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A valsa dos perdedores

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Sarkozy tem seis rivais à direita e Hollande bateu no fundo

Philippe Wojazer/REUTERS

A pré-campanha para as presidenciais arranca com divisão à direita e incerteza à esquerda

François Hollande e Nicolas Sarkozy pensavam ser os candidatos “naturais” às presidenciais da próxima primavera, consideravam-se incontestáveis no seu campo, mas perderam a pedalada. Fingem agora que aceitam o jogo democrático das primárias partidárias, mas estão a ser duramente contestados e são obrigados a aceitar o desafio de competir com outros candidatos que, por vezes, desprezam profundamente.

O antigo Presidente Nicolas Sarkozy vai ser o primeiro a entrar em campo já no fim de novembro para disputar a candidatura da direita ao Eliseu com mais seis rivais. E nem sequer é o favorito das sondagens destas primárias — pois nas sondagens, o antigo primeiro-ministro, o moderado Alain Juppé, é o favorito do campo da direita e do centro e é em torno dele que o debate se concentra.

Sarkozy, que radicalizou o discurso em relação ao islamismo e à imigração, aproximando-se arriscadamente das teses defendidas pela nacionalista Marine Le Pen que, esta sim, tem presença quase garantida na segunda volta das presidenciais, parte em desvantagem. Nada que o assuste, ele já viveu situações idênticas no passado.

Quanto ao atual chefe de Estado, François Hollande, muito debilitado pelas más sondagens (13%), ainda nem sequer decidiu se será candidato às primárias organizadas muito a contragosto pelo Partido Socialista. Anunciará a decisão em dezembro depois de conhecidos os resultados das da direita.

Hollande só contra Sarkozy

François Hollande, que enfrentará candidatos de segundo plano, como os ex-ministros Arnaud Montebourg ou Benoît Hamon, só se candidatará se Sarkozy vencer as primárias da direita. Como já o derrotou uma primeira vez em 2012, considera mais fácil batê-lo do que Juppé. Pensa que acabará por o eliminar na primeira volta das presidenciais e que será ele a enfrentar a seguir Marine Le Pen. A seguir, as contas estão já feitas: Hollande beneficiará do chamado “voto republicano”, o conjunto dos votos dos democratas de direita e de esquerda que afastará do Eliseu a chefe da Frente Nacional.

O problema de Hollande é que, antes de chegar à segunda volta, tem, à sua esquerda, outros candidatos ecologistas, que não aceitam participar nas primárias organizadas pelo PS e que podem concorrer contra ele na primeira volta. O mesmo acontece com Jean-Luc Mélenchon, dissidente socialista e que, com mais de 10 por cento nas sondagens (pouco menos do que o atual Presidente) anuncia que “nunca abdicará” a favor de Hollande, como fez em 2012. Um problema que pode afastar pura e simplesmente o atual Presidente da segunda volta.

Presidenciável procura-se

Mas o dilema político de Hollande torna-se ainda mais complicado porque na sua área da esquerda moderada há outros nomes que ainda não desistiram de ser candidatos — é o caso de Emmanuel Macron, até há pouco tempo seu ministro da Economia, que faz campanha no campo do “liberalismo” de centro-esquerda e até do primeiro-ministro, Manuel Valls, que não exclui uma candidatura às primárias se, em dezembro, a demasiado frágil situação de Hollande continuar a não lhe permitir sequer colocar a hipótese de ser candidato.

Enquanto a direita se prepara para o primeiro debate televisivo, nesta quinta-feira, que se adivinha complicado com sete candidatos, a esquerda ainda parece andar à procura de um presidenciável.

François Hollande, que tem a reputação de nunca desistir até ao limite do possível, escreveu um livro (a partir desta quinta-feira nas livrarias) onde se revela muito combativo. Continua a acreditar na reedição do duelo de há cinco anos com Sarkozy, a quem chama “De Gaulle, o pequeno”.

Hollande elege o antigo Presidente como principal rival — “eu, Presidente da República, nunca fui financiado pela Líbia” (uma acusação nunca provada judicialmente contra Nicolas Sarkozy).

Valls, o escolhido?

No livro, dá claramente a entender que será candidato apesar das críticas de dezenas de deputados socialistas, de ecologistas e de Mélenchon. “Não tenho medo de perder”, diz a dado passo.

Garante que votará por Nicolas Sarkozy — “apesar do seu cinismo” — na segunda volta das presidenciais se a disputa for entre ele e Marine Le Pen. Mais facilmente votará por Alain Juppé, depreende-se. Trata-se de um livro de entrevistas onde, no final, François Hollande acaba por escolher um sucessor, se “por acaso desistir de se candidatar”: Manuel Valls, um primeiro-ministro, que ele elogia por ser de uma “lealdade absoluta”.