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“Agora depende de vocês” (e Trump diz que isso pode ser uma fraude)

MIKE BLAKE / Reuters

“Quero manter o suspense”, respondeu o candidato republicano quando o moderador Chris Wallace lhe perguntou se vai respeitar o “princípio democrático” de aceitar os resultados eleitorais (provavelmente favoráveis a Hillary Clinton, segundo as mais recentes sondagens). Foi a última vez que os dois candidatos se bateram num frente a frente antes da ida às urnas, a 8 de novembro. “Agora a decisão depende de vocês”, concluiu o moderador dirigindo-se aos espectadores americanos. Mas Trump diz que alguns desses “vocês” vão votar sem estarem autorizados a fazê-lo e que Hillary nem sequer devia estar na corrida eleitoral. E resumiu tudo a um substantivo: “fraude”

Chris Wallace já tinha deixado claro que, esta noite, ia deixar o trabalho de fact-checking para os analistas no rescaldo da hora e meia de debate entre Donald Trump e Hillary Clinton em Las Vegas. No anterior frente a frente, os moderadores Anderson Cooper e Martha Raddatz empenharam-se na tarefa de reagir e confrontar os candidatos no imediato sempre que referiram argumentos ou reivindicações comprovadamente falsos. Tal não tinha acontecido no primeiro debate e voltou a não acontecer esta noite, no último encontro entre os aspirantes à Casa Branca até à ida às urnas a 8 de novembro.

"Isto é um debate e, como sabem, ambos [os candidatos] vão estar em palco", declarou o apresentador da Fox News no domingo, no programa que apresenta há 13 anos, a apenas três dias do braço-de-ferro desta madrugada (hora portuguesa) que moderou. "Se for necessário eu intervir fá-lo-ei, mas preferia não o fazer."

Não foi por isso de todo estranho que Wallace tenha evitado ao máximo interromper Trump ou Clinton, reservando-se esse direito a escassos momentos em que um ou o outro candidato presidencial fugiram às questões colocadas — uma delas submetida e votada por centenas de milhares de eleitores no site OpenPresidentialDebate, uma ferramenta inédita para envolver os norte-americanos no processo dos debates televisivos.

Nada fazia prever que o encontro de hoje fosse diferente dos anteriores debates, cheios de acusações e declarações incendiárias e com pouco conteúdo político. As acusações não desapareceram mas, em parte graças aos pedidos de Wallace, as constantes erupções da plateia em aplausos a cada candidato sim. Acima disso, e também pelo tom austero do moderador, este acabou por ser o único dos três confrontos em que os candidatos à Casa Branca foram obrigados a abordar questões práticas e importantes e a esclarecer e a defender as suas promessas (ou falta delas) sobre cada tema.

O encontro esteve dividido em dez segmentos, dedicados, por ordem: ao Supremo Tribunal norte-americano; ao direito das mulheres ao aborto; à imigração; aos emails internos do Partido Democrata divulgados pela WikiLeaks e aos ciberataques alegadamente patrocinados por Vladimir Putin; à economia; às capacidades de cada um para assumir a presidência dos Estados Unidos; aos conflitos de interesses de Clinton enquanto secretária de Estado; às acusações antecipadas de fraude eleitoral que Trump tem disseminado; aos temas mais quentes de política externa (leia-se Mossul no Iraque, Alepo na Síria e a ameaça do autoproclamado Estado Islâmico); e à dívida norte-americana e o que cada um pretende fazer para a reduzir.

Fraude e conspiração

No oitavo ponto deu-se o que terá sido momento mais importante da noite, quando Wallace confrontou Trump com o facto de o seu companheiro de corrida e candidato à vice-presidência, o governador Mike Pence, e a sua filha e conselheira de campanha, Ivanka Trump, terem ambos garantido que ele vai reconhecer os resultados eleitorais a 8 de novembro.

"Vou analisar isso na altura", declarou o candidato republicano, em mais uma declaração ao jeito da que marcou o debate anterior (quando disse que se, for eleito, vai nomear um procurador especial para processar e prender a adversária política). "Em primeiro lugar, os media são tão corruptos, tão desonestos [...] que envenenaram as cabeças dos eleitores. Sabemos que há milhões de pessoas registadas para votar que não estão autorizadas a votar. Ela [Hillary Clinton] tem mentido, não devia sequer ser autorizada a candidatar-se à presidência e só por isso [esta corrida eleitoral] já é uma fraude."

Novamente pressionado a esclarecer se vai "respeitar o princípio democrático" de reconhecer uma eventual derrota — cada vez mais inevitável segundo as últimas sondagens nacionais e estatais — o magnata repetiu que só tomará essa decisão na noite eleitoral. "Quero manter-vos em suspense."

Clinton aproveitou a deixa para condenar a atitude birrenta do rival, em linha com o seu currículo de queixas várias de conspiração e fraude, um ponto que Barack Obama abordou na segunda-feira quando alertou para o "perigo" da atitude de Trump, que mina a ida às urnas e o próprio processo de participação democrática.

"De cada vez que Donald acha que as coisas não estão a correr-lhe de feição, clama que o que quer que seja está a ser manipulado contra ele", sublinhou a ex-secretária de Estado. "O FBI conduziu uma investigação de um ano aos meus emails. Concluíram que não havia caso judicial. Ele disse que o FBI é fraudulento. Perdeu o caucus no Iowa e as primárias do Wisconsin. Disse que as primárias republicanas foram fradulentas. Depois a Universidade Trump foi processada por fraude e extorsão. Alegou que o sistema judicial e o juiz federal [responsável pelo caso] estavam contra ele", lembrou Clinton, antes de lançar uma das poucas tiradas humorísticas da noite.

"Até houve uma altura em que ele não ganhou um Emmy pelo seu programa de televisão [o reality show The Apprentice] durante três anos consecutivos e aí começou a twittar que os Emmys foram manipulados." Trump amuou e respondeu prontamente: "Devia ter ganhado [o Emmy]." A democrata não lhe prestou atenção: "Isto é um tipo de mentalidade. É assim que Donald pensa. Tem a sua piada mas também é muito perturbador."

Logo a seguir ao debate, numa entrevista flash à CNN, a gestora da campanha de Trump, Kellyanne Conway, garantiu que "ele vai aceitar os resultados" antes de acrescentar "porque vai ganhar as eleições". Horas antes, num programa do MSNBC, tinha refutado a sugestão do próprio candidato de que uma fraude em massa vai ter lugar nas urnas a favor de Clinton e do Partido Democrata.

Nessa noite, dentro de 20 dias, e enquanto diretora da campanha dele, vai pressioná-lo a aceitar os resultados mesmo que não lhes sejam favoráveis? À pergunta da repórter da CNN esta noite, Conway respondeu apenas: "Diria que sim, se não houver irregularidades. Mas o que lhe vou dizer nessa noite é 'Parabéns Senhor Presidente'."

Atrair os indecisos

Imediatamente antes, para concluir este último debate, Wallace desafiou os dois candidatos a explicarem porque é que acham que devem ser eleitos para a presidência, dando um minuto a cada um para responder.

Clinton foi a primeira: "Quero chegar a todos os americanos, porque precisamos de toda a gente, democratas, republicanos e independentes, para fazer este país funcionar para toda a gente", declarou a antiga senadora, num piscar de olho aos indecisos.

Trump refugiou-se no seu slogan "Make America Great Again": "Quando comecei esta campanha prometi fazer da América um grande país outra vez e é isso que vou fazer. Vou fazer mais pelos latinos e os afroamericanos do que ela", acrescentou — depois de a única palavra que proferiu em espanhol num ano inteiro de campanha eleitoral (precisamente esta noite) ter sido declarada um insulto por vários comentadores e analistas ("Há muitos maus hombres a entrar neste país" foi a declaração, a propósito de já ter dito que "os mexicanos são violadores" para justificar a construção de um muro na fronteira com o país vizinho).

Wallace deu o remate final. "A decisão agora depende de vocês. Esperamos que vão votar, é um dever e uma obrigação." Pouco depois, uma sondagem instantânea da CNN apontava Clinton como a vencedora do encontro, com 52% do favoritismo. No inquérito informal criado pelo canal no seu site, a percentagem era superior: pelas 4h30 da manhã em Lisboa, uma hora depois do final do debate, quase 58% dos mais de 65 mil utilizadores que já tinham participado na consulta davam a vitória à democrata, contra 40% para Trump e menos de 2% que dizem que nenhum ganhou.

Ao longo da manhã desta quinta-feira, o Expresso irá analisar com maior profundidade o encontro desta noite entre Clinton e Trump, o último até ao dia das eleições

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