Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Grécia ensina crianças refugiadas nas suas escolas. Há protestos

  • 333

Associações de pais em diversas cidades disseram que não aceitavam, mas o governo helénico mantém-se firme

Luís M. Faria

Jornalista

Este domingo, a cidade de Thessaloniki, no norte da Grécia, assistiu a confrontos entre refugiados e as autoridades locais. A causa foi o atropelamento mortal de dois curdos oriundos da Síria, uma mulher e o seu filho de dez anos, por um cidadão grego de 76 anos (uma outra criança, de 5 anos, também foi atingida mas parece estar fora de perigo). Não é a primeira vez que a presença de refugiados gera tensões na zona. O campo de Oreokastro, junto ao qual ocorreu o acidente, tem dado origem a protestos desde há meses. O mês passado, uma associação de pais – apoiada pelo presidente da câmara, que já antes tinha sugerido aos residentes que tomassem a lei nas suas próprias mãos – ameaçou ocupar a escola se o governo fosse adiante com o seu plano de permitir que crianças refugiadas estudassem nas escolas locais. O presidente da câmara disse que elas deviam receber educação, sim, mas noutro tipo de lugares; por exemplo instalações industriais desocupadas.

O Presidente também se queixou de os seus mil emigrantes instalados nos campos próximos excederem em muito a quota justa para a zona, e aí terá alguma razão. Mas a culpa não é certamente daqueles que, pela sua própria natureza, não a podem ter em sessenta mil refugiados actualmente em campos na Grécia, cerca de um terço são crianças. O governo de Alexis Tsipras comprometeu-se a não deixar nenhuma ficar sem educação. Com o apoio financeiro da União Europeia, estabeleceu um plano a cumprir em duas fases. Na primeira, as crianças refugiadas terão aulas em separado – da parte da tarde, a seguir às crianças gregas, que as têm de manhã.

Na segunda fase, quando o grego delas já for suficientemente bom, integrar-se-ão na população escolar geral. Para já o plano só se aplica na Grécia continental, mas a ideia é que as crianças que se encontram em campos nas ilhas também vão para escolas no continente. De qualquer modo, é inevitável que o progresso resulte mais lento do que as expectativas. A ideia original era ter 18 mil crianças nas escolas gregas em finais de Setembro. Agora espera-se conseguir 10 mil no final de outubro.

“Quando violarem os nossos filhos…?”

Apesar da determinação do governo, não vai ser sempre fácil. Escolas fechadas a cadeado, ameaças, inventivas (“quando violarem as nossas crianças, quem assume a responsabilidade?”) são alguns dos obstáculos que os refugiados enfrentam. Numa cidade diferente, a polícia teve de fazer um corredor para que os novos alunos, muitos deles compreensivelmente assustados, entrassem em segurança. Noutra, os representantes da associação de pais enviaram uma carta às autoridades dizendo “explicita e categoricamente que não aceitaremos, sob nenhuma circunstância e sem qualquer compromisso” que “as crianças dos chamados emigrantes irregulares” frequentassem as escolas locais.

As preocupações invocadas eram de dois tipos: de saúde (que doenças trazem aquelas crianças? O governo garante que estão vacinadas, mas muitos pais dizem não acreditar) e de identidade cultural. Especificamente, “uma perspetiva diferente em relação ao papel da família, das mulheres da religião”. Prometendo não permitir o “fanatismo religioso”, os pais alegavam que a entrada das crianças refugiadas nas suas escolas iria alterar irremediavelmente o “carácter grego das mesmas”. Uma questão que surge fatalmente nestas situações, e que, podendo ser exagerada, não é de resposta necessariamente lógica para uma parte substancial das pessoas.

Brincar, crescer e ser educadas com crianças gregas

Apesar disso, o programa segue em frente. Logo no primeiro dia, houve 500 crianças distribuídas por vinte escolas. Nalguns casos, pelo menos, foram acolhidas com flores e canções. O presidente da câmara de Atenas prevê que no total o sistema acabe por receber umas 22 mil. 800 mil professores extra serão contratados, promete o Governo. Nas palavras do ministro da educação, Nikos Filis, “as crianças não devem ser postas em ghettos no nosso país. Em vez disso, devem-se criar condições para que possam brincar, crescer e ser educadas com crianças gregas enquanto estiverem na Grécia”.

Um ‘enquanto’ que promete ser longo, dada a crescente relutância de países no centro e leste da Europa em receber refugiados, sobretudo após os recentes atentados terroristas em países como a França e a Bélgica.