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Dez razões para compreender o problema do terrorismo no Paquistão

Auditório de uma escola de polícia em Peshawar, um dia após um ataque talibã ter provocado 141 mortos, a 16 de dezembro de 2014

© Fayaz Aziz / Reuters

Nos últimos dez anos, no Paquistão, morreram em média quase 6000 pessoas por ano em atentados terroristas. Da geografia aos interesses geopolíticos, várias razões contribuem para tanta violência na “terra dos puros”

Margarida Mota

Jornalista

O país que viu nascer a Prémio Nobel da Paz Malala Yousafzai é um dos mais vulneráveis ao terrorismo. Segundo o Portal de Terrorismo da Ásia do Sul, em 2007, 3598 pessoas foram mortas em atentados na República Islâmica do Paquistão. Esse número aumentou dramaticamente para 11.704 mortos em 2009. No ano passado, foram mortas 3682 pessoas e este ano, até 23 de outubro, atentados em solo paquistanês já fizeram 1519 vítimas mortais. O que está na origem de tamanha carnificina?

1. O país tem uma geografia acidentada

Atravessado pelas duas maiores cadeias montanhosas do mundo — a cordilheira dos Himalaias e o Hindu Kush —, o Paquistão abriga 108 picos acima dos 7000 metros e cerca de de outros tantos acima dos 6000 metros. O famoso K-2, o cume mais alto a seguir ao Evereste, localiza-se neste país. Com uma alta taxa de mortalidade entre os alpinistas que o tentam escalar — uma em cada cinco pessoas morre pelo caminho —, o K-2 é referido por muitos aventureiros como “uma entidade de humor oscilante”. A 20 de julho de 2007, João Garcia tornou-se o primeiro português a atingir o cume do K-2 sem recurso a oxigénio artificial. O relevo acidentado do Paquistão não sentencia o país a uma realidade violenta. Mas, como se lê no “Manual de Teoria e Prática de Guerra de Contra-insurreição” (1964), do tenente-coronel francês David Galula (1919–1967): “A geografia pode enfraquecer o mais forte dos regimes políticos ou fortalecer o mais fraco deles”.

Encontro de anciãos e líderes tribais, na região paquistanesa de Dawazai, junto à fronteira com o Afeganistão

Encontro de anciãos e líderes tribais, na região paquistanesa de Dawazai, junto à fronteira com o Afeganistão

Adrees Latif / Reuters

2. A sociedade paquistanesa é profundamente tribal

Dentro do Paquistão, há uma espécie de “Estado dentro do Estado” onde o poder das autoridades centrais é apenas nominal. O Território Federal das Áreas Tribais (FATA em inglês) situa-se no noroeste do país e faz fronteira com o conturbado o Afeganistão.

A região, que corresponde sensivelmente a um quarto do território português, não está integrada em qualquer província e subdivide-se em áreas correspondentes a tribos, que gozam de um estatuto semiautónomo e exercem a autoridade com base em códigos tradicionais. Zona montanhosa e subdesenvolvida, ali vivem mais de três milhões de pessoas, na sua esmagadora maioria pashtune.

Esta é a segunda etnia do Paquistão — e a primeira do Afeganistão — e vive, ainda hoje, sobretudo nas áreas rurais, segundo um código não escrito — o “pashtunwali” —, com origens anteriores à era cristã. O “pashtunwali” é, juntamente com o fundamentalismo islâmico, um dos pilares do movimento dos talibãs.

Camiões de abastecimento da NATO que seguiam para o Afeganistão em chamas, após serem atingidos pelos talibãs, em Jamrud, na região tribal de Khyber, Paquistão

Camiões de abastecimento da NATO que seguiam para o Afeganistão em chamas, após serem atingidos pelos talibãs, em Jamrud, na região tribal de Khyber, Paquistão

Shahid Shinwari / Reuters

3. O país está muito exposto à guerra no Afeganistão

A natureza porosa da fronteira afgano-paquistanesa e a presença de mesmo grupo étnico (pashtunes) dos dois lados da fronteira tornam o Paquistão vulnerável a tudo o que se passa no país vizinho. Após a invasão norte-americana do Afeganistão, na sequência do 11 de Setembro de 2001, foi na chamada cintura tribal paquistanesa que a Al-Qaeda e os talibãs afegãos encontraram refúgio e organizaram a sua resistência contra a presença militar estrangeira no Afeganistão.

Em “O Novo Estado Islâmico — Como Nasceu o País do Terrorismo” (2014), considerado o primeiro e mais completo livro sobre o fenómeno, o jornalista britânico Patrick Cockburn escreve: “As forças armadas do Paquistão tinham desempenhado um papel central desde inícios dos anos 90 impulsionando os talibãs para o poder no Afeganistão onde eles davam guarida a Bin Laden e à Al-Qaeda.

Após um breve hiato durante e a seguir ao 11 de Setembro, o Paquistão retomou o seu apoio aos talibãs afegãos. Referindo-se ao papel central do Paquistão no apoio aos talibãs, o falecido Richard C. Holbrooke, o representante especial dos EUA para o Afeganistão e Paquistão, disse: ‘Podemos estar a lutar contra o inimigo errado no país errado’”.

O autor recorda também que quando os talibãs começaram a desintegrar-se sob os bombardeamentos norte-americanos, em 2001, ainda antes da rendição “centenas de membros do ISI [os serviços secretos paquistaneses], formadores militares e conselheiros foram precipitadamente transferidos por via aérea” desde o norte do Afeganistão. “Apesar da mais clara das provas de que o ISI patrocinava os talibãs e os jihadistas em geral, Washington recusou-se a confrontar o Paquistão.” Mullah Omar e Mullah Akhtar Muhammad Mansour, que lideraram os talibãs desde o 11 de Setembro, morreram ambos em território paquistanês. Mas esta cumplicidade é anterior ao histórico atentado. Quando os talibãs tomaram o poder em Cabul, em 1996, apenas três países reconheceram oficialmente o novo regime: Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e... Paquistão.

Grupo de refugiados afegãos durante uma viagem de repatriamento, desde Peshawar (Paquistão) até ao seu país natal, a 2 de agosto de 2016

Grupo de refugiados afegãos durante uma viagem de repatriamento, desde Peshawar (Paquistão) até ao seu país natal, a 2 de agosto de 2016

Fayaz Aziz / Reuters

4. O Paquistão é, ele próprio, um viveiro de terroristas

Quando os EUA anunciaram a “guerra contra o terrorismo”, após o 11 de Setembro, o Paquistão surgiu como um ator-chave dessa estratégia. O tempo revelaria que o país é também parte do problema. Segundo o Departamento de Defesa norte-americano, até 15 de maio de 2006, passaram pelo centro de detenção de Guantánamo — aberto em 2002 e destinado a suspeitos de terrorismo — 60 cidadãos paquistaneses.

Nesse campo, os paquistaneses foram a quarta nacionalidade mais numerosa, a seguir a afegãos, sauditas e iemenitas. Entre os paquistaneses detidos, está ainda Khalid Sheikh Mohammed, considerado “o principal arquiteto do 11 de Setembro” no Relatório Final da Comissão ao atentado.

Nascido na província do Baluquistão, foi detido a 1 de março de 2003 em Rawalpindi, numa operação conjunta da CIA e do ISI. No já citado livro de Patrick Cockburn, este defende que o falhanço da “guerra ao terrorismo” e o ressurgimento da Al-Qaeda tornaram-se previsíveis a partir do momento em que Washington delineou uma estratégia sem confrontar diretamente os aliados Arábia Saudita e Paquistão, “sem o envolvimento dos quais o 11 de Setembro provavelmente não teria acontecido”.

5. A religião domina a doutrina de segurança nacional paquistanesa

O ano de 1979 foi dos mais importantes — e tumultuosos — do século XX e no Paquistão não foi exceção. Em fevereiro concretizou-se a Revolução Islâmica no Irão, em março foi assinado o tratado de paz entre o Egito e Israel, em agosto estalou o choque petrolífero, em novembro islamitas armados ocuparam a Grande Mesquita de Meca e em dezembro a União Soviética invadiu o Afeganistão.

De permeio, em abril, no Paquistão, Zulfiqar Ali Bhutto (pai de Benazir) foi executado e o país começou um novo rumo. “Um primeiro-ministro eleito, Zulfiqar Ali Bhutto, foi executado por um ditador militar, [o General] Zia ul-Haq, estabelecendo a base para uma governação do exército de 11 anos que, por um lado, desencadeou ambições políticas e estratégicas arrogantes por parte do exército e, por outro, pôs em movimento o processo de islamização do país”, defende o antigo embaixador paquistanês Touqir Hussain, no artigo “Paquistão pós-1979: O que correu mal?”, publicado pelo The Middle East Institute, de Washington. Estes dois eixos de ação “fundiram-se como parte de uma doutrina de segurança nacional dominada pela religião que transformou a política regional do Paquistão numa jihad”.

Estudantes paquistaneses, durante uma aula no seminário Darul Uloom Haqqania, por onde passaram vários líderes talibãs, na província Khyber Pakhtunkhwa

Estudantes paquistaneses, durante uma aula no seminário Darul Uloom Haqqania, por onde passaram vários líderes talibãs, na província Khyber Pakhtunkhwa

Zohra Bensemra / Reuters

6. Políticas internas de islamização alimentaram o fundamentalismo religioso

Ao abrigo das políticas de islamização iniciadas na década de 80, muitos “mujahidin” foram encorajados por Islamabad (em aliança com os EUA) a combater a URSS no Afeganistão. Após a retirada soviética, em 1989, a maioria deles nunca seria desarmada, dando origem a grupos que, anos depois, aterrorizariam países vizinhos e tornar-se-iam uma ameaça à segurança nacional do próprio Paquistão.

São exemplo o Tehrik-i-Taliban Pakistan (TTP, talibãs paquistaneses) e o Lashkar-e-Taiba, que reivindicou os ataques de Bombaim de 2008 (166 mortos). Um telegrama de 13 de novembro de 2008 do consulado dos EUA de Lahore para o Departamento de Estado, divulgado pelo caso Wikileaks, alertava para a existência de “madrassas” paquistanesas (escolas, geralmente anexas ou no interior de mesquitas) financiadas pela Arábia Saudita e onde era fomentado o “radicalismo religioso” em regiões “anteriormente moderadas”.

Os diplomatas norte-americanos reportaram ainda o envio de crianças oriundas de famílias pobres para “madrassas” isoladas para depois serem recrutadas para “operações de martírio”. Em janeiro de 2016, o senador norte-americano Chris Murphy (democrata) denunciou a existência de 24 mil “madrassas” paquistanesas financiadas pela Arábia Saudita — país cuja ideologia oficial é o waabismo, uma interpretação integrista do Islão.

Apoiantes da organização islâmica Conselho Difa-e-Pakistan queimam a “Stars and Stripes”, durante um protesto em Karachi contra os ataques com drones levados a cabo pelos EUA

Apoiantes da organização islâmica Conselho Difa-e-Pakistan queimam a “Stars and Stripes”, durante um protesto em Karachi contra os ataques com drones levados a cabo pelos EUA

Athar Hussain / Reuters

7. A aliança com os EUA na “guerra ao terrorismo” torna o país alvo do extremismo

Ao aderir à coligação anti-terrorista liderada pelos EUA, o Paquistão colocou-se na mira do extremismo islâmico que o via como um obstáculo à “jihad” contra as “forças de ocupação” do Afeganistão. Como contributo para essa campanha, Islamabad desencadeou uma guerra dentro de portas, na zona do Waziristão (noroeste), contra grupos armados — de talibãs e membros da Al-Qaeda a elementos do crime organizado.

Este conflito interno rapidamente escalou para um cenário de resistência armada, colocando instituições do Estado, forças de segurança e a população civil na mira. Segundo o Portal de Terrorismo da Ásia do Sul, só em 2009 (o ano mais mortífero no pós-11 de Setembro) morreram 11.704 pessoas em atentados terroristas no Paquistão. Mas o ódio às autoridades de Islamabad não é exclusivo dos jihadistas.

Entre a população civil, a impopularidade do Governo cresce de cada vez que morrem civis em bombardeamentos dos EUA com aparelhos não tripulados (drones). Desde 2004 que a CIA tem em curso uma operação que visa, sobretudo, as áreas tribais do noroeste, em especial o vale do Swat, junto ao Afeganistão. Segundo a New America Foundation, até 22 de fevereiro de 2016, os drones já mataram 3053 pessoas no Paquistão. Dos 402 ataques registados, 48 foram ordenados por George W. Bush e 354 por Barack Obama. As mortes de civis e os milhões de deslocados internos em fuga aos bombardeamentos disseminam o desejo de vingança entre os jovens, que assim se tornam cérebros fáceis de manipular por grupos como os talibãs.

8. Forças de segurança e serviços de informação paquistaneses não são fiáveis

A captura de Osama bin Laden, a 2 de maio de 2011, em Abbottabad, colocou o Paquistão numa situação embaraçosa. Oficialmente, o país era aliado dos EUA na “guerra ao terrorismo”, mas na prática mais parecia ser cúmplice dos maiores terroristas. Khalid Sheikh Mohammed, o arquiteto do 11 de Setembro, tinha sido capturado em território paquistanês (2003) e agora “o homem mais procurado do mundo”, que vivia numa cidade onde estavam sedeados três regimentos do Exército paquistanês, o sexto mais poderoso do mundo.

Bin Laden vivia numa mansão construída em 2005, protegida por muros altos e situada a 1300 metros da Academia Militar de Kakul. Nos mapas, áreas circundantes à casa surgiam assinaladas como “áreas de acesso restrito”. O Wikileaks revelou que, em dezembro de 2009, um general do Tadjiquistão com responsabilidades na área do contraterrorismo alertara para o facto dos esforços para apanhar Bin Laden estarem a ser frustrados paquistaneses corruptos.

“No Paquistão, Osama bin Laden não é um homem invisível e muitos conhecem o seu esconderijo no Waziristão Norte”, disse Abdullo Sadulloevich Nazarov, citado num telex diplomático norte-americano. “Mas sempre que forças de segurança tentam efetuar um ataque surpresa, o inimigo recebe um alerta por parte de fontes das forças de segurança.” O facto de Washington não ter informado o Paquistão acerca da operação da CIA no interior do país foi a maior prova de desconfiança em relação a Islamabad.

Bairro de lata em Islamabad, a capital do Paquistão

Bairro de lata em Islamabad, a capital do Paquistão

Zohra Bensemra / Reuters

9. O Paquistão é dos países mais subdesenvolvidos e corruptos do mundo

Com mais de 185 milhões de habitantes, o país sofre de uma situação generalizada de subdesenvolvimento, ocupando um modesto 147º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas de 2015 (em 188 países). A esperança média de vida à nascença é de 66,2 anos e a média de escolaridade não vai além dos 4,7 anos. Mais de 45% da população vive em situação de “pobreza multidimensional” (privada de escolaridade, sofrendo de subnutrição ou sem acesso a água potável) ao nível da maternidade há uma média de 170 mortes por cada 100.000 nados vivos. No ranking de 2015 da organização Transparência Internacional sobre a corrupção no mundo, o Paquistão surge na 117ª posição (num total de 168 países). Paralelmente, o Paquistão é dos cinco países que mais ajuda recebe, anualmente, dos Estados Unidos: em 2014, recebeu 933 milhões de dólares (819 milhões de euros) de ajuda económica e mais 280 milhões de dólares (246 milhões de euros) para fins militares.

“Índia, desocupa a nossa Caxemira”, lê-se no cartaz segurado por um menino paquistanês, durante uma manifestação em Karachi, a 5 de fevereiro de 2016

“Índia, desocupa a nossa Caxemira”, lê-se no cartaz segurado por um menino paquistanês, durante uma manifestação em Karachi, a 5 de fevereiro de 2016

Akhtar Soomro / Reuters

10. O conflito na Caxemira contribui para um estado de guerra permanente

O Paquistão, enquanto país independente, nasceu em 1947, fruto da partição da Índia Britânica. Dessa divisão resultou também a Índia, de maioria hindu — e uma ferida aberta entre os dois novos países: o território da Caxemira, que ambos disputam. Se é verdade que o Paquistão está muito exposto a tudo o que acontece no Afeganistão, é a rivalidade com a Índia que mais preocupa a república islâmica.

Durante o século XX, os dois países travaram três guerras abertas (1947, 1965, 1971) que, direta ou indiretamente, tiveram na origem a disputa pela Caxemira. Esta rivalidade contribui para um permanente estadod e alerta e para o facto do Paquistão ter o sexto maior exército do mundo, com cerca de 650 mil efetivos — ainda assim muito longe do contingente da Índia, que tem mais de 1.300.000 militares. Em 1998, o Paquistão tornou-se o primeiro país (e até agora único) a entrar no estrito clube das potências nucleares, elevando o nível de perigosidade de um eventual novo conflito com a Índia, também ela uma potência nuclear.