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EUA e Rússia voltam a falar sobre futuro da Síria

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John Kerry e Sergei Lavrov num encontro anterior

YURI KOCHETKOV/EPA

Os chefes da diplomacia dos dois países, John Kerry e Sergei Lavrov, reúnem-se este sábado na cidade suíça de Lausanne. Depois de todas as acusações que a Rússia tem feito aos EUA, recusando-se a admitir ter culpas no cartório, e de o Presidente sírio Bashar al-Assad ter prometido “continuar a limpar” a zona leste de Alepo, onde cerca de 250 mil pessoas vivem em condições deploráveis, já ninguém espera quaisquer mudanças

Helena Bento

Jornalista

Depois de terem anunciado a suspensão das negociações de paz para a Síria com Moscovo, devido aos bombardeamentos constantes levados a cabo pela avião russa sobre a cidade de Alepo, os Estados Unidos voltam a contar com o país de Vladimir Putin para discutir o futuro do país assolado pela guerra civil.

O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, e o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, vão reunir-se este sábado na cidade suíça de Lausanne, num encontro internacional que contará também com a presença de Staffan de Mistura, o enviado da ONU para a Síria, e outros diplomatas das Nações Unidas. Encontros como este, entre os chefes da diplomacia dos dois países, já aconteceram dezenas de vezes no passado, mas o deste sábado promete ser diferente. Não por causa dos eventuais resultados, que se espera que sejam igualmente poucos e igualmente duvidosos, mas pelo formato definido: tal como há três anos, Kerry e Lavrov vão reunir com um pequeno grupo de países com ligações aos grupos moderados da oposição no terreno, em vez de se encontrarem com todos os países que integram o Grupo Internacional de Apoio à Síria (ISSG, na sigla em inglês), com os quais tem sido mais difícil de negociar, dadas as suas reivindicações.

Segundo Vitaly Churkin, o embaixador russo nas Nações Unidas, onde preside, atualmente, o Conselho de Segurança (foi ele que anunciou Guterres como vencedor por “unanimidade” da corrida ao cargo de secretário-geral), o objetivo do encontro é fazer com que os países que apoiam os grupos “moderados” da oposição, como a Turquia, a Arábia Saudita e o Qatar, usem a sua influência para formar consensos em torno de um novo cessar-fogo, cita a Al Jazeera. O ministro dos Negócios Estrangeiros iraquiano, Mohammad Javad Zarif, estará igualmente presente.

No início de outubro, os Estados Unidos anunciaram a suspensão das negociações de paz para a Síria com a Rússia. Num comunicado então divulgado, o porta-voz do Departamento de Estado, John Kirby, acusava Moscovo, aliado do Presidente sírio Bashar al-Assad, de ter “falhado os seus compromissos”, nomeadamente o compromisso de respeitar o cessar-fogo declarado semanas antes. “A Rússia foi incapaz de garantir a adesão do regime sírio aos acordos com os quais Moscovo se comprometeu”, dizia John Kirby, acusando as tropas do Presidente sírio de estarem “a atacar infraestruturas críticas como hospitais” e a impedir a chegar de ajuda humanitária às cerca de 250 mil pessoas que vivem em condições deploráveis na zona leste de Alepo, nas mãos da oposição.

A Rússia, por seu lado, acusou os Estados Unidos de não conseguirem separar o trigo, “a oposição moderada”, do joio, os jiadistas da antiga Frente Al-Nusra, agora denominada Jabhat al-Nusra. Sobre o encontro deste sábado na cidade suíça de Lausanne, Sergei Lavrov diz não ter “grandes expectativas”. “Ainda não vimos, até agora, qualquer dos nossos parceiros dar um único passo concreto no sentido de responder positivamente aos acordos feitos”, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros, citado também pela televisão árabe.

É normal que Lavrov não tenha “grandes expectativas”, não pelas razões que apresenta, mas porque ainda esta sexta-feira o Presidente Bashar al-Assad prometeu, numa entrevista ao diário russo “Komsomolskaya Pravda”, “continuar a limpar” a zona leste da cidade, dizendo esperar que Alepo sirva de “trampolim” para expulsar os “terroristas” que restam no país para a Turquia ou, pelo contrário, matá-los. No meio disto tudo, quem continuará a sofrer será, obviamente, a população.