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Suspenso na Hungria jornal crítico do Governo. Jornalistas falam em “manobra política”

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Marabu

O “Népszabadság” foi suspenso de um dia para o outro. Nos últimos meses, publicou uma série de artigos sobre a utilização de fundos públicos por elementos próximos do primeiro-ministro e outros contra a sua política anti-imigração. Poucos acreditam na justificação apresentada pela empresa proprietária, que alega motivos económicos

É grande a contestação na Hungria, depois de ter fechado, sem aviso prévio e de um dia para o outro, o diário “Népszabadság”, o jornal de maior tiragem no país, um dos poucos independentes e conhecido pelos conteúdos críticos em relação ao partido no poder, o Fidesz.

Propriedade da Mediaworks, que o adquiriu em 2014, a empresa austríaca alega motivos económicos. Poucos acreditam. Numa carta dirigida aos editores, o jornalista András Dési - um dos que desconhece agora qual será o seu destino - contextualiza o fecho do jornal e defende que a sua suspensão tem tudo para ser considerada “uma manobra politicamente orquestrada para remeter o ‘Népszabadság’ ao silêncio”.

András Dési não questiona as “sérias dificuldades económicas” que afetam a publicação, comuns, aliás, “a outros jornais no mundo”, mas sublinha que o fecho do diário exigiria uma consulta prévia, tanto dos responsáveis pela redação, como dos sindicatos.

Ao invés desse procedimento, a Mediaworks suspendeu o título de repente, sendo os jornalistas apanhados de surpresa quando, no dia 8 deste mês, sábado, foram impedidos de entrar na redação por elementos da segurança, sendo-lhes também vedado o acesso aos seus computadores ou e-mails de trabalho.

O primeiro-ministro da Húngria, Viktor Orban

O primeiro-ministro da Húngria, Viktor Orban

THIERRY CHARLIER/GETTY

Na mesma carta, András Dési chama a atenção para o que de conveniente tem o silenciamento do “Népszabadság”, o jornal que “nos últimos meses começou a publicar os resultados de uma aprofundada investigação jornalística, revelando como pessoas próximas do primeiro-ministro conservador Viktor Orban usaram o dinheiro dos contribuintes para seu próprio benefício e como fundos públicos serviram para financiar os seus luxuosos estilos de vida”. É preciso ainda não esquecer que, decretada a suspensão - que se aplica à versão impressa e à edição online - todo o arquivo da publicação fica inacessível.

O jornal tornou-se “um embaraço” para o Fidesz, escreve o jornalista, e a melhor forma de resolver o problema foi “silenciá-lo”. Acrescenta depois: “O sr. Putin e o sr. Erdogan devem ter aplaudido o método”.

Fundado há exatamente 60 anos, o jornal foi até 1990 o periódico oficial do regime comunista e, depois disso, tem sido uma voz crítica, politicamente associada à esquerda. O seu desaparecimento é encarado como um rude golpe para a liberdade de imprensa na Húngria, onde o poder controla a maior parte dos meios (András Dési fala em mais de 70% dos media).

Marabu

Na versão oficial, divulgada através de um comunicado, a Mediaworks refere que a suspensão terá efeito até à elaboração e aplicação de um novo conceito”. Justifica a medida pelos prejuízos acumulados de cerca de 16 milhões de euros e frisa que o jornal perdeu 74% dos leitores no espaço de dez anos.

Os argumentos não convencem a oposição, nem os milhares de leitores que têm exprimido a sua solidariedade de diferentes formas, inclusive, indo para a rua manifestar-se.

Outras vozes levantam-se para denunciar outras manobras de bastidores. O portal noticioso “hvg”, por exemplo, recorda que “nos últimos tempos havia rumores de que a Mediaworks foi vendida a um proprietário próximo do Governo”. E sublinha como foram pouco “agradáveis” para o primeiro-ministro Viktor Orban os artigos que criticavam a sua política anti-imigração, publicados no “Népszabadság”.

O homem de quem se fala é o presidente da câmara de Felcsut, cidade natal de Viktor Orban, ainda que oficialmente nada confirme estar em vias de ser este o novo proprietário do jornal.

Até agora, o Governo húngaro não comentou a suspensão do diário.

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