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O inimigo do meu inimigo meu amigo é (ou o estranho triângulo Assange / Trump / Putin)

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Longe vão os tempos em que Julian Assange, o célebre fundador do Wikileaks, era acarinhado pela esquerda e celebrado como um liberal anti-sistema. As sucessivas revelações sobre a campanha de Clinton e o silêncio sobre Trump estão a gerar dúvidas sobre as intenções de Assange – estará o líder do site de fugas de informação mais famoso do mundo interessado na eleição do candidato republicano? Os especialistas dizem que é provável que hackers russos estejam a passar informação a Assange para prejudicar Hillary Clinton; ele responde que apostar num dos candidatos seria como “escolher entre cólera e gonorreia”

Sexta-feira, 7 de outubro, foi um dia agitado para a campanha presidencial norte-americana. Este foi o dia em que o famigerado vídeo de Donald Trump veio a público – aquele em que o candidato republicano parece gabar-se de assediar mulheres porque é “uma celebridade” – e passou a ser o principal tópico de discussão que rodeia a campanha. Mas esse também foi o dia em que os discursos de Hillary Clinton para bancos de Wall Street – alguns dos quais contraditórios em relação às posições que assume atualmente – chegaram aos media norte-americanos.

Podia ser só mais um dia numa campanha cheia de surpresas e reviravoltas, mas um ponto chama a atenção dos especialistas – a proximidade com que as duas revelações aconteceram (primeiro saiu o vídeo de Trump; depois, passado uns minutos e pela mão do website de fugas de informação Wikileaks, os discursos de Clinton). O empenho que o Wikileaks, conduzido pelo mediático líder Julian Assange, tem mostrado em expor os defeitos da candidata democrata está a dar que falar – e há uma pergunta que se impõe: o que é que aconteceu a Assange, outrora elogiado por políticos de esquerda e ultimamente associado a personalidades com Trump e Putin?

A questão tem vindo a ser colocada durante todo este verão – afinal, desde o início da estação o Wikileaks publicou 11 levas de informação sobre a campanha de Clinton, desde emails dos seus dirigentes até discursos em que elogia os grandes bancos associados à crise financeira de 2008 – mas intensificou-se esta terça-feira, quando a embaixada do Equador no Reino Unido, onde Assange está hospedado desde 2012, confirmou ter cortado o acesso à internet ao fundador do Wikileaks.

VELHOS AMIGOS Assange numa conferência organizada por Varoufakis. As suas ações foram elogiadas por muitos políticos de esquerda a nível global

VELHOS AMIGOS Assange numa conferência organizada por Varoufakis. As suas ações foram elogiadas por muitos políticos de esquerda a nível global

Sean Gallup/Getty Images

“O Ministério do Exterior exerceu o seu direito de restringir temporariamente o acesso a algumas comunicações privadas da rede do Wikileaks na embaixada do Reino Unido”, ficou confirmado em comunicado. A razão para o corte, que aconteceu no sábado passado, foi esclarecida pelo próprio Wikileaks no Twitter – a gota de água para a embaixada do Equador, que aceitou dar asilo a Assange em 2012, quando ele enfrentava extradição para a Suécia por acusações de violação e argumentava estar a ser alvo de uma perseguição política, foi a publicação dos discursos de Clinton na véspera. “A decisão de tornar esta informação pública é da exclusiva responsabilidade do Wikileaks”, esclareceu o ministério, recusando interferir em eleições estrangeiras e garantindo respeitar a soberania de outros países.

À reação do Equador – cujo presidente, Rafael Correa, já garantiu preferir Hillary Clinton na Casa Branca “para o bem dos Estados Unidos e do mundo” – não se fez esperar a resposta do website dedicado à publicação de fugas de informação. Esta terça-feira, o Wikileaks não se limitou a publicar novos emails da conta de John Podesta, diretor de campanha de Clinton, e recorreu a “múltiplas fontes nos Estados Unidos” para denunciar uma suposta intervenção do secretário de Estado norte-americano, John Kerry, junto de Rafael Correa para impedir o website de publicar nova informação.

RELAÇÃO CONTURBADA A relação entre Assange e os seus anfitriões na embaixada do Equador já viu melhores dias

RELAÇÃO CONTURBADA A relação entre Assange e os seus anfitriões na embaixada do Equador já viu melhores dias

Carl Court/Getty Images

Assange está a trabalhar com a Rússia, acusam os EUA

Tanto Estados Unidos como Equador já vieram negar que tenha havido pressões para o corte de comunicações que Assange sofreu, mas a verdade é que a animosidade entre as autoridades norte-americanas não é novidade. Sobre as últimas revelações feitas pelo Wikileaks, Governo e serviços secretos norte-americanos dizem ter uma certeza: operações para descobrir informações com este “alcance e sensibilidade” só poderiam ter sido autorizadas pelas “autoridades mais altas da Rússia”. “Esta atividade não é novidade para Moscovo – os russos já usaram tácticas semelhantes à volta da Europa e da Eurásia para influenciar a opinião pública nesses lugares”, argumentam o departamento de Segurança Nacional e os Serviços Secretos norte-americanos em comunicado.

A acusação que os Estados Unidos fazem a Assange é clara: o fundador do Wikileaks poderá estar a trabalhar com hackers russos para influenciar as eleições norte-americanas, com o objetivo de prejudicar a candidata democrata. E é esta possível aliança, ou preferência de Assange, que está a confundir apoiantes e pessoas de esquerda, que até há pouco tempo o viam como um “herói”, explica o “The Independent”.

“Por um breve instante, Assange parecia ser o futuro. Era elogiado como a encarnação do espírito da internet: um homem disposto a enfrentar a prisão para revelar às pessoas a verdade sobre a corrupção nos seus Governos e empresas”, recorda no jornal britânico Mike Harris, jornalista especializado em direitos humanos, vigilância e liberdade de expressão. “Assange inspirou uma era de fugas de informação, desde Edward Snowden a expor vigilância britânica e norte-americana ilegal aos Panama Papers, a mostrar o alcance global da fraude fiscal”.

No entanto, garante o especialista, muito mudou desde os tempos em que Assange, o “herói da esquerda”, “era poderoso, estava acima da lei e atraía atenção internacional” – “a influência política de Assange só permaneceu porque demasiadas pessoas de esquerda inventaram desculpas para ele durante meia década”. Agora, defende Harris, a influência de Assange diminuiu e ele tem um objetivo: “Trump faz parte dos seus planos para escapar ao seu quarto na embaixada do Equador”.

Mural de beijo entre Trump e Putin UMA PARCERIA ESCONDIDA? Especialistas especulam sobre possíveis ligações entre Trump e Putin

Mural de beijo entre Trump e Putin UMA PARCERIA ESCONDIDA? Especialistas especulam sobre possíveis ligações entre Trump e Putin

PETRAS MALUKAS/AFP/Getty Images

De referência liberal a trunfo de Trump?

Também o “The Guardian”, que dá dois cognomes a Assange – “de referência liberal a trunfo de Trump” - fala num “interesse pessoal” que Assange poderá ter na eleição de Trump. Tudo porque Clinton desempenhava o cargo de secretária de Estado quando Assange começou a revelar comunicações diplomáticas secretas no Wikileaks – e, para o jornal, a candidata representa uma visão de “secretismo e política externa” oposta ao ideal de “anti-imperialismo norte-americano” defendido pelo fundador do Wikileaks.

Esta será uma das razões para que Assange insista em divulgar informações potencialmente negativas para Clinton – para além de esperar um perdão presidencial se Trump for eleito, especulam os especialistas. “Parece estranho que o website de fugas de informação mais famoso do mundo não tenha publicado nada sobre Trump e os seus misteriosos registos fiscais”, explica Harris, concluindo que essa falha poderá significar que as informações da campanha de Clinton estão a ser fornecidas a Assange pela Rússia (uma acusação que uma das editoras do Wikileaks, Sarah Harrison, nega à Bloomberg, garantindo que se o Wikileaks tivesse acesso a informações comprometedoras sobre o candidato republicano também as publicaria).

Carl Court/Getty Images

Se Assange recusa escolher lados – “é como perguntar-me se prefiro cólera ou gonorreia”, respondeu ao Democracy Now quando lhe pediram para escolher entre Clinton e Trump – e os seus colaboradores mais próximos negam que haja envolvimento com a campanha de Trump e com a Rússia de Putin, há um dos lados deste triângulo que não hesita em revelar a empatia que sente pelo Wikileaks. “Eu adoro o Wikileaks”, garantia Trump num comício na Pensilvânia. Na sexta-feira passada, assolado pelo escândalo do vídeo de 2005 – e por entre dúvidas levantadas na imprensa sobre como teria a Russia Today tido acesso aos discursos de Clinton em Wall Street de forma tão veloz – Trump escrevia no Twitter: “Os media desonestos deram muito pouca atenção à informação incrível revelada pelo Wikileaks. Que desonestidade! Sistema viciado”.

Chris Ratcliffe/Getty Images

O inimigo do meu inimigo meu amigo é?

As informações que têm sido levadas a público pela plataforma de Assange sobre Clinton nem sempre são particularmente impactantes – Neil Sroka, porta-voz do grupo Democracia para a América citado pelo “The Guardian”, garante que “há uma grande diferença entre as receitas de risotto nos emails de John Podesta e os Pentagon Papers. O valor noticioso dos emails de Podesta é bastante limitado e o valor enquanto ativismo é ainda menor. O Wikileaks é como a internet: pode ser uma força usada para o bem ou para o mal, e neste momento está a apoiar o candidato que está a fazer a maior campanha de ódio dos tempos modernos”.

Quem é próximo de Assange desmente a aproximação a Trump e ao país de Putin – Vaughan Smith, jornalista que lhe ofereceu casa no Reino Unido durante um ano, garante não acreditar nas ligações a Moscovo ou que Assange tenha sequer conhecimento de quem são as fontes que lhe passam informações sobre Clinton. Mas há ex-colegas que dizem ao “The Guardian” duvidar da neutralidade do líder do Wikileaks. Já os analistas insistem: não haveria grande surpresa se se confirmasse uma ligação de Assange, pelo menos, à campanha de Trump – um dos vértices deste estranho triângulo. “A minha impressão de Assange é que ele vê a hegemonia dos Estados Unidos na ordem global como o maior problema que enfrentamos na atualidade. Na sua tentativa de trazer ‘transparência’, ele acaba por se aliar aos regimes que negam direitos humanos e transparência”, explica Alina Polyakova, diretora do centro da Eurásia do think tank Conselho Atlântico, em Washington. “Essa é a ironia da filosofia ‘o inimigo do meu inimigo é meu amigo’”.