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Mataram Lucía. Mataram Lucía. Mataram Lucía

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Os pormenores da morte de Lucía – e da violação que a precedeu – são demasiado fortes para serem contados aqui. Podemos falar-lhe da forma como a jovem de 16 anos foi agarrada contra a sua vontade e drogada, antes da agressão que a levou a uma morte injusta e precoce. Podemos falar-lhe da forma como, na Argentina, uma mulher morre a cada 36 horas vítima da violência de género – um hábito, diz ao Expresso quem o enfrenta, que faz parte de uma sociedade “que valoriza mais o homem do que a mulher”. Houve uma “quarta-feira negra” no país esta semana: as argentinas fartaram-se, pararam o país e vestiram-se de luto para pedir que não haja “nem mais uma mulher a menos”. “Se tocam numa de nós, todas reagimos.” Este é um relato sobre o horror - mas também sobre a coragem de quem o combate

Lucía morreu demasiado cedo. Antes dela, há um ano, Chiara também morreu demasiado cedo. Entre elas, nos 365 dias que passaram, outras 235 mulheres argentinas morreram por causa de um problema que enfrentam todos os dias: o machismo é um valor que faz parte da sociedade em que vivem, explicam, e faz uma vítima a cada 36 horas. Uma das mais recentes foi Lucía e o caso dela serviu para reabrir as feridas de um país em guerra contra a violência de género.

“Nem uma [mulher] a menos”, gritaram nas ruas de Buenos Aires, mas também de 80 outras cidades – do México, do Chile, da Bolívia, do Paraguai, onde gritar estas palavras já vem sendo um infeliz hábito -, protestantes que estão fartas e que decidiram fazer greve e mostrar o descontentamento nas ruas esta quarta-feira, conhecida agora como a “quarta-feira negra” das mulheres argentinas. Mas a negritude não desaparece num dia.

Em Buenos Aires, não houve chuva torrencial nem vento forte que parasse as protestantes, segurando cartazes onde pediam “nem uma a menos” e anunciavam: “Se tocam numa de nós, todas reagimos”. No dia 8 de outubro, tocaram em Lucía – três homens mais velhos levaram a jovem de apenas 16 anos para fora da escola, na cidade costeira de Mar del Plata, para casa de um deles, onde a drogaram e violaram, num incidente tão violento que Lucía acabaria por morrer pouco depois de chegar a um hospital.

O horror de Lucía – e de um país inteiro – começou naquela tarde do início de outubro, quando os três homens – Matías Farías, de 23 anos, Juan Pablo Offidani, de 41, e um terceiro de idade desconhecida – levaram a jovem para a casa de Farías. Lucía tinha conhecido os três homens mais velhos através de uma amiga que queria comprar marijuana e que os contactou por esse motivo.

Chegados à casa de Farías, o cenário terá sido de terror. Ninguém sabe exatamente o que se passou dentro daquelas quatro paredes – quando chegaram ao hospital para levar a jovem, que se encontrava em paragem cardíaca, Matías e Offidani tinham-na lavado e trocado as suas roupas, falando aos médicos de uma overdose de cocaína. Mas cedo os médicos perceberam que o caso teria assumido contornos diferentes e muito mais violentos – a jovem apresentava sinais de penetração violenta e violência sexual; a polícia encontrou na casa de Matías preservativos usados e brinquedos sexuais que terão sido usados durante a agressão a Lucía.

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“Já vi milhares de coisas, mas nunca nada como esta aberração”

Lucía foi agarrada contra a sua vontade e obrigada a ingerir quantidades enormes de cocaína e marijuana, sendo depois violada enquanto se encontrava naquela casa. Os três agressores já se encontram sob custódia policial, mas para um país que trava constantes guerras contra a violência de género – como no ano passado, quando o corpo de Chiara Paez, uma jovem de apenas 14 anos que se encontrava grávida, foi encontrado enterrado no quintal do namorado – a detenção dos três, que agora enfrentam a possibilidade da prisão perpétua, não chega.

“Sair às ruas é a única maneira de impedir que haja milhares de outras Lucías”, escreveu, num post emocionado no Facebook, o irmão da jovem, Matías, de 19 anos. “Só assim ela pode fechar os olhos e descansar em paz”, argumentou o rapaz, recordando a curta vida de Lucía, que adorava “arte, música rock e dança”. O choque dos pais, que iniciaram um movimento para pedir a prisão perpétua dos agressores, ficou patente nas declarações que deram à imprensa: falavam de uma “barbaridade” e de “desumanidade”. A procuradora principal do caso, María Isabel Sánchez, foi mais longe: “Sei que não é muito profissional dizer isto, mas sou mulher e mãe e já vi milhares de coisas na minha carreira, mas nenhuma como esta série de atos aberrantes”, sublinhou, citada pela BBC.

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A cada 36 horas morre uma mulher na Argentina vítima de violência doméstica; no ano passado, recorda o “El País”, metade das 235 mulheres mortas em crimes de género estavam ou já tinham estado numa relação com o agressor – e duas em cada 10 já tinham feito queixa à polícia do companheiro ou ex-companheiro que viria depois a tirar-lhes a vida.

“Ser mulher na Argentina em 2016 é ter uma vida aparentemente moderna, mas não ter tanta independência como aparentamos e acreditamos ter”, explica Mabel Bianco, presidente da Fundação e Investigação da Mulher na Argentina, em entrevista ao Expresso. “O machismo é um valor cultural muito difundido em todos os países da América Latina, que se mantém devido a uma cultura que valoriza mais o homem do que a mulher. Na Argentina achamos que somos mais europeus do que latino-americanos, mas o machismo existe.”

É esta noção que tem levado governantes e figuras públicas ao mais alto nível a juntarem-se ao movimento “Nem uma a menos” e até a tomarem medidas para pôr fim à violência machista. Foi em 2009 que o Governo argentino anunciou uma lei para pôr cobro a “todas as formas de violência contra mulheres e meninas” – uma lei “positiva”, explica Bianco, mas ineficaz porque não “prevê nenhuma penalização, e isso não foi resolvido com nenhuma outra lei desde então”.

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Nova tentativa foi feita em julho deste ano, depois de mais uma onda de protestos nas ruas sob o slogan “Basta de violência machista”. Na altura, o presidente, Mauricio Macri, reconheceu mesmo que a educação seria a chave para perceber os padrões culturais de um tipo de violência tão enraizado na sociedade argentina, aprovando uma série de medidas como a manutenção de registos eletrónicos sobre homens violentos ou a criação de uma rede de abrigos para mulheres que devem ser postas em prática no início do próximo ano. Também o Conselho Nacional das Mulheres, uma agência governamental, anunciou que as noções sobre violência de género seriam incluídas no currículo escolar.

Insistia Macri na altura que “este não é apenas um trabalho do Governo, mas da sociedade inteira”. Infelizmente, nem o aviso nem sequer o caso arrepiante de Lucía parecem estar a mudar os hábitos de uma sociedade em ferida aberta: nos dias seguintes à morte de Lucía, foram registados casos de mortes de outras três mulheres, estando a ser investigado um possível quarto caso, conforme relata o “El País”. Bianco insiste: “Só agora é que as pessoas estão a ganhar consciência da desigualdade das mulheres. O caso de Lucía ajudou, mas as mudanças culturais requerem muito tempo e trabalho de toda a sociedade”. Matías, que insistiu em reconhecer o corpo da irmã contra os conselhos da polícia, faz o mesmo apelo: “Temos de ser fortes, sair às ruas e gritar todos juntos, agora mais do que nunca: nem uma a menos”.