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Trump apostou tudo em Las Vegas, mas no partido já se pensa em 2020

Mark Ralston-Pool / Getty Images

Donald Trump esgotou no debate televisivo desta quarta-feira (madrugada de quinta em Portugal) uma das últimas oportunidades para recuperar nas sondagens, tentando reconquistar o voto das mulheres conservadoras que não lhe perdoam os alegados escândalos sexuais. E será que conseguiu? Congressistas republicanos dizem ao Expresso que o melhor é o partido começar já a pensar em 2020

Donald Trump apareceu esta quarta-feira à noite, no terceiro debate televisivo contra Hillary Clinton, pressionado pelas últimas sondagens, que revelam uma desvantagem de 10% a nível nacional e um empate técnico em estados como o Arizona e o Utah, bastiões do conservadorismo americano.

Em Las Vegas, a capital do jogo nos Estados Unidos, o candidato republicano às presidenciais de 8 de Novembro apostou tudo, convidando o meio-irmão de Barack Obama para assistir ao frente a frente. Cidadão americano nascido no Quénia, Malik Obama reconheceu estar desavindo com o chefe de Estado e que votará em Donald Trump, porque “ele tem um projeto para tornar a América grande outra vez”.

O multimilionário gostou do que ouviu. “Ele percebe as coisas muito melhor do que o irmão”. Trump não comentou, no entanto, as opiniões de Malik sobre outros assuntos, como, por exemplo, o seu apoio público ao Hamas, o grupo palestiniano que figura na lista de organizações terroristas internacionais elaborada por Washington.

Na plateia, ao lado de Malik, estava também Pat Smith, mãe de um dos quatro americanos mortos no ataque ao consulado dos EUA na cidade líbia de Benghazi, em setembro de 2012, altura em que Hillary Clinton era secretária de Estado.

Leslie Millwee fechou o trio de convidados de honra. A antiga jornalista acusou, nas últimas horas, o antigo Presidente Bill Clinton de abuso sexual.

Aborto e armas

As futuras nomeações para o Supremo Tribunal dominaram a primeira parte do frente a frente -–mais sereno do que os dois anteriores, diga-se –, com Hillary a sugerir que escolherá juízes progressistas, que não anulem as decisões sobre o aborto e aprovem uma lei federal de legalização do casamento gay.

Trump disse que este é o tema mais importante da campanha e que fará tudo para proteger a segunda adenda, que define o direito universal de porte de arma. Hillary assegurou que, embora apoie a norma constitucional, o comércio de armamento ligeiro “tem de ser regulado”.

Seguiu-se o tema da imigração e a discussão das propostas de Trump de deportação de mais de 11 milhões de ilegais, seguida da construção de um muro na fronteira com o México. “Construímos o muro e assim bloqueamos a entrada de drogas e de criminosos”, reafirmou o republicano. Hillary optou por contar a história de Carla, uma americana filha de imigrantes ilegais que seriam expulsos do país, segundo o plano de Trump. “Eu não quero famílias desfeitas”, prometeu.

“Voz grossa e pouca substância”, denuncia superespião

Até que, a meio do debate, o moderador Chris Wallace falou das recentes revelações da WikiLeaks sobre a candidata democrata, especificamente quando esta terá defendido, numa reunião com banqueiros brasileiros, “um hemisfério sem fronteiras”.

Hillary contra-atacou: “O Governo russo lidera um programa de espionagem contra cidadãos americanos e entrega esses dados à WikiLeaks. A minha pergunta é: será que Donald aprova esta prática e, já agora, garante que não tem o apoio de Vladimir Putin nestas eleições?”. Mais à frente, afirmou que Trump será uma “marioneta” do Presidente russo na Casa Branca.

Sobre este ponto, o Expresso conversou com Sean Kanuck, no âmbito de uma reportagem a ser publicada este sábado na edição impressa. O antigo “National Intelligence Officer for Cyber Issues”, ou seja, o oficial com a mais alta patente na Agência Nacional de Inteligência (ANI), organismo que superintende todas as secretas americanas, garante que “há muita voz grossa e pouca substância em tudo isto”.

Na sua primeira entrevista desde que saiu da ANI, em maio, explica que “Assange e Putin estão a tentar tirar proveito de uma campanha presidencial atípica para conseguirem uma vantagem estratégica no futuro. Porém, o máximo que a WikiLeaks pode retirar de tudo isto é a desestabilização momentânea dos EUA”.

“A corrida presidencial terminou”

À medida que o debate decorria, divergindo para a Economia, reforma do Sistema de Saúde (Obamacare) e conflito sírio, com Hillary a defender as políticas de Barack Obama, multiplicavam-se, via Twitter, as críticas da oposição interna ao líder republicano. Neste capítulo, vários membros da Câmara dos Representantes confessaram ao Expresso, nos últimos dias, que o partido devia começar já a pensar nas presidenciais de 2020.

Charlie Dent e Scott Rigell, respetivamente congressistas da Pensilvânia e da Vírgínia, por exemplo, temem que as suas recandidaturas possam ser afetadas pelo “mau momento” da campanha de Donald Trump.

“Os escândalos mataram a candidatura republicana. A corrida presidencial terminou”, conta-nos Dent. Os escândalos de que este político fala relacionam-se com os alegados abusos sexuais do multimilionário, descritos pelo próprio numa gravação para um programa de entretenimento (Access Hollywood) e reforçados pelas denúncias públicas de nove mulheres.

“Essas histórias não têm fundamento”, defendeu-se Trump neste último debate. “Não conheço essas mulheres”, acusando a campanha de Hillary de “orquestrar tudo”.

Hillary não largou o tema. “Donald disse que não podia ter feito aquilo porque uma delas não é suficientemente atraente. Depois, acusou a repórter da revista ‘People’ de ser nojenta. Enfim, Donald acha que pode diminuir as mulheres para se sentir melhor com ele próprio. Ele é assim. Pelo contrário, nós temos de demonstrar que o nosso país é diferente”.

Queixas de Trump são “idiotas”

A quebra de Trump nas intenções de voto começou a partir daquelas denúncias, um facto diretamente relacionado com o abandono das mulheres conservadoras, residentes nos subúrbios endinheirados das grandes cidades e que, tradicionalmente, votam na direita.

Após a introdução daquele tema polémico, Trump acabou por repetir a estratégia dos últimos dois debates, insistindo em teses conspirativas. “As eleições estão viciadas”, denunciou. Mais tarde acusaria a Fundação Clinton de ser “uma organização criminosa”. “Pelo menos a minha não comprou um autorretrato de um metro e oitenta e não serviu para pagar dívidas pessoais”, retorquiu a antiga primeira-dama.

Por fim, o líder republicano acabou por não garantir que respeitará os resultados eleitorais de dia 8 de novembro em caso de derrota. Mais uma vez, surgiram críticas de políticos conservadores. “Parte da sua personalidade é muito sensível, em particular quando é alvo de ataques à sua integridade ou respeitabilidade. Ele reage intensamente, quase de forma descontrolada a essas situações”, considera Newt Gingrich, antigo speaker do Congresso (terceira figura de Estado) e conselheiro do próprio magnata.

John Kasich, governador do Ohio e candidato nas primárias republicanas, afirmou à CBS que as queixas eram “idiotas”.

Lares americanos divididos

Desconhece-se, por agora, se o debate desta noite irá inverter a tendência recente dos estudos de opinião. Patrick Murray, diretor do Monmouth University Polling Institute, um dos mais reputados centros de sondagens dos Estados Unidos, explica ao Expresso o porquê da quebra nas sondagens de Trump, confirmando que “as mulheres conservadoras e educadas estão a afastar-se” e que tal é “uma tendência crescente”.

Curiosamente, este perito revela ainda que este fenómeno criou uma tensão inesperada em milhares de famílias. “Na América suburbana, os maridos irão votar Trump e, pela primeira vez, muitas das mulheres irão optar pelo Partido Democrata ou abster-se. Verificamos, por isso, que em alguns casos há um ambiente de tensão no seio daqueles lares, onde a campanha eleitoral se tornou tema tabu porque as pessoas querem evitar conflitos”.

Numa entrevista recente, Jessica Frieberg, advogada no Church Law Center, em Santa Ana, Califórnia, uma americana evangélica e ultraconservadora, explicou ao Expresso porque votará democrata pela primeira vez: “Como é que eu posso votar num homem que ética e moralmente se comporta de forma tão repreensível?”.

  • “Agora depende de vocês” (e Trump diz que isso pode ser uma fraude)

    “Quero manter o suspense”, respondeu o candidato republicano quando o moderador Chris Wallace lhe perguntou se vai respeitar o “princípio democrático” de aceitar os resultados eleitorais (provavelmente favoráveis a Hillary Clinton, segundo as mais recentes sondagens). Foi a última vez que os dois candidatos se bateram num frente a frente antes da ida às urnas, a 8 de novembro. “Agora a decisão depende de vocês”, concluiu o moderador dirigindo-se aos espectadores americanos. Mas Trump diz que alguns desses “vocês” vão votar sem estarem autorizados a fazê-lo e que Hillary nem sequer devia estar na corrida eleitoral. E resumiu tudo a um substantivo: “fraude”