Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“Os organismos criados pelas Nações Unidas nunca foram neutros”

Centenas de estrangeiros e cambojanos partem para a Tailândia, onde encontram refúgio na embaixada francesa, em maio de 1975

STF/AFP/Getty Images

Há precisamente 25 anos eram assinados em Paris os acordos que puseram fim à guerra entre o Camboja e o Vietname. O Expresso falou com o professor Sophal Ear, uma das vítimas do regime de Pol Pot

Não são os dias negros do regime despótico de Pol Pot, um professor de francês adorado pelos alunos tornado líder de um delírio marxista que vitimou dois milhões de pessoas, muitos eram “intelectuais" como ele mesmo tinha sido, mas vivem-se tempos turbulentos no Camboja. Hun Sen, primeiro-ministro herdeiro do partido comunista de Pot, está no poder há três décadas e os ataques aos seus críticos têm-se revelado mais frequentes, segundo relatórios de várias organizações humanitárias presentes no país. Passaram 25 anos desde que 19 países assinaram, em Paris, uma espécie de “mea culpa” colectivo: não soubemos intervir para estancar os massacres - não só o de Pol Pot como o dos bombardeamentos americanos e a invasão do Vietname em 1989 - mas agora estamos comprometidos em ajudar a manter a paz e em apoiar o vosso desenvolvimento. Os avanços são inegáveis mas é “uma lenta marcha pela civilização” como explica ao Expresso Sophal Ear, que hoje é professor de Relações Internacionais e Diplomacia no Occidental College em Los Angeles mas que no fim dos anos 70 teve que fugir do seu país como tantos outros milhares.

No documento que os 19 países assinaram há 25 anos em Paris ficam claros quatro objectivos: a reconciliação entre as várias facções políticas do Camboja, a pacificação do país, a auto-determinação do povo e proteção dos direitos humanos. O que é que falta cumprir?
Falta a reconciliação de forças políticas e o reforço dos direitos humanos. Os acordos pediam que “todas os organismos administrativos afetos às areas da segurança nacional, informação, defesa e finanças fossem completamente neutros” - isto não aconteceu nem por um segundo. Porque é que, se os apoiantes da monarquia ganharam as primeiras eleições livres em 1993, mesmo assim tiveram que partilhar o poder com o CPP (Cambodia People Party, partido actualmente no poder)? Porque os tais organismos nunca foram isentos.

Quais foram, no seu entender, os principais retrocessos em termos de direitos humanos dos últimos anos?
A situação política flutua mas estamos piores do que há dez anos. Em 2006 não havia membros da oposição no governo, o Sam Rainsy (líder do partido da oposição Cambodia National Rescue Party) não estava no exílio com medo de voltar e ser preso sem julgamento, o seu vice, Kem Sokha, não estava fechado na sede do partido entre outras coisas. A oposição é sem sombra de dúvidas muito menos livre. E depois há outro problema: as cúpulas tem cada vez mais poder e por isso têm mais a perder: já se criou uma segunda geração de multi-milionários, são pessoas que acham que nada tem que mudar.

A expropriação de terras é apontado por alguns analistas como um dos mais urgentes problemas do país. Concorda?
Sem dúvida. As fábricas dos grandes grupos económicos ocupam terras de onde as pessoas tiveram que ser despejadas. Se a população é desmobilizada, os negócios que desaparecem, e, normalmente, as pessoas têm que deslocar para áreas onde não existem as infra-estruturas de que necessitam. A solução é pagar por protecção. Tudo isto revela uma coisa muito grave, mas muito simples: a diferença entre classes no Camboja é abismal.

Existe também o problema da separação de poderes…
Os maiores entraves ao desenvolvimento são a corrupção e falhas severas na isenção judicial. A corrupção suga o sangue das pessoas e por sua vez da economia porque não sobra dinheiro para consumir. Isto liga-se à independência e igualdade perante a lei - ou à falta delas. As pessoas não sentem que possam opor-se às injustiças por via dos tribunais. Se pensarmos bem, isto põe em causa a democracia.

Que mudanças vê no Camboja de hoje em relação a 1991?
Há eleições regulares, a saúde e a educação melhoraram muito mas a democracia não foi consolidada. A economia cresce 7% ao ano mas estaríamos bem melhor se o Camboja fosse realmente um Estado de Direito onde as elites enfrentam a justiça, em vez de contornarem, onde os cidadãos têm direito a manter as suas terras, onde nos pudéssemos manifestar sem medo de represálias. É verdade que a esperança média de vida aumentou 14 anos, que chovem milhares de milhões de dólares em investimento chinês e em ajuda internacional, que o embargo económico foi levantado e que as pessoas que visitam o país querem investir mas ainda assim eu penso: se as coisas fossem melhor distribuídas a economia teria um combustível inesgotável: as pessoas.

Há uma nova geração que recusa calar-se. É deles que o governo tem medo?
Os mais novos recusam ficar ancorados no passado, recusam-se a acreditar cegamente no que lhes é dito. Em terra de cegos quem tem um olho é rei. Os mais novos já não são cegos. Querem conhecer o sabor da liberdade e da oportunidade que existe em outros países que conhecem pelos ecrãs dos telemóveis. Já viajaram, leem tudo na internet, não aceitam os cânones. O futuro é deles, a escolha é deles: ou continuam a aceitar uma cultura de impunidade ou chegam à conclusão que já chega. Querem oportunidades para eles e para os seus, não aceitam tão bem como as gerações anteriores que estas sejam dadas a apenas aos que já cresceram no topo da cadeia: à velha guarda e aos os filhos da velha guarda.

O que é que precisa de acontecer para que o país encontre o caminho para um desenvolvimento que inclua toda a população?
Como falámos, três décadas da mesma liderança é um claro impedimento à evolução de uma sociedade. A definição de loucura é repetir os mesmos erros à espera de resultados diferentes. O Camboja está a movimentar-se na direção de uma sociedade mais racional, que valoriza mais a justiça do que a lealdade cega, valoriza mais o mérito que o parentesco. É a longa marcha da civilização só que a caminhada do Camboja está a começar: temos que sair desta sociedade feudal na qual ainda nos encontramos. No fundo não é que sejamos diferentes de qualquer outro país em desenvolvimento mas os nossos piores hábitos estão enraizados no próprio poder.

As memórias do regime de Pol Pot continuam a afectar a população?
Sim. Há uma grande falta de confiança no governo mas também na oposição. Como contei já em várias palestras, incluindo nas Ted Talks, a minha familia foi evacuada da capital, Phnom Penh, por generais que nos vieram avisar dos bombardeamentos iminentes e dizer que iríamos ser parte de um novo Camboja livre onde não haveria dinheiro que pudesse gerar qualquer tipo de desigualdade. De certa forma podemos argumentar que o dinheiro é a raiz de muitos males mas no Camboja de Pol Pot não existia dinheiro, literalmente, e o mal alastrou também, sem freio.

Como é que a comunidade internacional pode ajudar?
Denunciando mais alto aquilo que se passa no Camboja: quando vemos o país a cair nos seus velhos vícios devemos denunciá-lo. Podemos recusar vistos a pessoas que continuam a cometer atentados aos direitos humanos ou congelar os seus bens por exemplo. Os Estados Unidos já têm uma lei nesse sentido mas o Senado ainda tem que aprovar. A União Europeia devia fazer o mesmo. Prémios, convites para conferências, doutoramentos honorários, é uma espécie de “status” que de alguma forma apagam os feitos destas pessoas. É tempo de relembrar que quando os Acordos de Paris foram assinados ficou estabelecido que se deveriam monitorar os avanços - e os recuos - da democracia e dos direitos humanos e isso não tem sido feito.