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América. As inovações nas presidenciais deste ano são um regresso ao passado longínquo

Ethan Miller/GETTY

No terceiro e último debate presidencial, a candidata republicana deu a Trump algo do seu próprio remédio e fugiu a não poucas questões ela mesma

Luís M. Faria

Jornalista

Em certos aspetos, a eleição presidencial norte-americana de 2016 já foi bastante inovadora. Embora, para dizer a verdade, as inovações devam ser consideradas um regresso ao passado longínquo. Vários historiadores americanos têm vindo a recordar que, em tempos, era vulgar insultar o adversário e fazer correr todo o tipo de rumores soezes sobre ele. Um candidato chegou a afirmar, durante uma campanha, que, se o seu rival deixasse de mentir sobre ele, ele pararia de dizer a verdade sobre o seu rival.

Este ano não parece ter sido preciso inventar muito. Os rumores soezes sobre Donald Trump foram validados por ele próprio no famoso vídeo em que se gabava de agarrar as partes íntimas das mulheres sem o seu consentimento. Quanto aos insultos, em grande medida tinham sido a base da campanha dele. Nas primárias, quando os adversários eram o ‘lying Ted' (o mentiroso Ted Cruz), o ‘little Marco' (o pequeno Marco Rubio) e o ‘low energy Jeb’ (o mole Jeb Bush), resultou às mil maravilhas. Contra a ‘crooked Hillary' (a vigarista da Hillary Clinton) na eleição geral, tem-se revelado mais difícil. A candidata democrata, que diz ter sido ensinada pelos pais a resistir aos ‘bullies’ em criança, não tem só muito mais experiência e preparação política do que Trump, como é alguém que não deixa os abusos sem resposta.

“Que mulher desagradável”

A hostilidade já se tinha notado nos dois debates anteriores, mas no de ontem à noite – madrugada em Portugal – foi mais visível do que nunca. Começou logo no princípio, quando os dois candidatos entraram no palco. Foram diretamente para os respetivos pódios, sem apertar a mão. No debate anterior, também tinha parecido óbvio o modo como Hillary se antecipava a lançar um ‘Hello, Donald' para resolver à distância o problema dos cumprimentos. Ao menos aí os dois apertaram a mão no fim, apesar de Trump, durante o debate, ter sugerido que a mandaria prender se fosse eleito presidente.

Tendo ele continuado a repetir a ameaça em comícios públicos, desta vez não houve aperto de mão nem ao princípio nem no fim. Assim que o debate acabou, Hillary foi cumprimentar… o moderador, deixando Trump parado no seu pódio, com a expressão fechada que se lhe tornou habitual. A seguir Hillary saudou ostensivamente pessoas na audiência, mantendo-se sempre de costas para Trump, e os dois rapidamente se misturaram com os respetivos apoiantes.

Ao longo do debate, Hillary mostrou-se uma capacidade de deitar abaixo o seu adversário que nada fica a dever à dele próprio. Chamou-lhe “marioneta de Putin” (ele respondeu que a marioneta era ela) e criticou-o por se aproveitar de emails internos da sua campanha obtidos por hackers ligados ao governo russo. Noutro momento, quando se discutiam propostas em matéria de impostos, explicou que, tendo ela um rendimento elevado, a sua taxa de Segurança Social “vai subir, como vai a do Donald – assumindo que ele não descobre uma maneira de escapar”. Toda a gente percebeu que se tratava de uma referência aos estratagemas que Trump usou para não pagar imposto de rendimento durante mais de vinte anos. Mas o candidato republicano, em vez de dar a sua resposta usual nesses casos – que não pagar impostos é uma atitude esperta – preferiu lançar um insulto: “Que mulher desagradável”.

“Engasgou-se” e não falou do assunto

Trump na acusação de que a sua rival é só conversa: “Está na política há trinta anos e não fez nada”. Admitiu que ela é mais experiente, “mas é má experiência”, disse. Ela voltou a responder enunciando uma lista de realizações, entre as quais o seu papel na captura e morte de Osama Bin Laden: “Enquanto eu estava na situation room da Casa Branca, tu estavas a apresentar ‘O Aprendiz’”.

Trump terá marcado uns pontos quando Hillary foi confrontada com um discurso que fez há anos a um banco brasileiro (e pelo qual recebeu mais de 200 mil dólares, disse o moderador). Nesse discurso, Hillary disse claramente que era a favor do comércio livre e de “fronteiras abertas”, uma posição que hoje em dia é muito menos popular do que já foi. A atração do candidato republicano para uma boa parte dos seus apoiantes tem justamente que ver com a sua linha dura em relação à imigração legal, particularmente de mexicanos. Mas Hillary respondeu aludindo ao encontro que o candidato republicano teve há meses com o presidente do México. Uma das promessas-chave de Trump é construir um muro na fronteira e obrigar o México a pagá-lo. Mas no encontro com Peña Nieto “ele nem sequer levantou a questão. Engasgou-se”, disse Hillary. “E a seguir começou uma guerra no Twitter por o presidente ter dito ‘não vamos pagar esse muro’.”

Outro aspeto em que este debate foi um pouco diferente dos outros – e do que é habitual nos debates norte-americanos – é que não foi apenas o candidato republicano a falar fora de vez. Os dois candidatos interromperam-se com frequência um ao outro, bem como ao moderador. Hillary notou contradições entre o discurso de Trump e as suas ações. Por exemplo, a utilização de aço proveniente da China (a quem ele acusa de arruinar as empresas americanas) nos seus edifícios, ou o facto de ele ter recorrido a migrantes ilegais durante a construção da Torre Trump – migrantes a quem pagava abaixo da tabela, ameaçando-os de deportação casos eles se queixassem.

Se não ganhou, devia ter ganho

O empresário não respondeu a esta última acusação, como ela não respondeu a muitas das dele. Mas como, dada a vantagem substancial que as sondagens apontam a Hillary, quem precisava de conseguir uma vitória decisiva era ele, as coisas não lhe correram bem. Resta-lhe queixar-se de que o sistema está viciado. E quando o moderador Chris Wallace, de uma pose escrupulosamente imparcial ao longo de debate, lhe perguntou se aceitaria graciosamente o resultado das eleições em caso de derrota, como é tradição nos EUA, Trump recusou comprometer-se. Verei na altura, disse.

Wallace insistiu, e ele manteve a posição: “Vou deixá-lo em suspense”. Hillary aproveitou o tema para referi que as teorias de conspiração são uma questão de forma mental em Trump. Lembrou que Trump diz sempre que o jogo está viciado quando perde, seja nos negócios, na política ou no resto. Até quando o seu programa “O Aprendiz” não ganhou um Emmy, o jogo estava viciado… Comentário de Trump: “Devia ter ganho”. A audiência riu.

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