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Mais de 900 civis já conseguiram escapar de Mossul para a Síria

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A ONU já ergueu cinco campos de acolhimento de deslocados e está a construir mais seis nos arredores de Mossul para albergar primeiros 200 mil civis que fugirem da cidade

Safin Hamed

Este é o primeiro grande grupo de residentes da cidade iraquiana sob controlo do Daesh desde 2014 a conseguir escapar para o país vizinho em plena ofensiva de Bagdade e da coligação internacional para reconquistar a cidade, iniciada esta segunda-feira e que deverá durar pelo menos dois meses

Cerca de 900 residentes da cidade iraquiana de Mossul já conseguiram escapar da cidade e atravessar a fronteira para a Síria, avançou esta quarta-feira a agência da ONU para os Refugiados (ACNUR). Este é o primeiro grande grupo de civis que consegue escapar à cidade controlada pelo autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) desde 2014 – neste momento o último bastião do grupo jiadista em território iraquiano, que as forças de segurança do país e a coligação internacional estão a tentar expulsar desde o início da semana.

Há mais de dois anos que o Daesh detém controlo absoluto sobre a cidade, a segunda maior do Iraque e em tempos o maior centro industrial e comercial do país. Por essa razão, não se sabe ao certo quantos militantes nem quantos civis permanecem no centro urbano. A ONU acredita que há entre 700 mil e um milhão e meio de residentes ainda em Mossul – a par de cerca de cinco mil jiadistas que estiveram a armadilhar a cidade em antecipação da ofensiva de larga escala – e antevê o êxodo de até um milhão de pessoas nos próximos meses, enquanto durar a operação militar para reconquistar a cidade.

Esta terça-feira à noite, os Estados Unidos acusaram os militantes do Daesh de estarem a usar escudos humanos à medida que as tropas iraquianas e combatentes curdos (peshmerga) avançam em direção ao centro de Mossul. Já esta manhã, a porta-voz do ACNUR disse que mais de 900 pessoas de Mossul conseguiram alcançar território sírio, instalando-se num dos campos de refugiados da zona.

Antes da ofensiva, a ONU começou a construir cinco campos com capacidade para albergar 45 mil pessoas ao redor de Mossul, tendo planos para erguer mais seis unidades de alojamento nas próximas semanas para albergar outros 120 mil deslocados. A capacidade máxima dos campos está aquém da quantidade de pessoas que se prevê que possam fugir da cidade nas próximas semanas.

Na conferência desta manhã, a porta-voz da ACNUR disse que a agência pode usar o campo da Síria, onde os 900 iraquianos procuraram refúgio, como "ponto de paragem temporária" antes de realojar estes e futuros deslocados de Mossul para uma zona segura dentro do Iraque, avança o correspondente da BBC.

Esta terça-feira, Lisa Grande, coordenadora humanitária da ONU para o Iraque, tinha referido que os campos já erguidos ou em construção nos arredores de Mossul servem para dar abrigo aos cerca de 200 mil civis que a ONU prevê que fujam do bastião do Daesh nestes primeiros dias da ofensiva, sem referir que outros planos estão em marcha para garantir abrigo e apoio às outras centenas de milhares de pessoas que possam escapar.

À Reuters, residentes de Mossul disseram que os militantes estão a impedir muita gente de fugir, forçando alguns a permanecer em prédios que são alvos prováveis dos ataques aéreos da coligação internacional. Mas o facto de quase mil pessoas terem conseguido escapar nos primeiros três dias da ofensiva mostra que os militantes jiadistas estão sem capacidades para travar toda a gente, para além de levantar questões sobre se alguns deles poderão usar a mesma rota para escapar aos bombardeamentos aéreos da coligação e às batalhas que se avizinham no terreno.

Depois de o porta-voz do Pentágono ter acusado o grupo radical de estar a usar "escudos humanos" em Mossul, o Presidente norte-americano Barack Obama disse esta terça-feira que uma das prioridades é garantir que os residentes conseguem fugir da cidade. "Se não tivermos sucesso a prestar apoio às pessoas comuns que fogem do ISIL [Daesh], então isso torna-nos vulneráveis a um regresso do ISIL."

Também esta terça-feira, a Organização Internacional para as Migrações disse temer que o Daesh recorra ao uso de armas químicas para defender a maior cidade ainda sob seu controlo, como terá feito num ataque recente a uma base militar estratégica de Qayyarah, onde estão destacadas algumas tropas norte-americanas.