Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Daesh “está a usar escudos humanos” em Mossul

  • 333

ALI AL-SAADI

Acusação foi feita pela administração norte-americana, que garante que há “planos e infraestruturas” em marcha para lidar com a potencial crise humanitária gerada pela batalha para reconquistar o último bastião do autoproclamado Estado Islâmico no Iraque. Comandante das forças curdas no terreno diz que vai levar dois meses até operação estar concluída

Os Estados Unidos dizem que militantes do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) estão a usar escudos humanos à medida que as forças iraquianas e curdas se aproximam do centro de Mossul, o último bastião do grupo jiadista no Iraque, que está a ser palco de uma ofensiva de larga escala desde segunda-feira para os expulsar da segunda maior cidade do país.

De acordo com novos dados hoje avançados pela BBC, dos mais de dois milhões de residentes de Mossul à data da tomada da cidade pelos jiadistas em junho de 2014 restam cerca de 700 mil pessoas, havendo cerca de 5000 combatentes do Daesh prontos a enfrentar as forças no terreno.

Na noite desta terça-feira foi avançado que a cidade vizinha de Qaraqosh já tinha sido libertada, uma informação que acabaria por ser desmentida por um comandante das forças governamentais de Bagdade. A coligação internacional liderada pelos Estados Unidos, que integra dez nações árabes e a Turquia, e que está a prestar apoio aéreo às forças no terreno, diz que dez aldeias dos arredores de Mossul já foram reconquistadas. Na terça de manhã, ao fazer o balanço do primeiro dia da ofensiva, as autoridades iraquianas tinham avançado que já detinham o controlo de 20 aldeias dos subúrbios.

As tropas iraquianas continuam esta quarta-feira a tentar alcançar o centro urbano de Mossul pelas frentes sul e sudeste, com os seus aliados do Curdistão iraquiano autónomo a avançarem pelo leste e pelo norte. Esta manhã, continuavam ainda a uma distância de entre 30 e 40 quilómetros da cidade.

Esta terça-feira, a administração Obama tentou acalmar os receios de que a ofensiva de larga escala venha a provocar um êxodo em massa de até um milhão de pessoas, dizendo que há "planos e infraestruturas" a postos para lidar com a potencial crise humanitária.

A ONU, contudo, só tem uma dezena de campos de acolhimento improvisados já preparados na área ou em fase de construção para acolher até 200 mil deslocados –estimativa avançada esta terça-feira por Lise Grande, coordenadora humanitária das Nações Unidas para o Iraque, do número de pessoas que poderão procurar abrigo nas primeiras semanas da operação, que deverá levar vários meses até estar concluída.

Em entrevista à CNN, o comandante dos combatentes curdos (peshmerga) no terreno, Sirwan Barzani, disse ontem que vai levar pelo menos dois meses até conseguirem reconquistar a cidade. Também na terça, numa conferência de imprensa em Washington, o porta-voz do Pentágono disse que é "absolutamente" certo que o Daesh está a usar escudos humanos como parte da sua resistência aos avanços das forças de segurança.

"Eles [civis] estão a ser mantidos ali contra a sua vontade", declarou o capitão Jeff Davis. "Não recebemos qualquer informação no último dia que indique que as pessoas estão a sair da cidade ou a fugir."

À Reuters, residentes disseram que o Daesh está a impedir as pessoas de fugirem da cidade, forçando algumas dessas pessoas a dirigirem-se para edifícios que são alvos preferenciais da coligação na sua campanha de bombardeamentos aéreos.

Esta manhã, as foças iraquianas e curdas, com o apoio de milícias xiitas, continuavam a sitiar Qaraqosh no leste, onde já as esperavam snipers a postos para as apoiar, avançou o comandante das forças iraquianas no terreno, Riadh Jalal Tawfeeq. A notícia inicial de que essa cidade tinha sido reconquistada, avança a BBC, causou uma explosão momentânea de alegria entre os cristãos iraquianos que fugiram para a capital regional curda, Erbil. Antes da guerra, Qaraqosh, a cerca de 32 quilómetros de Mossul, era a maior cidade cristã do país.

Os militantes do Daesh continuam a erguer barricadas de resistência, tendo divulgado esta madrugada um vídeo onde alegadamente se veem elementos do grupo a disparar sobre os veículos de combate da coligação, que continua a enfrentar algumas dificuldades no espaço aéreo pelas colunas de fumo que se erguem do alegado fosso de petróleo que os jiadistas criaram ao redor de Mossul. Há cerca de 34 mil tropas iraquianas, os peshmerga, membros de tribos árabes sunitas e paramilitares xiitas a participar na operação no terreno.

Mossul é a capital da rica província de Nínive, cheia de petróleo, e até à sua invasão pelo Daesh, há mais de dois anos, era o centro industrial e comercial do Iraque. A captura de Mossul pelos militantes do Daesh, à data um grupo ainda desconhecido, marcou a ascensão do grupo ao topo da lista de organizações extremistas mundiais, possibilitando que, a partir dali, capturassem mais e mais território no Iraque e também na Síria.

A União Europeia já avisou que a ofensiva para reconquistar Mossul pode levar a que vários militantes do Daesh, muitos deles cidadãos de Estados-membros do bloco, a regressar à Europa, podendo levar a cabo atentados como o que, em novembro do ano passado, provocou 120 mortos em Paris e que foi executado por militantes jiadistas acabados de regressar da Síria.

Antes da guerra, Mossul era uma das cidades mais heterogéneas do Iraque, albergando árabes, curdos, assírios cristãos e turcomenos, para além de outras minorias religiosas, que conviviam ali em paz. A maioria sunita que reside na cidade teme o envolvimento de milícias xiitas na operação militar, que no passado têm sido acusadas de cometer atrocidades contra sobreviventes sunitas em cidades acabadas de reconquistar ao Daesh.

Esta terça-feira, Hadi al-Ameri, comandante de um dos principais grupos xiitas, as Brigadas Badr, voltou a garantir que só as forças de segurança iraquianas serão autorizadas a operar dentro da cidade quando os batalhões alcançarem o centro de Mossul –uma garantia que já tinha sido feita pelo primeiro-ministro iraquiano Haider al-Abadi no discurso televisivo de domingo à noite, em que anunciou o início da "batalha final por Mossul".

  • Mais de 900 civis já conseguiram escapar de Mossul para a Síria

    Este é o primeiro grande grupo de residentes da cidade iraquiana sob controlo do Daesh desde 2014 a conseguir escapar para o país vizinho em plena ofensiva de Bagdade e da coligação internacional para reconquistar a cidade, iniciada esta segunda-feira e que deverá durar pelo menos dois meses

  • Batalha de Mossul. Onde o Daesh pode ganhar mesmo que perca

    A ofensiva que as forças iraquianas lançaram esta segunda-feira para reconquistar o último bastião do Daesh no país, com o apoio aéreo da coligação internacional, vai durar meses e terá um elevado preço, sobretudo humano. Há um milhão e meio de pessoas encurraladas na cidade, muitas já a tentar fugir da cidade, rodeada por um “rio de fogo”. A ONU antecipa o êxodo de até um milhão de pessoas mas só tem garantidos campos de acolhimento para menos de um quinto delas. Na Europa há receios de que o derradeiro golpe contra os jiadistas no Iraque multiplique os atentados no continente. E entre os iraquianos reina o medo de voltarem a ficar entregues às lutas sectárias e brutais que se disseminaram nos últimos 13 anos

  • Cortar, isolar, apertar. Esmagar?

    Mais de 30.000 tropas estão a avançar esta segunda-feira determinadas a retomar o controlo da segunda maior cidade iraquiana, Mossul, sob poder do Daesh. É um acontecimento falado no mundo inteiro, pelo simbolismo e também pela implicação prática – chamam-lhe “batalha final”. O objetivo das tropas antiDaesh é cortar linhas de abastecimento, isolar a área e apertar o cerco para depois esmagar o exército jiadista. Mas as ruas da cidade estão todas armadilhadas - e há o receio de nova crise humanitária