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Equador confirma corte da internet a Assange por interferência nas eleições americanas

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OLIVIA HARRIS / REUTERS

Embaixada equatoriana em Londres, onde o fundador da WikiLeaks está refugiado há mais de cinco anos para combater uma ordem de extradição para a Suécia, confirmou suspensão do acesso à internet por causa de divulgação de emails privados de membros do Partido Democrata e da sua candidata presidencial, Hillary Clinton

O Equador confirmou ontem que vedou o acesso à internet na sua embaixada londrina, onde Julian Assange, o fundador da WikiLeaks, está a viver há mais de cinco anos para combater uma ordem de extradição para a Suécia.

Na terça-feira à tarde, o porta-voz da WikiLeaks tinha avançado que o seu líder estava sem acesso à internet desde a manhã de segunda-feira, falando numa aparente ação “intencional de um Estado” e exigindo explicações. Já ao cair da noite, as autoridades equatorianas confirmaram que o acesso à internet foi suspenso porque Assange estava a usá-la para interferir nas eleições presidenciais dos Estados Unidos.

A decisão surge no rescaldo da divulgação de emails privados do conselheiro de campanha de Clinton, John Podesta, e depois de, em julho, a WikiLeaks ter publicado outro conjunto de documentos internos do Comité Nacional Democrata (CND) na véspera da convenção do partido em que a candidatura de Clinton foi confirmada pelos delegados eleitorais.

Em comunicado, a diplomacia equatoriana disse que o Governo do país “respeita o princípio de não-intervenção nos assuntos internos de outros Estados” e que por essa razão teve de suspender o acesso de Assange à internet, depois de, “nas últimas semanas, a WikiLeaks ter publicado uma grande quantidade de documentos com impacto na campanha eleitoral dos EUA”. No mesmo documento, o Equador sublinha contudo o seu compromisso com a prestação de asilo ao australiano como forma de “salvaguardar a sua integridade física até que alcance um local seguro”.

Para já, não é certo quem foi responsável pelos ciberataques que resultaram na obtenção dos emails entregues à WikiLeaks, embora especialistas em cibersegurança digam que a recente divulgação de emails foi possibilitada por hackers com ligações ao Governo russo — levando Robby Mook, gestor de campanha de Clinton, a alegar que a Rússia está a usar tanto hackers como o próprio Assange para tentar influenciar o resultado das eleições de 8 de novembro a favor do candidato republicano, Donald Trump.

Há menos de duas semanas, a administração Obama acusou formalmente a Rússia de ingerência nas eleições norte-americanas através de ciberataques, um passo inédito com repercussões diplomáticas para já desconhecidas.

A WikiLeaks e o seu fundador ganharam notoriedade há nove anos, quando em colaboração com um punhado de proeminentes jornais internacionais, como o britânico “The Guardian”, divulgou um conjunto de telegramas oficiais secretos do Exército norte-americano obtidos pelo soldado Chelsea Manning, incluindo um vídeo intitulado “Homicídio Colateral” que mostrava uma equipa da Força Aérea dos EUA a matar civis iraquianos.

Elogiada durante vários anos, nos últimos tempos a organização fundada na Suécia no final de 2006 tem tem sido alvo de duras críticas pela falta de curadoria dos documentos que lhe são entregues por, entre outras coisas, ter posto em risco a segurança de milhares de mulheres turcas vítimas de violência doméstica. A organização sempre sublinhou que não encoraja qualquer ciberataque, apesar de a maioria dos dados que publica serem obtidos dessa forma.

Assange vive sob asilo na embaixada do Equador em Londres desde 2012 para evitar uma ordem de extradição para a Suécia pelo alegado abuso sexual de duas mulheres em 2010. Para o australiano, que desmente as acusações, o caso é motivado pelo mandado de captura emitido pelos EUA sob a Lei da Espionagem no rescaldo das primeiras revelações da WikiLeaks em 2007. Manning, que lhe forneceu essas informações sobre os teatros de guerra onde os EUA estavam presentes, continua detido numa prisão militar.