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Internacional

Papa Francisco consegue sentar Governo e oposição da Venezuela à mesma mesa

JUAN BARRETO

Vaticano diz que o Executivo de Maduro e membros da oposição aceitaram debater soluções para a crise económica e social na sequência de uma intervenção do Papa e que primeiro encontro formal já está marcado para domingo. Henrique Capriles, um dos líderes da oposição, diz que “nenhum diálogo começou na Venezuela”

O governo de Nicolás Maduro e a sua oposição vão encontrar-se para debater soluções para a crise económica, social e política que a Venezuela está a atravessar, após um encontro inesperado entre o Presidente do país e o Papa Francisco na segunda-feira à tarde.

O anúncio das raras conversações interpartidárias foi feito pelo Vaticano após Maduro ter feito uma visita surpresa ao líder da Igreja Católica na sua sede, na qual Francisco "pediu [aos partidos venezuelanos] que demonstrem a coragem de procurar um caminho de diálogo construtivo e sincero", cita a BBC. O enviado do Vaticano à Argentina, Emil Paul Tscherrig, diz que um "diálogo nacional" já começou após um encontro com representantes dos dois lados da barricada política.

De acordo com o arcebispo, o partido de Maduro (Partido Socialista Unido da Venezuela, PSUV) e partidos da oposição com assento parlamentar aceitaram dar início a negociações formais no próximo domingo na ilha Margarita nas Caraíbas. O processo será mediado pelo Vaticano e pela União de Nações Sul-Americanas (UNASUR).

Nos últimos dias, a Venezuela e em particular a capital, Caracas, têm sido palco de protestos a favor ou contra o Governo de Maduro, após o Conselho Nacional Eleitoral ter cancelado o processo de referendo exigido pela oposição para remover Maduro da presidência, por considerar que a recolha de assinaturas para avançar com a consulta popular foi fraudulento. Após o anúncio do Vaticano na segunda-feira ao final do dia, o Presidente venezuelano disse aos jornalistas que o diálogo nacional pode "finalmente" começar.

O líder da maior coligação da oposição, Jesus Torrealba, que deverá encontrar-se hoje com Tscherrig, referiu que, embora as negociações sejam importantes, "não podem continuar a ser uma estratégia do Governo para comprar tempo". A maior figura da oposição, Henrique Capriles, que foi derrotado por Maduro nas eleições presidenciais de abril de 2013 após a morte de Hugo Chávez, contrariou as notícias avançadas pela imprensa nacional e estrangeira, tendo declarado esta segunda-feira que "nenhun diálogo começou na Venezuela".

Maduro, um ex-motorista de autocarros e líder sindical, é responsabilizado pela oposição pela situação económica na Venezuela, onde as sucessivas quedas no preço do petróleo a nível mundial têm ditado uma cada vez maior escassez de bens básicos e medicamentos e uma inflação que o Fundo Monetário Internacional antecipa que vai atingir os 1,660% no próximo ano.

No domingo, enquanto Maduro participava numa reunião dos produtores e exportadores de petróleo na Arábia Saudita, a oposição convocou uma sessão especial do Parlamento para votar uma série de medidas, entre elas uma para levar o Presidente venezuelano a tribunal por alegada violação da lei constitucional e tentativa de golpe de Estado.

Durante o encontro de deputados, que neste momento pertencem na sua maioria à oposição a Maduro, um grupo de apoiantes do atual Presidente e de Chávez invadiu o Parlamento após um protesto pacífico frente ao edifício, forçando a sessão especial a ser suspensa durante 45 minutos.

A oposição venezuelana deveria dar início ao processo formal de preparação de um referendo a Maduro a 26 de outubro, esta quarta-feira, mas na semana passada as autoridades eleitorais ditaram a suspensão da recolha de assinaturas após alegações de fraude durante a primeira fase do processo. O anúncio foi recebido com revolta pelos opositores ao Governo de esquerda, que acusam há muito o Conselho Eleitoral de ser um fantoche de Maduro e de estar a fazer de tudo para atrasar a consulta.

Esta segunda-feira, a Organização de Estados Americanos disse estar "profundamente preocupada" com a decisão das autoridades eleitorais venezuelanas, que levaram a oposição a convocar para amanhã protestos em todo o país contra Maduro e o seu partido. Maduro e os seus apoiantes acusam a oposição de ligações a Estados estrangeiros, em particular aos Estados Unidos, e de tentarem depô-lo para "porem as mãos nas riquezas petrolíferas da Venezuela".