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Escândalo, raiva e tensão antes do último debate nos EUA

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PAUL J. RICHARDS/GETTY

Com um Trump bastante acossado a culpar os media, os democratas e o seu próprio partido de conspirarem contra ele, deve haver chispas esta quarta-feira à noite

Luís M. Faria

Jornalista

Esta quarta-feira, às 9 da noite na costa leste dos EUA (duas da madrugada em Portugal continental) começa o último dos três debates entre Hillary Clinton e Donald Trump. Com tudo o que se vindo a passar desde há meses – e em especial desde há duas semanas, quando foi revelado o famoso registo de Trump a dizer aquilo que supostamente se permitia fazer às mulheres graças ao seu estatuto de celebridade – a atmosfera está bastante envenenada. A culpa é sobretudo do candidato republicano. A sua queda repentina e a pique nas sondagens, acompanhada por uma série de deserções dentro do seu partido, parecem ter libertado de vez os seus piores instintos. Neste momento ele já quase dá ideia de não querer ganhar as eleições; em vez disso, estará empenhado em consolidar a sua base mais dura de apoiantes, insuficiente para ganhar as eleições mas eventualmente importante necessária para outros objetivos – por exemplo, a criação da nova cadeia televisiva de direita que se diz que filhos dele estarão à negociar.

Seja qual for a motivação, não há dúvida de que Trump se soltou. À medida que as suas probabilidades de conquistar a presidência se reduzem (apenas 8 por cento nesta altura, segundo a estimativa do “New York Times”; algumas casas de apostas britânicas já estão a pagar antecipadamente a quem apostou em Hillary Clinton), ele multiplica os ataques. Repete que a sua adversária devia ser presa, que a eleição está viciada, que vai haver fraudes maciças pelo país inteiro. Apela aos seus apoiantes para fazerem vigilância nas mesas eleitorais – isto é, na prática, para intimidarem votantes, particularmente negros. E insiste no quadro de uma conspiração maciça em que os próprios líderes republicanos, por estupidez ou motivos piores, se aliam aos média corruptos e a todos os outros poderes que Trump desafiou e por isso não lhe perdoam.

O perigo de levantar suspeitas infundadas

Os tais líderes pedem-lhe que tenha um comportamento responsável. Paul Ryan, o chefe parlamentar com quem Trump anda à bulha há muito tempo, já tinha dito que não iria mais defendê-lo, preferindo concentrar as suas energias na defesa da maioria republicana no Congresso. Agora voltou a pedir contenção a Trump. Garantiu que o processo eleitoral dos EUA é fiável, e notou que levantar questões injustificadas sobre isso é perigoso numa democracia. Outros colegas dele reiteraram o mesmo ponto, incluindo o responsável máximo pelo processo eleitoral no Ohio, um estado normalmente decisivo, pelo número de delegados que elege e por tanto poder votar republicano como democrata nas eleições. O dito responsável, que é republicano, assegurou a Trump que ele não tem motivos para se preocupar.

Até o Presidente Obama apareceu a sugerir a Trump que pare com as queixinhas. Uma pessoa que se comporta assim, com uma tal sensibilidade e uma incapacidade tão pouco graciosa de aceitar os reveses, não tem características para ser Presidente, disse Obama. Mas ninguém espera que Trump siga o conselho. Mesmo antes da presente campanha, a hostilidade de Trump ao primeiro Presidente negro dos EUA já ia ao ponto de ele ter passado anos a levantar suspeitas sobre a legitimidade de Obama como presidente. Ele não teria nascido nos EUA, como a Constituição exige, e sim na Nigéria. Mesmo quando ficou concludentemente provado que isso não era provado, Trump insistiu. E só no mês passado admitiu finalmente a verdade… culpando Hillary de ter sido a responsável original por esse falso rumor. Ele ter-se-ia limitado a pôr-lhe fim, um serviço público pelo qual a América devia estar agradecida.

Os temas oficiais e o resto

O terceiro debate, que será moderado por Chris Wallace, um jornalista respeitado da Fox News, terá a habitual estrutura em seis partes, cada um das quais dedicada a um tema diferente e com a duração de quinze minutos. As perguntas serão escolhidas e feitas por Wallace. Os temas serão seis: dívida e prestações sociais; emigração; economia; o Supremo Tribunal; crises estrangeiras; e a adequação de cada um dos candidatos ao lugar de Presidente.

Como sempre, Hillary passou os dias anteriores a preparar-se, enquanto Trump dedicou boa parte do tempo a aparições públicas. Ele reconhece que o debate pode ser a sua derradeira oportunidade para inverter a tendência nas sondagens, mas não está disposto a mudar o seu estilo. Lamenta, sim, que os media corruptos não deem a devida atenção aos emails internos da campanha de Hillary que a Wikileaks tem vindo a publicar. Esses emails, obtidos por hackers aparentemente ligados à Rússia, revelam manipulações e duplicidade que não surpreendem em alguém como Hillary Clinton, que se encontra ligada ao poder há muito tempo e sabe como as coisas se fazem. Corrupção no sentido estrito parece não se ver, pelo menos até agora, mas o que apareceu já é embaraçoso que chegue. O problema de Trump é ele ser muito mais embaraçoso, portanto os seus escândalos receberem muito mais luz.

Independentemente dos temas formais em discussão, os noventa minutos não passarão sem que Hillary fale das misérias de Trump, e ele dos motivos pelos quais ela devia ser presa. Isso deve acontecer cedo, e não serão decerto meras referências de passagem. O debate acontece na Universidade do Nevada, em Las Vegas. Amanhã, os dois candidatos voltarão a coincidir numa cerimónia pública em Nova Iorque. É o jantar de uma fundação católica, e os dois estarão sentados mesmo junto ao cardeal Timothy Dolan. Cada um do seu lado.