Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Rússia anuncia curta “pausa humanitária” em Alepo

  • 333

ABDALRHMAN ISMAIL/REUTERS

Moscovo diz que vai suspender operações durante oito horas na próxima quinta-feira, para que civis e rebeldes possam abandonar a cidade. Agências da ONU dizem que são necessárias pelo menos 12 horas de trégua para possibilitar retirada e distribuição de ajuda humanitária

O Governo russo anunciou esta segunda-feira a implementação de uma "pausa humanitária" em Alepo entre as 8h e as 16h locais da próxima quinta-feira (6h e 14h em Lisboa), período durante o qual irá suspender todos os ataques ao leste da cidade síria para que civis e rebeldes possam abandonar a área.

"Durante este período, a Força Aérea russa e as forças do Governo sírio vão suspender os ataques aéreos e os disparos de qualquer tipo de armas", garantiu o porta-voz do Ministério da Defesa da Rússia Sergei Rudskoy.

As agências da ONU dizem que para garantir a retirada destas pessoas e a prestação de apoio urgente serão necessárias pelo menos 12 horas. "Convidamos qualquer pausa nas lutas, mas existe a necessidade de uma pausa mais prolongada para que a ajuda humanitária possa ser distribuída", reagiu o porta-voz da ONU Stephane Dujarric.

O anúncio russo surgiu na segunda-feira à tarde, horas depois de 14 membros de uma mesma família terem sido mortos num ataque aéreo, incluindo oito crianças e duas mulheres, em mais de 24 horas de bombardeamentos sem trégua com munições "destruidoras de bunkers".

Na conferência de imprensa em Moscovo, Rudskoy explicou que "pode levar muito tempo" até que seja "alcançado um acordo sobre tudo o que diz respeito" a Alepo, a cidade do leste da Síria que está parcialmente ocupada pelos rebeldes da oposição a Assad há dois anos e que tem sido o principal foco do conflito civil desde o final de setembro – quando o colapso de um cessar-fogo de uma semana negociado entre Moscovo e Washington levou as forças sírias a retomarem em toda a escala a ofensiva contra os rebeldes da cidade sitiada.

Por causa disso, anunciou o oficial russo, "tomámos a decisão de não perder tempo e de introduzir 'pausas humanitárias', sobretudo para garantir passagem segura aos civis, a evacuação dos feridos e doentes e a retirada dos rebeldes". O anúncio segue-se à tentativa de retomada das negociações de paz pelos norte-americanos e os russos no fim de semana passado, depois de mais de uma semana de conversações suspensas.

A Rússia continua a ser alvo de críticas do Ocidente pelos contínuos ataques aos bastiões rebeldes do leste de Alepo, com os Estados Unidos e figuras políticas de outros países a reforçarem a cada dia as acusações de crimes de guerra a Moscovo. Na segunda-feira, o Conselho de Assuntos Externos da União Europeia publicou um relatório onde se conclui que o envolvimento russo nos ataques a Alepo, a par das forças governamentais sírias, pode corresponder a crimes de guerra.

"Atingir deliberadamente hospitais, pessoal médico, escolas e outras infraestruturas essenciais, bem como usar bombas-barril, bombas de fragmentação e armas químicas, constitui uma escalada catastrófica do conflito e pode corresponder a crimes de guerra", apontou o organismo.

Moscovo continua a refutar as acusações, com o Presidente russo Vladimir Putin a dizer que está a ser alvo de uma "retórica" do Ocidente que não tem em consideração as realidades no terreno na Síria, cuja guerra de quase seis anos já provocou meio milhão de mortos e milhões de refugiados e deslocados internos.

A situação em Alepo é particularmente catastrófica, com hospitais e pessoal médico a serem atingidos em sucessivos ataques e com cada vez menos bens essenciais e medicamentos disponíveis para os quase 300 mil civis que estão encurralados na parte oriental da cidade.