Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Batalha de Mossul. Onde o Daesh pode ganhar mesmo que perca

  • 333

reuters

A ofensiva que as forças iraquianas lançaram esta segunda-feira para reconquistar o último bastião do Daesh no país, com o apoio aéreo da coligação internacional, vai durar meses e terá um elevado preço, sobretudo humano. Há um milhão e meio de pessoas encurraladas na cidade, muitas já a tentar fugir da cidade, rodeada por um “rio de fogo”. A ONU antecipa o êxodo de até um milhão de pessoas mas só tem garantidos campos de acolhimento para menos de um quinto delas. Na Europa há receios de que o derradeiro golpe contra os jiadistas no Iraque multiplique os atentados no continente. E entre os iraquianos reina o medo de voltarem a ficar entregues às lutas sectárias e brutais que se disseminaram nos últimos 13 anos

Basta um olhar superficial pelas últimas batalhas contra o Daesh no Iraque para se perceber que Mossul não vai cair de um dia para o outro, ao contrário do que aconteceu em junho de 2014, quando o grupo jiadista invadiu e ocupou a segunda maior cidade do Iraque, em tempos o maior centro industrial e comercial do país. Nesse mês, o pretenso califa Abu Bakr al-Baghdadi anunciou ali a instalação de um autoproclamado Estado Islâmico no Iraque e na Síria. Mais de dois anos depois, ontem conseguiu escapar ileso a um ataque aéreo da coligação liderada pelos EUA, horas depois de o Governo iraquiano ter anunciado na televisão o início da “batalha final por Mossul”.

“A própria cidade tem importância política e militar nesta campanha, em particular por ser a capital de uma província rica em petróleo, de onde os jiadistas têm extraído grande parte do crude que traficam para fora do país e que é uma das suas principais fontes de financiamento”, explica ao Expresso Jonathan Leader Maynard, professor de Relações Internacionais da Universidade de Oxford. “Mossul é, de longe, o maior centro urbano dominado há mais tempo pelo grupo mas, acima disso, existe uma grande componente simbólica na batalha pela cidade: uma das razões pelas quais este grupo é tão perigoso foi a rapidez com que tomou Mossul em 2014, ganhando graças a isso muito poder e ímpeto.”

Ver o que se passou em Tikrit, Ramadi, Fallujah...

Uma derrota ali terá um grande impacto na organização jiadista, podendo afetar a sua capacidade de recrutamento ao ser interpretada como o mais claro sinal de que está inevitavelmente condenada à extinção. Mas essa derrota, apontam analistas como Maynard e Tallha Abdulrazaq, vai levar não dias nem semanas, mas sim meses até ser declarada. Senão veja-se o currículo recente do Exército do Iraque e das forças que o acompanham no terreno.

A 14 de março de 2015, a Organização Badr, uma fação apoiada pelo Irão que integra as Forças de Mobilização Popular (FMP) xiitas, anunciou que os militantes do Daesh estavam cercados e prestes a render-se em Tikrit, prevendo a queda da cidade em 72 horas. Mas no final não levou três dias, antes um mês e meio, até os 30 mil homens das FMP, das forças de segurança iraquianas e da polícia federal conseguirem destronar as centenas de jiadistas que deram luta até ao fim.

Dois meses depois, o Daesh ocupou Ramadi, na província de Anbar, a 100 quilómetros da capital, após uma ação coordenada de bombistas suicidas que se fizeram explodir durante uma tempestade de areia. Isto levou as forças iraquianas a abandonarem as suas posições, como aliás já tinha acontecido quando o grupo, à data ainda desconhecido, alcançou Mossul. A operação para reaver Ramadi foi lançada pouco depois, em julho, sob o augúrio de que levaria poucos dias, no máximo semanas, até os militantes do Daesh baterem em retirada. Acabou por só ficar concluída em dezembro, com a cidade em tempos com 375 mil habitantes reduzida a pó e escombros. “Centenas de milhares de mortos, milhões de deslocados, famílias desfeitas”, lamentou então o presidente do Comité Internacional da Cruz Vermelha.

O mesmo aconteceria este verão, quando as tropas iraquianas e os combatentes curdos (peshmerga) levaram mais de um mês a recapturar Fallujah, outra cidade reduzida a resquícios do que foi em tempos, depois de uma batalha tão humilhante para os derrotados como para os vitoriosos.

Não subestimar o Daesh

Para Tallha Abdulrazaq, da Universidade de Exeter, em declarações recolhidas pelo Expresso, a “Batalha de Mossul”, como ficará conhecida quando os historiadores escreverem os seus livros, “não irá limpar o Iraque do ISIS [Daesh] nem de outros elementos extremistas, independentemente do tempo que durar”. E mesmo que todos os militantes batam em retirada, isso pode não corresponder a uma total derrota. Abdulrazaq, investigador do Instituto de Segurança e Estratégia, aponta que “nenhum comandante do ISIS no seu perfeito juízo acha que pode manter Mossul contra números tão elevados” — cerca de 30 mil combatentes, entre forças do Governo, milícias xiitas que as apoiam, combatentes curdos (peshmerga) e membros de tribos sunitas, apoiados por 5 mil soldados norte-americanos e forças, em menor número, destacadas por França, Canadá e outros países do Ocidente para a campanha aérea. Ainda assim, estão preparados para dar luta.

“O melhor que o ISIS pode desejar é fazer com que a retomada de Mossul tenha os custos mais elevados possíveis [para o Iraque], uma tarefa para a qual está bem equipado”, explica o mesmo investigador, autor de um ensaio sobre as mudanças no mundo árabe a partir do microcosmos iraquiano, que lhe valeu um prémio de investigação da Al-Jazeera em 2015. “Assim que Mossul for recapturada, o ISIS irá simplesmente recorrer a táticas de guerrilha como fez durante vários anos antes de capturar um terço do Iraque, numa altura em que o Governo da Zona Verde de Bagdade estava demasiado ocupado a pôr em prática políticas e agendas sectárias, em vez de realmente governar democraticamente e respeitar os direitos humanos e a lei internacional.”

Estas táticas tiveram tempo suficiente para maturar nos últimos 28 meses em Mossul. Enquanto “casa dos horrores” do Daesh desde 2014 — de onde o grupo expulsou todos os não-muçulmanos e onde impôs um regime de execuções e torturas públicas diárias, onde a música, a internet e os telefones estavam proibidos —, a cidade foi transformada numa gigantesca armadilha para as forças que combatem o grupo radical.

reuters

Esta terça-feira de manhã, à medida que os militares iraquianos e milícias aliadas avançavam em direção ao centro urbano, depois de terem reconquistado 20 aldeias dos subúrbios, avistavam-se no destino enormes colunas de fumo negro, provavelmente petróleo a arder num fosso que os militantes escavaram em redor da cidade para dificultar a ofensiva com um “rio de fogo”, uma versão em larga escala da queima de poços de petróleo em Tikrit e Qayyarah, cujo fumo rouba visibilidade às forças aéreas. No terreno, iraquianos e curdos deverão encontrar pistas de aeroportos sabotadas, estradas bloqueadas e uma cidade coberta de minas e de engenhos explosivos improvisados.

A isto acresce o facto de as forças que estão prestes a invadir Mossul não estarem minimamente unificadas. Entre elas contam-se os curdos - com pretensões de expansão no território, para assim criarem o seu próprio Estado - e inúmeras milícias xiitas, com vontade de se vingarem dos sunitas (como o são a maioria dos civis de Mossul, e como são também os militantes do Daesh, num sunismo mais radical). É um grupo “desunido” que enfrenta entre 4 mil e 8 mil militantes “empenhados e astutos que não são nenhuns amadores”, aponta Abdulrazaq. “Têm demonstrado de forma consistente que conseguem manter o controlo de cidades contra enormes números, como em Tikrit, porque têm a chamada ‘defesa dinâmica’, uma boa base e estrutura de defesa em camadas”, o que significa que “retomar Mossul ao ISIS terá um custo incrivelmente alto, para as forças iraquianas e para os 1,5 milhões de civis” ainda na cidade.

A ONU já ergueu cinco campos improvisados com capacidade para albergar 45 mil pessoas, tendo planeada a criação de mais seis, para um máximo de 120 mil deslocados — números muito abaixo das previsões de que até um milhão de pessoas venham a fugir da cidade nos próximos meses.

Antes de a ofensiva ter sido lançada, as forças iraquianas largaram panfletos sobre Mossul para pedir aos civis que permaneçam em casa. Mas com a fase crucial da batalha a aproximar-se “mais rápido do que o previsto” (palavra do Pentágono), há cada vez mais famílias a tentar fugir da cidade sitiada. O balanço de mortos na operação, entre as lutas no terreno e os bombardeamentos aéreos, deverá ser brutal, talvez aos níveis de Alepo, na Síria. “Não há nenhuma boa alternativa nesta batalha”, sublinha Maynard ao Expresso, analisando as repercussões da ofensiva.

epa

O tempo e o modo

Há razões para a Batalha de Mossul ter começado a 17 de outubro, e não noutra altura. Do lado iraquiano, o chefe do Governo, Haider al-Abadi, está empenhado em cumprir a promessa de reaver Mossul até dezembro, mas está sobretudo decidido a proteger o seu poderio de elementos rivais, como o antecessor, Nouri al-Maliki, xiita dissidente no regime sunita de Saddam Hussein, tido como um sectário virulento. E nesse sentido, explica Abdulrazaq, o Daesh pode até cantar vitória quando perder o seu último bastião. “Não se traduzirá necessariamente numa derrota do exército iraquiano e das milícias aliadas”, explica, mas “se o ISIS mantiver o controlo de Mossul até ao final do ano, isso será uma enorme vitória para eles, porque irá reforçar a noção de que Bagdade é incapaz de governar e proteger o Iraque”. A juntar a isso há o desejo “do Presidente Obama em assegurar que deixa pelo menos uma coisa positiva no seu legado político no Médio Oriente, que no geral tem sido um desastre — como se vê pela forma como os EUA têm lidado com o regime sírio, de Assad, e o massacre do seu próprio povo”.

Para o investigador britânico, a estratégia de combate por Mossul deveria envolver “um forte elemento político”, porque de outra forma — desta forma — “não se está a responder às questões fulcrais e aos sintomas do que levou à ascensão do ISIS”. Quando Haider al-Abadi apareceu na televisão pública no domingo à noite, fez questão de sublinhar que nenhuma milícia xiita irá entrar na cidade, de maioria sunita, durante a ofensiva, mas isso foi diretamente contrariado por Qais al-Khaz’ali, o líder de uma das milícias sectárias xiitas das FMP, que há uma semana garantiu que “não importa o que se diz”: as suas forças vão participar nos combates dentro de Mossul.

Depois da reconquista de Fallujah ao Daesh, no final de junho, algumas fações das FMP foram acusadas de cometer graves atrocidades contra os sobreviventes, como massacrarem civis sunitas antes de obrigarem outros a beber o sangue dos seus parceiros acabados de executar. “E há outros grupos extremistas xiitas apoiados pelo Irão que às vezes usam uniformes do Governo [iraquiano], aumentando ainda mais a ameaça que representam”, refere o mesmo especialista.

“Os árabes sunitas têm sido discriminados, torturados, massacrados e violados e esta situação não está a ser abordada. Se o Governo falasse a sério quando diz que quer ver-se livre ‘do ISIS e de outros extremistas’, então teria perseguido também as dezenas de milícias xiitas apoiadas pelo Irão cuja brutalidade tem levado à radicalização dos iraquianos que se foram juntando ao ISIS. Se estas milícias não tivessem cometido tais atrocidades com impunidade ao longo das últimas décadas, o ISIS nunca teria existido. Afinal de contas, foram os árabes sunitas que derrotaram a Al-Qaeda em 2008, não foi o Governo iraquiano, muito menos as milícias xiitas.”

Sem uma solução política, concorda Maynard, vamos continuar a assistir a sucessivas crises militares no Iraque, mesmo com a antecipada derrota física do Daesh em Mossul. Uma derrota que, apontam os EUA e o comissário da UE para a Segurança, vai traduzir-se num potencial aumento de ataques terroristas no Ocidente. “Há cerca de 2,500 membros do ISIS oriundos de países da UE que continuam no campo de batalha.

A reconquista do bastião de Mossul pode potenciar o retorno de militantes violentos à Europa”, alertou ontem o comissário Julian King a um jornal alemão. “É natural que, quanto menos território houver para controlar, menos terá de gastar para manter esse território, o que quer dizer que as suas finanças e os seus combatentes podem ser mobilizados, a uma escala menor mas muito devastadora, para operações terroristas, no Iraque, no Médio Oriente ou globalmente”, refere Abdulrazaq. “A ameaça do ISIS não vai ficar resolvida com a queda de Mossul.”

  • Cortar, isolar, apertar. Esmagar?

    Mais de 30.000 tropas estão a avançar esta segunda-feira determinadas a retomar o controlo da segunda maior cidade iraquiana, Mossul, sob poder do Daesh. É um acontecimento falado no mundo inteiro, pelo simbolismo e também pela implicação prática – chamam-lhe “batalha final”. O objetivo das tropas antiDaesh é cortar linhas de abastecimento, isolar a área e apertar o cerco para depois esmagar o exército jiadista. Mas as ruas da cidade estão todas armadilhadas - e há o receio de nova crise humanitária