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Governo afegão e talibãs retomam negociações secretas no Qatar

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A Aliança do Norte, composta por soldados afegãos, luta contra os talibãs deste 1996 e apoiou os EUA quando estes invadiram o país para derrubar o regime, em outubro de 2001

“The Guardian” avança que um diplomata norte-americano participou nos encontros entre as autoridades do Afeganistão e o grupo radical, os primeiros desde que o processo de paz mediado pelo Paquistão colapsou em 2013

Os talibãs e representantes do Governo afegão retomaram recentemente e de forma secreta as negociações de paz que tinham colapsado em 2013, escolhendo desta vez o estado do Qatar para os encontros depois do falhanço da mediação paquistanesa.

A notícia é avançada em exclusivo esta terça-feira pelo "The Guardian", que cita fontes da insurgência talibã e do Governo de Cabul familiarizadas com o processo negocial. Entre os presentes nos encontros de setembro e outubro contou-se Mullah Abdul Manan Akhund, irmão de Mullah Omar, ex-dirigente do movimento talibã afegão que morreu em 2013.

As duas rondas de conversações são as primeiras a ter lugar desde o colapso do processo de paz mediado pelo Paquistão e o primeiro avanço a ser noticiado desde a morte de Mullah Akhtar Mansour, sucessor de Omar, num ataque com um drone norte-americano em maio deste ano.

É esperado que o filho de Mullah Omar, Mohammad Yaqoob, se junte em breve às negociações em Doha, avança uma das fontes dos talibãs. De acordo com um membro do Quetta Shura, conselho de líderes do grupo jiadista, nenhum membro do Governo paquistanês participou em qualquer dos encontros recentes no Qatar – que se tornou o centro da diplomacia dos talibãs afegãos após terem sido autorizados a abrir um escritório na capital do país em 2013. O passo foi uma das várias tentativas de dar início a um processo de paz com a mediação de Islamabade que acabou por falhar há três anos.

A mesma fonte do Quetta Shura disse ao jornal britânico que o Paquistão já perdeu grande parte do seu poder de influência sobre o movimento com o qual esteve associado desde a instalação dos talibãs no território afegão em meados dos anos 1990. Segundo outra fonte do grupo, um alto diplomata dos EUA esteve presente nos encontros no Qatar no mês passado e já este mês; a embaixada norte-americana em Cabul recusou-se a comentar a alegação.

Para o membro do Quetta Shura, o alegado envolvimento do diplomata norte-americano foi fulcral para possibilitar os recentes encontros, dada a relutância dos talibãs em se encontrarem diretamente com membros do Governo afegão, que classificam de "regime fantoche" dos Estados Unidos.

"Os talibãs acreditam que a questão afegã é uma disputa dos governos dos EUA e do Afeganistão", aponta. "Se estes três lados conseguem manter encontros preliminares, isso pode criar uma forte base para futuros desenvolvimentos positivos." O facto de Akhund ter participado nos encontros, acrescenta, é sinal da elevada importância que os talibãs reconhecem a esta aparente retomada do processo de paz. "A sua presença tornou as conversações mais notáveis e demonstra que tanto o braço militar como o braço político dos talibãs estão em sintonia."

Esta mesma fonte avança que o primeiro dos dois encontros, no início de setembro, "decorreu de forma positiva numa atmosfera livre de problemas" e que na reunião Akhund se sentou frente a frente com Mohammed Masoom Stanekzai, atual chefe da agência secreta afegã. Um segundo encontro teve lugar no início deste mês, apesar de, no terreno afegão, as forças do Governo e os insurgentes continuarem em guerra.

Fonte das autoridades afegãs acrescenta que Stanekzai fez pelo menos uma viagem até Doha nos últimos tempos, mas tanto o porta-voz de Ashraf Ghani, o Presidente do Afeganistão, como Ismail Qasemiyar, do Alto Conselho para a Paz, desmentem ter conhecimento dos encontros – apesar de serem eles os máximos responsáveis pelas negociações de paz.

Nas últimas semanas, os talibãs conseguiram retomar a cidade de Kunduz, capital da província com o mesmo nome, no norte do Afeganistão, estando muito perto de obter o controlo de Lashkar Gah, na província de Helmand. Mas apesar da contínua violência no terreno, no final de setembro Cabul voltou a demonstrar o seu empenho em encontrar uma solução política para o conflito, concluindo um acordo de paz com Gulbuddin Hekmatyar, senhor da guerra islamita que lutou contra o regime apoiado pelos EUA durante mais de uma década.