido da Independência, que integrou os Governos da Islândia entre 1983 e 2009 sem interrupções e que neste momento está praticamente empatado com os Piratas nas sondagens. “Eles sabem contra o que são mas é difícil perceber o que realmente defendem”, diz Birgir Ármannsson, deputado eleito do partido de centro-direita. “As pessoas ainda estão muito zangadas connosco [por causa da má gestão da crise] mas se querem estabilidade e crescimento económico, têm de votar em nós.”

Entre os tópicos de debate nacional mais fortes sobre os quais os Piratas ainda não se pronunciaram conta-se a eventual adesão da Islândia à União Europeia, em águas de bacalhau desde o colapso financeiro de 2008. Fundado na Suécia para lutar pela privacidade dos cidadãos online e por uma série de reformas digitais, na Islândia o Piratas da internet parecem para já comprometer-se apenas em fazer do país um “porto de abrigo digital” e isso, apontam as sondagens, não incomoda os eleitores. O próprio partido diz que, mais do que seguir esta ou aquela ideologia, está apostado na ideia de que se pode recorrer a ciberataques para reformar os sistemas políticos ocidentais em decadência e assim garantir aos cidadãos uma maior participação democrática. É uma mensagem que parece ressoar junto dos islandeses, que no sábado poderão definir um novo futuro para o seu país mas também para outras nações.