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Luaty Beirão relata dias de prisão em diário

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JOOST DE RAEYMAEKER

O caderno com o relato dos primeiros 16 dias de prisão preventiva foi escondido entre jornais. Um diário que vai ser editado em livro

O diário dos primeiros dias de prisão do luso-angolano Luaty Beirão vai chegar às bancas, em livro, devido à “astúcia” de colocar o original no interior de um jornal, contou o ativista, em entrevista à Lusa.

“Aproveitei uma visita e meti entre jornais que não podiam entrar. Voltaram para casa [os jornais], com o caderno lá dentro. Não quisemos correr o risco de fazer de outra forma, o resultado está aí, porque foram lá à cela e levaram o outro caderno, que agora não aparece”, começa por explicar Luaty Beirão.

O rapper foi um dos 17 ativistas condenados a penas de prisão pelo tribunal de Luanda, a 28 de março, por rebelião e associação de malfeitores, depois de ter já passado 06 meses em prisão preventiva, após a detenção a 20 de junho.

A publicação, recorda, resulta de um desafio da diretora editorial da Tinta-da-China, Bárbara Bulhosa, que prevê lançar o diário, em livro, no final de novembro.

O diário, de 100 páginas, retrata os primeiros 16 dias de prisão preventiva, até ao início de julho, quando o ativista e outros do mesmo grupo partilhavam espaço numa cadeia com cerca de 1 500 reclusos.

Ocupava então uma cela de dois por três metros, de onde por vezes nem podia sair para as refeições.

“Recordo que eram dias em que tinham uma sensação de tranquilidade, de que não valia a pena stressar. Vivíamos com pequenas conquistas, como o acesso à família, à comida de casa ou aos livros, e algumas perdas também”, conta Luaty Beirão, que entre setembro e outubro de 2015 realizou uma greve de fome de 36 dias contra o excesso de prisão preventiva.

“Durante aqueles primeiros dias cheguei a ficar 47 horas trancado na cela, sem luz. Lembro-me de estar na altura tranquilo, embora em alguns momentos aborrecido com o que se estava a passar, mas geria-se. Estávamos mentalizados que íamos estar ali muito tempo”, explica.

O diário que agora será publicado, afirma Luaty Beirão, “não é sequer um quinto do material estava nos restantes cadernos”, que acabaram apreendidos pelos Serviços Penitenciários, já que tudo tinha de ser verificado, e no caso lido, à saída do estabelecimento prisional.

“Eu ia escrevendo e no íntimo se calhar achava que aquilo podia dar alguma coisa”, admite.

Um dos cadernos do rapper e ativista continha letras de músicas que foi escrevendo na cela, entre outros pensamos e relatos do dia-a-dia atrás das grades.

“São os meus direitos constitucionais que estão em causa. Não vou deixar isso barato, é a minha propriedade intelectual, por isso não vai ficar assim e quero que me devolvam os restantes diários”, garante.

O diário do ativista de 34 anos, uma das vozes mais críticas do regime angolano liderado por José Eduardo dos Santos, contém, por exemplo, “listas do que ele precisava para comer, porque na prisão - e ele esteve em várias -, não aceitava nenhuma comida dada pelos guardas prisionais, por haver um grande risco de ser envenenado”, revelou a editora.

Luaty Beirão e os restantes 16 ativistas deste processo foram libertados pelo Tribunal Supremo no final de junho, após recurso apresentado pela defesa.

Foram entretanto abrangidos pela amnistia presidencial para crimes - excluindo os de sangue - cometidos até 11 de novembro de 2015.