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Verdades e falsidades dos dois candidatos em quem a maioria não confia

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O terceiro debate entre os dois principais candidatos à Casa Branca, o último antes das eleições de 8 de novembro, foi dividido em dez segmentos pelo moderador Chris Wallace. Escrutinamos à lupa cada um deles e tentamos detetar inconsistências nos argumentos dos dois candidatos. Antes deste debate, uma estatística proclamava isto: 71% das alegações de Trump durante a campanha foram falsas contra 27% de incongruências atribuídas a Clinton. Mais dados: numa sondagem recente para a ABC News e o “Washington Post”, 62% dos inquiridos disseram que não gostam e não confiam na candidata democrata, ainda assim um nível de popularidade menos mau que o de Trump, nessa e noutras sondagens

Ao contrário dos anteriores debates, em que pouco ou nada foi discutido sobre os programas políticos dos aspirantes à Casa Branca, esta noite foi recheada de conteúdo, entre factos e mentiras repescados por um Donald Trump e uma Hillary Clinton mais sóbrios e relativamente mais moderados, ainda assim investidos em lutar na lama.

A democrata voltou a acusar Trump de comportamentos “predatórios” com as mulheres e exigiu-lhe que condenasse a ingerência da Rússia nas eleições através de ciberataques aos democratas. O moderador, Chris Wallace, apoiou essa exigência e confrontou o republicano com as suas próprias alegações de uma fraude eleitoral à espera de acontecer (para já não admite a derrota); à democrata pediu explicações sobre os seus discursos pagos, que a WikiLeaks revelou há uma semana. A dada altura, Clinton viu-se obrigada a defender não só o seu currículo, mas também o do marido e o de Barack Obama, encerrando o debate com a mira apontada aos indecisos.

A grande ausência no encontro: perguntas sobre o alegado plano de Trump para lançar um canal de televisão no rescaldo das eleições, uma notícia do “Financial Times” que tem levado muita gente a questionar se a sua candidatura à Casa Branca não terá sido apenas uma manobra de marketing — uma ideia sustentada por figuras da sociedade norte-americana como o realizador Michael Moore, que diz que Trump nunca quis realmente ganhar.

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No final do debate, a maioria dos eleitores consultados em sondagens sobre a prestação dos candidatos voltou a dar a vitória à ex-secretária de Estado, como nos dois anteriores. Antes do encontro em Las Vegas, quase todas as sondagens nacionais e estatais previam que Hillary vai ganhar a 8 de novembro — à exceção de uma, do Investor’s Business Daily/TechnoMetrica Market Intelligence, que dá uma vantagem de 1% a Trump a nível nacional.

O “International Business Times” diz que os inquéritos deste instituto podem estar mais perto da verdade do que os restantes pelo facto de terem sido os que mais se aproximaram dos resultados das últimas três idas às urnas nos EUA. Talvez por isso Clinton tenha levado a sério o último encontro com Trump, em vez de se encostar à sombra da crónica de uma vitória anunciada que quase toda a imprensa já escreveu a três semanas das eleições.

Até esta noite, o PolitiFact tinha apurado, de um total de 567 vezes que fez fact-checking aos dois principais candidatos durante a campanha, que 71% das alegações de Trump foram falsas contra 27% de incongruências atribuídas a Clinton. No rescaldo desta derradeira oportunidade para falarem a toda a nação, o rácio não terá mudado muito. Aqui esmiuçamos os dez temas que dominaram o frente a frente e as mentiras e verdades que foram arremessadas até ao suspiro final. A luta agora faz-se no terreno e, nesse campo, Clinton também tem uma enorme vantagem.

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1. Supremo Tribunal (e as armas, as armas)

Uma parte dos eleitores americanos que planeiam votar em Donald Trump tem como objetivo único impedir a eleição de Hillary Clinton, sobretudo alumiados pelo receio de que a ex-secretária de Estado venha a nomear para o Supremo Tribunal (pelo menos) um juiz que faça a balança pender a favor dos liberais.

Os dois mandatos de Barack Obama, que chegam ao fim a 20 de janeiro quando passar o testemunho a quem vencer as eleições de novembro, foram marcados por uma série de vitórias da esquerda no Supremo, entre elas a legalização federal do casamento gay e a declaração de inconstitucionalidade de duas leis aprovadas pelo Texas para dificultar o acesso das mulheres do estado à interrupção voluntária de gravidez.

Foram grandes derrotas para os conservadores, às quais se juntou a súbita morte de Antonin Scalia em fevereiro. Nomeado para o Supremo em 1986 por Ronald Reagan, tido como um dos mais conservadores juízes da alta instância judicial, Scalia desapareceu pouco depois do início das primárias partidárias, deixando um vazio que está a ser aproveitado até hoje pelos republicanos em maioria no Congresso. Mantêm bloqueada a nomeação do presidente para substituir Scalia, na tentativa inicial de deixar essa escolha para quem viesse a substituir Obama (na altura não imaginavam que seria Donald Trump a ganhar a nomeação do partido).

Não só a ausência de um nono juiz torna difícil o desempate dos casos levados ao Supremo, como há dois outros membros da alta instância judicial que têm mais de 80 anos - o que aumenta as probabilidades de mais nomeações no horizonte, a cargo do próximo líder norte-americano. Por tudo isto, Wallace escolheu precisamente o Supremo para dar o mote ao debate, começando por perguntar aos dois candidatos “para onde querem que o tribunal conduza o país” e como acham que “a Constituição deve ser interpretada”.

“Quero um Supremo que defenda as mulheres e a comunidade LGBT, que se pronuncie contra o Citizens United [sobre o financiamento de campanhas e declaração de despesas eleitorais]”, declarou Clinton, antes de acrescentar que “a coisa certa a fazer é o Senado aprovar a nomeação apresentada pelo presidente [Obama] para o Supremo”.

Trump respondeu com referências à 2.ª emenda, que garante o direito dos norte-americanos à compra e posse de armas de fogo. “Quero um Supremo que defenda a 2.ª emenda, que está sob ataque. Já apresentei 20 propostas de juízes que irão interpretar a Constituição da forma que ela deve ser interpretada.” Clinton ripostou que, embora respeite e defenda a 2.ª emenda, “há 33 mil pessoas que morrem por ano por causa de armas de fogo” e que essa é uma questão que deve ser endereçada (o dado está correto e corresponde a 90 mortes por dia). “Não vejo conflitos entre salvar as vidas de crianças e defender a 2.ª emenda.” Trump contra-atacou: “A melhor maneira de apoiar a 2.ª emenda é escolher os juízes certos para o Supremo”.

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2. Aborto (uma acusação e uma não verdade)

Fazia sentido passar do Supremo para a interrupção voluntária de gravidez indesejada, um direito que tem estado sob ataque em vários estados, entre eles o Texas. Para lançar o tema, Wallace colocou uma questão a cada um dos candidatos, a começar por Trump. “Diz que é pró-vida — quer que o Supremo, incluindo os juízes que nomeará, anulem a decisão do Roe vs. Wade que declara o direito de uma mulher a abortar?”

Trump confirmou que é pró-vida e que vai nomear juízes pró-vida para o Supremo, antes de Clinton responder à pergunta que lhe foi dirigida — “Foi citada a dizer que o feto não tem direitos constitucionais e também votou contra a proibição de abortos em estado avançado de gravidez. Porquê?”.

“Isto não tem só que ver com o Roe vs. Wade”, respondeu Clinton, não sem antes defender o legado do famoso caso judicial de 1973 que, pela primeira vez, legalizou o aborto nos EUA. “O que se passa na América é que há estados que estão a retirar financiamento a clínicas da Planned Parenthood, que não fazem só abortos, e eu vou defendê-las e o direito das mulheres a decidirem sobre a sua saúde.”

Trump interrompeu-a para dizer que o que ela defende é que se pode “arrancar um bebé do útero da mãe no último dia da gravidez”. (O PoliticFact diz que não é verdade). Hillary acusou-o de recorrer mais uma vez à “retórica do medo” e explicou que votou a favor da interrupção da gravidez no último trimestre quando a saúde da mãe está em risco, situações e decisões “extremamente difíceis” para a mulher ou o casal: “O Governo não tem nada que ver com decisões familiares como essa”. Trump discordou e prometeu anular as leis do Supremo e devolver o poder de decisão sobre o direito ao aborto a cada estado dos EUA.

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3. Imigração (Trump a falar espanhol - quem diria?)

O terceiro ponto foi introduzido por Wallace como “o tema que parece separar-vos mais do que todos os outros”: a imigração. “O senhor Trump quer construir um muro [na fronteira com o México]. A secretária Clinton ainda não apresentou nenhum plano específico sobre como vai manter segura a nossa fronteira a sul. O senhor Trump quer deportações em massa. A secretária Clinton disse que, nos seus primeiros dias como presidente, vai apresentar um pacote para facilitar a obtenção de cidadania. A questão aqui é: porque é que cada um acha que está certo e que o rival está errado?”

“Em primeiro lugar”, lançou Trump, “ela quer dar amnistia [a clandestinos], o que é um desastre e muito injusto para todas as pessoas que esperam anos e anos na fila”. “Precisamos de fronteiras mais seguras. [...] Temos de manter as drogas fora do nosso país. Neste momento, nós ficamos com as drogas e eles ficam com o dinheiro. Precisamos de fronteiras mais seguras. Precisamos absolutamente... não podemos dar amnistia. [...] Assim que a fronteira estiver segura, mais tarde, iremos determinar o que fazer quanto ao resto. Temos maus hombres aqui e vamos expulsá-los”, concluiu.

(Um comentador diria na CNN, no rescaldo do debate, que foi a primeira e única expressão em espanhol que Trump proferiu até agora em toda a campanha. A revista “Wired” selecionou-a como o motor dos “65 melhores tweets sobre o terceiro debate”. A gestora de campanha de Trump fugiu às perguntas sobre a escolha de palavras do candidato.)

Clinton bateu-se pelo plano de legalizar milhões de imigrantes sem documentos com filhos nascidos nos EUA. “Não quero separar famílias. Não quero mandar pais para longe dos filhos. Temos 11 milhões de pessoas sem documentos. Elas têm 4 milhões de filhos que são cidadãos americanos.” Trump contra-atacou com o facto comprovado de que Barack Obama deportou “milhões e milhões de pessoas” desde 2009 (muito mais gente do que qualquer outro presidente dos EUA, apontam vários estudos) e que Clinton votou a favor do muro na fronteira com o México em 2006 quando era senadora (também é verdade, ainda que não nos moldes em que Trump quer construí-lo).

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4. WikiLeaks, ciberataques e Vladimir Putin (ou reflexões sobre cobardia e espionagem)

Aqui, Wallace começou por perguntar a Clinton sobre um dos seus discursos pagos que a WikiLeaks revelou há uma semana, no caso ao banco brasileiro Itaú, pedindo-lhe que esclareça se é contra ou a favor de acordos comerciais transnacionais como o NAFTA ou o TTP, que Trump e os seus apoiantes dizem ser os grandes responsáveis pela perda de postos de trabalho nos EUA. “Num discurso que deu a um banco brasileiro, pelo qual recebeu 225 mil dólares, sabemos disto pela WikiLeaks, disse que, e cito-a: ‘Sonho com um mercado hemisférico comum com trocas abertas e fronteiras abertas’. É esse o seu sonho?”

“Se ler o discurso todo percebe que estava a falar de energia. Nós trocamos mais energia com os nossos vizinhos do que com o resto do mundo combinado e eu quero que tenhamos uma rede elétrica, um sistema energético, que atravesse fronteiras. Penso que isso seria muito benéfico para nós. Mas está claramente a citar a WikiLeaks. E o que é realmente importante sobre a WikiLeaks é que o Governo russo envolveu-se em espionagem contra os americanos. Tem estado a atacar websites americanos, contas privadas de pessoas americanas, de instituições. E depois deu essas informações à WikiLeaks para que fossem publicadas na internet. Isto veio dos mais altos níveis do Governo russo, claramente do próprio Putin, num esforço, confirmado por 17 dos nossos serviços de informação civis e militares, de influenciar as eleições”, lançou a antiga chefe de diplomacia, exigindo que Trump rejeite a espionagem ilegal e condene Putin.

“Como é que chegámos ao Putin?”, questionou o rival, tentando encaminhar o assunto novamente para as fronteiras abertas, para o facto de Obama ter deportado “milhões e milhões” e para a sua promessa de combater o “terrorismo islâmico radical, palavras que ela e ele [Obama] nem sequer usam”. “E agora sim”, acabou por declarar, “podemos falar de Putin”. “Eu não conheço o Putin. Ele disse coisas simpáticas sobre mim. Se nos dermos bem, isso será bom. Se a Rússia e os EUA se entenderem e forem atrás do Daesh, isso será bom. [...] E deixem-me que vos diga: estamos em sarilhos porque temos um país [Rússia] com 1800 ogivas nucleares que esteve a expandir o número de ogivas e nós não. E ela [Clinton] está a dar uma de cobarde.”

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Wallace interrompeu Trump para o pressionar sobre os ciberataques russos. “As mais altas autoridades de segurança deste país acreditam que a Rússia está por trás destes ataques, mesmo que não tenhamos a certeza que está de facto. Condena qualquer interferência russa nas eleições americanas?” “Claro, mas eu não conheço Putin de lado nenhum - mas não seria assim tão mau se os EUA se entendessem com a Rússia”, respondeu o candidato. “Putin tem levado a melhor sobre ela e Obama a cada passo. E basta olhar para o Médio Oriente. Nós gastámos 6 biliões de dólares e eles é que tomaram conta do Médio Oriente.”

Clinton aguardou pela sua vez para voltar às ogivas, já depois da birra máxima do debate (sobre quem é o maior “fantoche” de interesses ulteriores). “Acho irónico que ele fale de armas nucleares, sendo uma pessoa que tem falado sem preparação, até casualmente, sobre usar armas nucleares.” Trump interrompeu-a para lhe chamar “mentirosa”. Mas as equipas de fact-cheking, a começar pela CNN minutos depois do final do debate, deram razão à democrata.

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5. Planos para a economia (e para os ricos, essa questão fraturante)

Mais uma questão fraturante na corrida, em que Clinton pede mais incentivos ao crescimento económico - dando continuidade ao programa de estímulo de Obama - e em que Trump promete criar 25 milhões de empregos e uma taxa de crescimento de 4% cortando nos impostos às empresas e aos mais ricos (“um plano nada realista”, apontou Clinton mas também o próprio moderador).

Aqui, a democrata disse querer “aumentar as oportunidades da classe média” para que os EUA possam competir com países ricos, “aumentar o salário mínimo”, lutar pela igualdade de género no mercado laboral e executar o plano desenvolvido com Bernie Sanders para acabar com o endividamento de estudantes universitários. “Vamos ter isso e também as multinacionais a pagar a sua parte”, concluiu, acusando o rival de querer “os maiores cortes de sempre nos impostos aos mais ricos” (também é verdade).

Trump respondeu que o plano de Clinton é “um desastre” e que uma das suas estratégias se for eleito será “continuar a defender países ricos como a Alemanha, a Coreia do Sul, o Japão ou a Arábia Saudita” sob a condição de que paguem por esses serviços, uma condição que também quer impor a todos os membros da NATO. Clinton contrapôs que não pretende mexer nos impostos de quem faz menos de 200 mil dólares por ano, dizendo que Obama “não ganha crédito suficiente” pelas “duras decisões” que teve de tomar para tirar o país da recessão. “Agora que saímos dela, levantámo-nos mas ainda não estamos a correr. Portanto, o que proponho é investir na classe média a partir de baixo e não de cima para baixo, porque isso não vai resultar. Nós já tentámos cortar os impostos aos mais ricos e não funcionou da maneira que tinha sido prometido.”

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A julgar pela própria pergunta de Wallace a Trump neste ponto, sobre a falta de credibilidade económica do seu plano, não vai mesmo funcionar. Para desviar as atenções disso, o republicano sacou de mais acusações à candidata por ter “perdido 6 mil milhões de dólares” quando dirigia a diplomacia norte-americana e ao seu marido, que enquanto presidente aprovou acordos comerciais “desastrosos” que roubaram empregos aos americanos.

“Lágrimas de crocodilo” pelos trabalhadores que diz que vai defender quando, na verdade, quem construiu a sua Torre Trump em Manhattan foram trabalhadores chineses do sector metalúrgico que eram “ameaçados com deportação se não fizessem o que ele queria”, acusou a democrata. Sobre o dinheiro desaparecido, perdeu uma oportunidade de provar que Trump mentia, como fez o snopes.com com base num relatório interno do Departamento de Estado. Ao defender o currículo económico de Bill Clinton, que transformou um défice orçamental de 300 mil milhões num excedente de 200 mil milhões, Clinton acabou por ir demasiado longe — não aí, esse dado está correto, mas sim quando acrescentou que, graças ao marido, o país “na verdade esteve a caminho de eliminar a dívida nacional” por completo. Segundo o "New York Times", nem de perto nem de longe: a dívida federal paga pelos contribuintes totalizava 3,4 mil milhões de dólares no final de 2000.

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6. Aptos para a presidência? (ou como a audiência acabou a rir)

O tema do assédio e abuso sexual de mulheres de que Donald Trump se gaba numa gravação de 2005 era incontornável e foi encaixado por Wallace a meio da hora e meia. Já tinha sido tema forte do anterior debate, mas entre esse e o desta noite, nove mulheres vieram a público partilhar as suas histórias sobre como Trump as beijou e/ou apalpou sem consentimento em distintos episódios nas últimas décadas. O moderador partiu daí para lhe perguntar se, perante isto, se considera apto a ocupar a Casa Branca. Trump foi rápido a fugir à questão.

“Essas alegações foram desmentidas em larga medida”, disse sem provas concretas, a não ser uma alegada testemunha que surgiu em sua defesa a desmentir que o candidato tenha abusado sexualmente de Jessica Leeds num voo doméstico em 1980. Não sendo certo porque é que Anthony Gilberthorpe, britânico à data com 18 anos, seguia num voo entre cidades americanas, os media foram desenterrar o passado da alegada testemunha e descobriram que é um mentiroso compulsivo: em 1987, convenceu vários jornais britânicos de que estava noivo de uma famosa estilista da Califórnia (para depois assumir que inventou tudo); anos depois, conseguiu ganhar um processo judicial contra vários jornais do Reino Unido que noticiaram que ele tinha Sida (sendo que só depois da vitória é que foi descoberto que a fonte dessa notícia foi ele próprio).

Trump apontou de seguida os canhões à campanha de Clinton, acusando-a de orquestrar uma “campanha de difamação”, tal como da última vez em que se encontraram, mas indo mais longe do que antes: “Ela e Obama pagaram para causar distúrbios e violência nos meus comícios, pagaram-lhes [aos arruaceiros] 1500 dólares e há gravações deles a dizerem-lhes ‘sejam violentos, causem confrontos, façam coisas más’.”

Em questão está um vídeo divulgado há poucos dias pelo Project Veritas Action, um grupo de lobby conservador que se infiltrou entre operativos do Partido Democrata para gravar a discussão de um alegado plano para provocar problemas nos comícios de Trump. O PolitiFact diz que ainda há muito por apurar no que toca a esse vídeo, assumindo que é deveras provocador e que vai dar que falar nos próximos dias, mas lembrando que o grupo já foi acusado várias vezes de editar a fundo os seus vídeos, colando excertos a outros excertos, por vezes sem qualquer ligação real, para implementar a sua agenda.

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Clinton decidiu ignorar a acusação e repescar os abusos sexuais e “comportamentos predatórios” de que Trump é acusado. “O Donald pensa que depreciar as mulheres o torna mais forte. É isto que o Donald é e está a cargo de todos nós mostrar quem somos e como queremos que o país seja gerido.” Trump ripostou com uma frase que, de tanto uso e contradição, já perdeu sentido nesta campanha: “Ninguém respeita mais as mulheres do que eu.” A plateia soltou uma gargalhada tímida em uníssono e Wallace exigiu silêncio. “Sabemos o que ele disse e fez a várias mulheres”, continuou Clinton. “Mas ele também gozou com um repórter deficiente, foi atrás da família de um soldado que morreu a servir o país por causa da sua religião [muçulmana]. E foi atrás de John McCain, um prisioneiro de guerra, quando disse que prefere pessoas que não sejam capturadas.”

Trump clamou mentira, mas buscas rápidas pela internet comprovam cada item de arremesso lançado por Clinton. Daí, o republicano saltou para a questão do servidor privado que a rival usou enquanto secretária de Estado, um tema que à partida teria potencial suficiente para ditar a sua derrota. Ao contrário de outras vezes, ele tinha a lição estudada e deu fogo ao tópico com acontecimentos recentes, nomeadamente o caso do general James Cartwright, que agora na reforma enfrenta uma pena de prisão após ter admitido que mentiu ao FBI.

“Não sei o que aconteceu ao FBI. Temos um grande general, de quatro estrelas, que como vimos hoje nos jornais pode vir a servir cinco anos na prisão por ter mentido ao FBI. Por uma mentira. Ela mentiu centenas de vezes ao povo, ao Congresso e ao FBI. Ele provavelmente vai para a prisão. E ela safa-se e pode candidatar-se à presidência dos EUA? Acho que é sobre isso que devíamos estar a falar, não sobre ficção, em que alguém [as mulheres que o acusam de abuso sexual] quer fama ou vem da campanha desonesta dela”, acusou, destacando o facto comprovado de que Clinton apagou 33 mil emails do seu servidor privado já depois de ter sido intimada a entregá-los ao Congresso.

7. Fundação Clinton e conflitos de interesse (Hillary em apuros, Trump também)

Clinton tem telhados de vidro mas, dado o cariz inédito e invulgar desta corrida eleitoral, até pode atirar pedras. Apesar de, no meio das mentiras e contradições, Trump dizer algumas verdades, não é provável que isso afete as intenções de voto dos americanos, apontam analistas. Numa sondagem recente para a ABC News e o “Washington Post”, 62% dos inquiridos disseram que não gostam e não confiam na candidata democrata, ainda assim um nível de popularidade menos mau que o de Trump, nessa e noutras sondagens.

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Wallace cumpriu o papel de confrontar a democrata com os mais recentes escândalos que a envolvem, incluindo neste segmento uma questão que não é nova mas que acabou por ganhar destaque inesperado esta noite. “Secretária Clinton, durante a sua audiência de confirmação no Senado em 2009, prometeu evitar até a aparência de um conflito de interesses no seu envolvimento na Fundação Clinton enquanto secretária de Estado, mas emails revelados nos últimos dez dias mostram que os dadores [da Fundação] tiveram acesso especial”, começou Wallace. “Alguns dadores obtiveram contratos com o Governo e dinheiro dos contribuintes. Pode realmente dizer que manteve a sua promessa?”

O que se seguiu foi um triste espetáculo de argumentação e contra-argumentação, com Clinton a defender o trabalho da Fundação que gere em parceria com o marido e a dizer que não há provas de que, através dela e enquanto secretária de Estado, tenha dado tratamento preferencial aos seus dadores (documentos divulgados pela WikiLeaks sugerem o contrário). Wallace acabaria por interrompê-la para propor: “Vamos ouvir o que o senhor Trump tem a dizer”. E assim ditou o republicano: “[A Fundação Clinton] é uma empresa criminosa. A Arábia Saudita a dar 25 milhões de dólares, o Qatar, todos esses países. Você fala das mulheres e dos direitos das mulheres? Estas pessoas [destes países] são as que expulsam os gays de negócios e que os empurram de prédios. São estas pessoas que matam mulheres e tratam mal as mulheres. E você aceita o dinheiro delas. Portanto, gostava de lhe perguntar, aqui e agora, porque é que não devolve o dinheiro que aceitou de certos países que tratam certos grupos de pessoas de forma tão horrível? Porque é que não devolve o dinheiro?”

Clinton não respondeu à pergunta, voltando a garantir que investe 90% das doações à Fundação em trabalho humanitário, para depois desafiar Trump com o seu próprio currículo de caridade. “Teria todo o gosto em comparar o que nós fizemos com o que a Fundação Trump fez, como por exemplo aceitar dinheiro de outras pessoas e depois usá-lo para encomendar um retrato do Donald com 1,8 metros de altura. Como é que alguém faz isso?” (O “Washington Post” confirma que isto aconteceu.)

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O facto de Trump ter fugido aos impostos aproveitando-se de uma lacuna na lei tributária norte-americana, que dominou o frente a frente há dez dias, voltou a ver a luz, mas ganhou pouca tração. Quando o republicano garantiu que 100% do dinheiro doado à sua Fundação é investido em projetos humanitários, Clinton lembrou outro facto incontornável. “Claro que não temos como saber se isto é verdade porque ele ainda não divulgou as suas declarações de rendimentos. É o primeiro candidato a presidente dos últimos 40 e tal anos que não publica as suas declarações de rendimentos, portanto tudo o que ele diz sobre caridade e por aí fora não pode ser comprovado. As nossas podem ser consultadas, temo-las todas.”

E aí sim, atacou-o pelo flanco com a questão da fuga aos impostos. “O que é realmente perturbador e que descobrimos no último debate é que ele não pagou um centavo em impostos federais. Há alguns minutos estávamos a falar de imigrantes e, sabem, metade do total de imigrantes sem documentos a viver no nosso país pagam impostos federais. Temos imigrantes sem papéis na América a pagar mais impostos do que um multimilionário. Acho isto assombroso.”

Trump escondeu-se atrás do “eles também fazem”, voltando a lembrar os eleitores de que os maiores dadores de Clinton, os “seus amigos de Wall Street” George Soros e Warren Buffett, “fizeram e fazem o mesmo”, disse. Wallace cortou o assunto e saltou para o tema que dominou a última semana.

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8. Fraude eleitoral e conspirações (suspense, suspense)

Era um dos momentos mais antecipados do debate, numa altura em que Donald Trump tem usado os seus comícios e a presença assídua no Twitter para espalhar a ideia de que, se perder, é porque ele e os seus apoiantes foram vítimas de fraude eleitoral. O moderador confrontou-o com o facto de tanto Mike Pence, a sua escolha para a vice-presidência, como Ivanka, a sua filha mais velha e conselheira de campanha, terem garantido publicamente que não acreditam que as eleições vão ser viciadas. Ele aceitará os resultados finais se Clinton vencer? A pergunta foi repetida várias vezes durante este segmento, mas Trump não cedeu.

“Vou decidir na altura. O que tenho visto é tão mau. Primeiro os media são tão desonestos e tão corruptos, o ‘New York Times’ chegou mesmo a escrever um artigo sobre isso, mas nem sequer se importa. É tão desonesto e eles envenenaram as cabeças dos eleitores.” Wallace tentou chamá-lo à razão, mas não conseguiu proferir mais que um ‘mas’.

“Desculpe, Chris, mas se olhar para os registos de eleitores, verá que há milhões de pessoas registadas para votar que não deveriam estar registadas para votar. E digo-lhe mais: ela [Clinton] é culpada de um crime muito sério e não devia ser autorizada a candidatar-se. E só quanto isso digo que [a eleição] é fraudulenta, porque ela nunca deveria… Infelizmente para eles [democratas], acho que os eleitores estão a ver isso. Vamos descobrir a 8 de novembro, mas penso que estão a ver isso.” Em defesa do argumento sobre os eleitores-fantasma, Trump citou sondagens do Pew Research Center “e de outros” institutos. O PolitiFact aponta que não há um único estudo que comprove a veracidade do que ele disse. Pelo contrário, uma análise recente do Brennan Center for Justice aponta que, a julgar pelos dados sobre violações eleitorais desde 2000, a possibilidade de ocorrência de uma fraude é menor do que a de um raio atingir a cabeça de alguém.

Confrontado com o facto de que a própria democracia está sustentada no reconhecimento de derrotas eleitorais pelos perdedores, Trump disse a Wallace que vai mantê-lo “em suspense” até 8 de novembro. Clinton reagiu “horrorizada” e deferiu uma golpada. “De cada vez que o Donald sente que as coisas não lhe correm de feição, clama que o que quer que seja que está em causa está a ser manipulado contra ele”, sublinhou a ex-secretária de Estado. “O FBI conduziu uma investigação de um ano aos meus emails. Concluíram que não havia caso judicial. Ele disse que o FBI é fraudulento. Perdeu o caucus no Iowa e as primárias do Wisconsin. Disse que as primárias republicanas foram fraudulentas. Depois, a Universidade Trump foi processada por fraude e extorsão. Alegou que o sistema judicial e o juiz federal [responsável pelo caso] estavam contra ele. Até houve uma altura em que ele não ganhou um Emmy pelo seu programa de televisão [o reality show The Apprentice] durante três anos consecutivos e aí começou a twittar que os Emmys foram manipulados.” Trump amuou e respondeu prontamente: “Devia ter vencido [o Emmy]”. A democrata não lhe prestou atenção: “Isto é um tipo de mentalidade, é assim que o Donald pensa. Tem alguma piada mas também é muito perturbador”.

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9. A ascensão do Daesh e o regresso da Rússia ao debate (verdade, mentira, mentira, verdade)

No que Wallace classificou de “tópicos quentes de política externa”, Trump atacou com violência. Disse repetidamente que Clinton é a responsável pela ascensão do Daesh no Iraque e na Síria, em parte porque os EUA “tinham Mossul e agora não têm Mossul e estão a tentar reaver Mossul” porque “ela quer fazer boa figura” na corrida à presidência e porque, enquanto secretária de Estado, decidiu ordenar a retirada das tropas do Iraque depois de uma década de ocupação ordenada pelo presidente Bush no rescaldo dos atentados de 11 de setembro”.

Na verdade, da mesma forma que continua a manter que nunca apoiou a invasão do Iraque em 2003 apesar dos registos que o contrariam, também ele apoiou a retirada das tropas do Iraque, tendo dito à CNN em 2007 que os EUA deviam “declarar vitória e vir embora” porque estar lá era uma “total catástrofe e uma perda de tempo”.

Clinton, já visivelmente cansada, não se lembrou desse facto, limitando-se a dizer que o rival “continua a sugerir que não apoiou a invasão do Iraque” quando ela “já assumiu que apoiou e já assumiu que foi um erro”. “Que toda a gente procure no Google — ‘Donald Trump Iraque’ — e verão dezenas de fontes que confirmam que ele apoiou a invasão do Iraque.” “Mentira”, reagiu Trump. Verdade, mostra a tal pesquisa no Google.

Antes disto, a democrata foi convidada a falar primeiro sobre a situação explosiva no Médio Oriente, numa altura em que a coligação liderada pelos EUA está a prestar apoio aéreo a quase 40 mil tropas iraquianas e curdas para reconquistar o último bastião do Daesh no Iraque, Mossul, e em que a cidade de Alepo e toda a Síria continuam mergulhadas numa violenta guerra civil que opõe os norte-americanos aos russos.

Sobre o que vai fazer se for eleita, a democrata garantiu que não pretende enviar tropas para o terreno iraquiano, por não querer que os EUA voltem a ser “uma força de ocupação”, algo que funcionaria como “incentivo” ao Daesh. Sobre a Síria, repetiu a vontade de criar uma zona de exclusão aérea sobre Alepo e continuar a tentar negociar a proteção de civis e a distribuição de ajuda humanitária aos sírios com o regime de Assad e o Governo de Putin.

“Se ela não tivesse feito o que fez, [Alepo] não estaria assim e não teríamos a Grande Migração”, acusou Trump, recorrendo à expressão que utiliza várias vezes para se referir aos planos de acolhimento de até 10 mil refugiados sírios nos EUA. Clinton ripostou que não vai deixar de “perseguir” os que querem o mal mas que também não pretende “fechar a porta a mulheres e crianças”. E relembrou que “o atirador da discoteca Pulse em Orlando [que disse ser militante do Daesh] nasceu em Queens, tal como Trump, pelo que há que ser claro ao falar de onde vêm as ameaças”.

Trump, que Bernie Sanders diz ser “o mais perigoso candidato à presidência dos EUA” (“e eu concordo”, citou Clinton), ripostou que o Irão devia escrever uma carta de agradecimento aos EUA “por causa do acordo nuclear estúpido [alcançado por Obama] e porque vai tomar conta do Iraque como sempre quis e graças a ela”, numa referência velada ao facto de haver milícias xiitas patrocinadas pelo regime iraniano a combater o Daesh ao lado das tropas iraquianas e curdas.

10. Dívida nacional, Obamacare e declarações finais (“mulher desagradável”)

“A nossa dívida nacional em relação ao PIB está situada nos 77%”, lançou o jornalista da Fox News para acelerar a conclusão do debate. “É o valor mais alto desde o rescaldo da II Guerra Mundial. O Comité para um Orçamento Federal Responsável, não-partidário, diz que sob o seu plano, secretária Clinton, a dívida vai subir para os 86% do PIB durante os próximos dez anos. E sob o seu plano, senhor Trump, dizem que a dívida vai aumentar para 105% do PIB durante os próximos dez anos. A questão é: porque é que estão ambos a ignorar este problema?”

“Eles estão errados porque eu vou criar muitíssimos postos de trabalho”, defendeu-se Trump antes de voltar a atacar Obama e Clinton. “Vamos voltar a criar uma enorme máquina económica e para fazer isso vamos resgatar empregos. Não vamos deixar que as nossas empresas sejam invadidas por outros países, em que perdemos os nossos empregos e deixamos de produzir os nossos próprios produtos, é muito triste”, lançou, em mais um ataque aos acordos comerciais negociados nas últimas décadas.

Clinton reagiu. “Sabem que ele pagou em 1987 100 mil dólares por um espaço publicitário no ‘New York Times’, quando Ronald Reagan era presidente, e basicamente disse as mesmas coisas que acabou de dizer, falou de como somos ridicularizados pelo mundo. Ele estava a criticar o presidente Reagan [um republicano] e é assim que se vê a si próprio - põe-se no centro das coisas e diz ‘sozinho posso consertar isto’. Mas se olharmos para a dívida, que é a questão que colocou, Chris, eu pago todas as minhas propostas. Não vou acrescentar um centavo à dívida nacional. Levo isto muito a sério, porque é um dos assuntos que temos de resolver. […] Não há quaisquer provas de que [o nosso programa económico] vá desacelerar ou reduzir o nosso crescimento, pelo contrário.”

Num ato pouco comum, Trump assumiu que esteve contra as políticas comerciais de Reagan porque eram demasiado liberais - como as do atual presidente -, mas num outro segmento do debate defendeu que, sob a sua eventual administração, os EUA vão ter “muito comércio livre, mais comércio livre do que temos agora”. Wallace cortou-lhe a palavra por falta de tempo, empenhado em conseguir abordar o plano de cuidados de saúde universais aprovado por Obama, que tanto os republicanos como Trump adoram detestar. “Está a destruir o nosso país”, acusou o magnata do imobiliário. “Está a destruir os nossos negócios, as nossas pequenas empresas e grandes empresas. Temos de rejeitar e substituir o Obamacare.”

Clinton manteve-se firme no seu plano de aumentar impostos para financiar o fundo de Segurança Social e, por conseguinte, um programa que, demonstram vários estudos, tem melhorado o acesso a cuidados de saúde para as camadas mais desfavorecidas da população. “Mulher desagradável”, murmurou Trump entredentes.

Uma investigação do factcheck.org apurou no final do debate que os argumentos que Trump usou para defender o fim do Obamacare, sobre a subida dos prémios dos seguros de saúde por causa da intromissão do Estado, foram “escolhidos a dedo” para deixar de fora dados importantes e mais positivos no contexto geral do programa social de Obama.

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Já na reta final, Wallace fez uma proposta “divertida” “provavelmente para deleite de ambos”: usarem os últimos quatro minutos para dizerem aos americanos porque devem votar neles. “Quero chegar a todos os americanos — democratas, republicanos e independentes — porque precisamos que toda a gente ajude o nosso país a ser aquilo que deve ser, para a economia crescer, para haver mais justiça, para que funcione para toda a gente. Precisamos dos vossos talentos, perícia, empenho, energia e ambição.”

Trump, pelo contrário, não se dirigiu aos indecisos, mantendo os ataques à adversária. “Ela está a angariar dinheiro de pessoas que quer controlar e isto não funciona assim. A nossa polícia sente-se desrespeitada. Precisamos de lei e ordem. Os subúrbios das nossas cidades estão um desastre. Leva-se um tiro só de caminhar até uma loja. Não têm educação. Não têm empregos. Vou fazer mais pelos afro-americanos e pelos latinos do que ela poderia fazer em dez vidas. Tudo o que ela fez foi falar com os afro-americanos e os latinos, mas eles votam nela e depois é ‘vemo-nos daqui a quatro anos’. Vamos fazer a América forte outra vez, grande outra vez e isso tem de começar agora. Não aguentamos mais quatro anos de Barack Obama e é isso que vão ter com ela.”

Na despedida, Wallace sublinhou e sublinhou bem, de olhos postos na câmara: “Agora a decisão é vossa. Apesar de milhões já terem votado, o dia eleitoral, 8 de novembro, está a apenas 20 dias de distância. Uma coisa com que todos aqui concordam é: esperamos que saiam para votar. É uma das maiores honras e obrigações subjacentes à pertença a este grande país”. Considerando que a Casa Branca é disputada por dois dos candidatos mais odiados de sempre, a abstenção é uma ameaça real. As próximas três semanas serão fulcrais para a combater.

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