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Trump arrasado depois de arrasar a democracia

Ethan Miller

São violentos os editoriais da imprensa norte-americana sobre o candidato republicano - que lançou suspeitas graves relativamente aos mecanismos democráticos do próprio país

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

“Pequeno Trump”, “narcisista”, “rufia”, “ignorante”. Os editoriais e opiniões de vários jornais (norte-americanos e não só) estão, esta quinta-feira, a arrasar a prestação de Donald Trump no terceiro e último debate entre candidatos à presidência dos EUA.

E não, desta vez não é só por causa da sua habitual forma de estar nos debates. Desta vez acusam-no mesmo de ter feito um ataque à democracia e, por isso, de ser cada vez mais claro que não serve para presidente.

Em causa está a recusa em responder se aceitaria ou não o resultado das eleições de 8 de novembro. "Verei isso na altura. Quero manter o suspense", disse.

“Donald Trump passou de insultar a inteligência dos eleitores americanos para insultar a democracia americana em si. Falsamente insistiu que existem 'milhões de pessoas' registadas para participar na eleição que não tinham o direito de votar e declarou que não se comprometia a honrar o resultado das eleições”, escreve o "New York Times" no seu editorial desta quinta-feira.

A Vox diz mesmo que a forma como Trump respondeu mostra irresponsabilidade e ainda a sensação de que já sabe que perdeu e que, por isso, teve necessidade de criar um engodo e uma espécie de momento à reality show.

Aliás, para o "New York Times" - que há duas semanas anunciou o seu total apoio a Hillary Clinton -, Trump "não mostou qualquer vontade de deixar de ser um rufia e de se focar nele em vez de nos problemas da nação".

Aliás, diz ainda o editorial do Times, a prestação do candidato republicano no último debate presidencial "foi mais um exercício do narcisismo, estilo bombástico e falsidade de Trump". "Só podemos desejar que esta seja a última grande exibição da sua flagrante inaptidão para ser presidente."

O "Washington Post" partilha desta opinião e, apesar de considerar que Trump "mostrou um pouco mais de autocontrolo" que nos debates anteriores, nota que tudo isso se esvaneceu quando disse que não sabia se aceitava ou não os resultados da eleição.

"Ao pé disto, as questões políticas parecem pequenas. Mostra a ignorância de Trump pelos factos e pela política", escrevem no editorial.

Aliás, para o "Washington Post" houve muitos temas que a própria Hillary Clinton não soube também responder da melhor forma, mas que não foram discutidos e até passam a "trivais" quando o seu opositor, Donald Trump, simplesmente "não aceita as regras básicas da democracia norte-americana".

O editorial do "Los Angeles Times" salienta ainda que Trump até justificou o facto de não responder porque as eleições estariam "combinadas". Aliás, chama-lhe mesmo de "agoniante ponto baixo do debate". E nota ainda que apesar de considerar que Trump começou de forma disciplinada, "à medida que o debate proseguiu, aquilo a que chamaram de 'pequeno Trump' emergiu com vingança". "Este Trump é desprezível, frágil, agressivamente ignorante acerca do mundo e inclinado a inventar teorias da conspiração. Neste registo, Trump chamou Clinton de mentirosa, de bandida e de 'mulher desagradável'".

E continua: "Teve mesmo o displante de insistir, como já fez antes, que não há ninguém que tenha mais respeito pelas mulheres do que ele". O "New York Times" também se referiu a isto no seu editorial, dizendo que esta foi "uma das suas mais transparentes mentiras da noite".

Mas tudo são subterfúgios. "O colapso de Trump nas últimas semanas pode ser visto como uma tentativa bizzarra de um perdedor em racionalizar a sua derrota. Mas o facto de arrasar com o processo democrático, a bem do seu próprio ego, pode provocar danos ao país e os políticos de ambos os partidos deviam afastar-se dele e do seu cinismo", pode ler-se ainda no "New York Times".

Aliás, Steven Trasher, do "The Guardian", diz que a campanha de Trump "foi a de um homem branco ofendido, a perder o seu lugar o mundo, e que, por isso, está a tentar chegar ao poder através do medo".

E a CNN diz que "Donald Trump usou o terceiro e último debate presidencial para se enterrar ainda mais. "Ao longo de 90 minutos, conseguiu marcar pontos no início, mas depois teve um momento que vai assombrá-lo e definir os últimos dias da campanha."

Apesar dos títulos dos editoriais serem praticamente todos sobre Trump, alguns referem ainda que Hillary não esteve bem em alguns temas, principalmente nos internacionais, e Christopher Barron, do "The Guardian", diz mesmo que Trump teve o melhor desempenho dos três debates e saiu vitorioso.

"Clinton também se encontrou na defensiva nas questões de política externa, parecendo mais um republicano como George W Bush do que um democrata."

  • Verdades e falsidades do debate em que Trump habló espanhol

    O terceiro debate entre os dois principais candidatos à Casa Branca, o último antes das eleições de 8 de novembro, foi dividido em dez segmentos pelo moderador Chris Wallace. Escrutinamos à lupa cada um deles e tentamos detetar inconsistências nos argumentos dos dois candidatos. Antes deste debate, uma estatística proclamava isto: 71% das alegações de Trump durante a campanha foram falsas contra 27% de incongruências atribuídas a Clinton. Mais dados: numa sondagem recente para a ABC News e o “Washington Post”, 62% dos inquiridos disseram que não gostam e não confiam na candidata democrata, ainda assim um nível de popularidade menos mau que o de Trump, nessa e noutras sondagens