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“A hora da vitória chegou”: começou a batalha final para retomar Mossul ao Daesh

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SAFIN HAMED

Recapturar a cidade, último bastião do autoproclamado Estado Islâmico no Iraque, corresponde à derrota total do grupo jiadista no país. Autoridades iraquianas e da coligação internacional que apoia as suas forças por via aérea dizem que a ofensiva pode levar semanas, senão meses, a estar concluída. Haverá mais de um milhão de civis ainda a residir na cidade, que foram avisados da operação iminente através de milhares de panfletos ontem largados sobre a área

Estávamos em junho de 2014 quando Abu Bakr al-Baghdadi deu a cara pela primeira vez, na mesquita de Nouri, em Mossul, para declarar a instalação de um califado — um Estado governado sob a mais estrita interpretação da lei islâmica, ou Sharia — no Iraque e na Síria.

Nem um ano depois, a 26 de fevereiro de 2015, surgiram as primeiras imagens da destruição de históricas estátuas e relíquias do Museu de Nínive, algumas do século VII antes de Cristo, às mãos de militantes do grupo radical. Já em março deste ano, engenheiros envolvidos na construção da barragem de Mossul avisaram que as contínuas batalhas entre as forças iraquianas e o grupo radical já tinham provocado danos perigosos na estrutura, deixando um milhão de pessoas vulneráveis no vale do rio Tigre que percorre as cidades de Tikrit e Samarra até Bagdade, a capital do Iraque.

Ao longo desse período, o mundo foi sabendo da bárbarie e crueldade extrema do grupo, que tem encontrado um dos seus expoentes máximos em Mossul. É um cenário de horror que pode estar prestes a terminar depois de esta segunda-feira, volvidos mais de dois anos desde o surgimento do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) na região, ter começado uma operação das forças iraquianas e curdas, com o apoio aéreo da coligação internacional liderada pelos EUA, para recapturar a cidade, a segunda maior do Iraque e hoje o último bastião do grupo no país.

Ao início da madrugada deram-se os primeiros disparos de artilharia pelas tropas iraquianas, para abrir caminho aos veículos de combate que, segundo a correspondente da BBC que acompanha os peshmerga (combatentes curdos), começaram a entrar na cidade poucas horas depois. Antes disso, milhares de panfletos já tinham sido largados sobre a cidade e arredores para avisar os residentes sobre a ofensiva iminente. Em comunicado, a ONU disse-se "extremamente preocupada" com a segurança do milhão e meio de civis ainda na área, sob controlo do Daesh desde 2014.

"Se eu morrer hoje", declarou um general curdo citado pelo canal britânico, "morrerei feliz porque terei feito algo pelo meu povo". As autoridades dizem que reaver o controlo da cidade irá marcar a derrota final do grupo no Iraque, numa ofensiva muito antecipada que, segundo fontes no terreno, já levou dezenas de militantes radicais a baterem em retirada rumo à Síria. O "The Independent" avança que, para trás, o grupo deixa armadilhas e vários bombistas-suicidas "prontos e à espera" para lutar pelo controlo da cidade.

O início da derradeira batalha foi anunciado pelo primeiro-ministro iraquiano, Haider al-Abadi, num discurso à nação na televisão pública pouco depois da meia-noite, hora local. "A hora da vitória chegou", anunciou o chefe do executivo, rodeado das mais altas patentes militares do país. "Hoje declaramos o início das heróicas operações para vos libertarmos do Daesh", continuou. "Se deus quiser iremos encontrar-nos em Mossul para celebrar a libertação [da cidade] e a vossa salvação do ISIS [Estado Islâmico do Iraque e da Síria, na sigla inglesa] para que possamos voltar a viver juntos, todas as religiões unidas para derrotar o Daesh e reconstruir a adorada cidade de Mossul."

Analistas apontam que Abadi fez questão de sublinhar que apenas forças do Governo irão entrar na cidade de maioria sunita, para acalmar os receios de que a operação venha a transformar-se num conflito sectário entre os que pertencem a esse ramo do Islão e a minoria xiita.

Em Washington, o chefe do Pentágono, Ashton Carter, descreveu a batalha como "um momento decisivo" na campanha internacional cujo objetivo é "a derradeira derrota" do Daesh, uma "luta difícil" que poderá levar várias semanas, senão meses, a estar concluída, apontam as autoridades.

A operação para recapturar a capital da província de Nínive estava a ser preparada há vários meses, desde que as forças iraquianas e curdas conseguiram, com o apoio aéreo da coligação, expulsar o grupo radical de Fallujah e reconquistar a importante cidade.

Milhares de forças pró-governamentais reuniram-se ontem à noite na base aérea de Qayyarah, cidade a cerca de 60 quilómetros a sul de Mossul que foi recapturada em agosto e cuja importante base estratégica, onde estão instaladas tropas norte-americanas, foi alvo de um ataque com armas químicas pelo Daesh em setembro.

Stephen O'Brien, do gabinete da ONU para a coordenação de assuntos humanitários e ajuda de emergência, exigiu garantias de proteção aos civis ainda na cidade, pedindo a criação de acessos para se lhes prestar o apoio "que merecem e que lhes é devido".

"Estou extremamente preocupado com a segurança de até 1,5 milhões de pessoas ainda a viver em Mossul que podem ser atingidas" durante a ofensiva, declarou em comunicado, acrescentando que até um milhão de pessoas podem ser forçadas a abandonar as suas casas. O número de civis que continuam encurralados na cidade é incerto; à data da ocupaçao de Mossul pelo Daesh há mais de dois anos, a cidade tinha mais de dois milhões de habitantes.