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#RepealThe19th ou os homens (de Trump) que odeiam as mulheres

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Donald Trump no final da campanha presidencial na Flórida a 12 de Outubro 2016

FOTO MIKE SEGAR/REUTERS

Depois de ter sido apontado que Donald Trump ganharia as eleições presidenciais se só os homens fossem às urnas no próximo dia 8 de novembro, começou uma guerra dos sexos no Twitter. Inúmeros utilizadores do sexo masculino lançaram uma hashtag para exigir a abolição da emenda constitucional que, desde 1920, garante o direito de voto às mulheres. Os que defendem a igualdade de género já se juntaram para responder à letra

O FiveThirtyEight, do guru de dados eleitorais Nate Silver, é um dos sites mais consultados em anos de ida às urnas nos Estados Unidos. E este ano isso não só não é exceção como o site ganhou importância redobrada perante a mais disputada corrida à Casa Branca da História moderna (também a mais suja dos últimos 44 anos, segundo o Politico).

Quando, há uma semana, o "Washington Post" revelou uma gravação de 2005 em que se ouve Donald Trump a gabar-se de como apalpa e beija mulheres sem o seu consentimento porque é uma "estrela" e por isso "pode" fazê-lo, Silver publicou um mapa eleitoral com muitos poucos estados pintados de vermelho. A tradução? Se as mulheres se juntassem todas contra o candidato republicano, ele não teria hipóteses de vencer na maioria dos 50 estados norte-americanos nem no Distrito de Columbia, sofrendo uma histórica derrota.

Dois dias depois, a poucas horas do início do segundo frente a frente com Hillary Clinton, Trump tentou desviar as atenções do assunto organizando uma conferência de imprensa com quatro mulheres, três delas que acusam Bill Clinton de ter abusado sexualmente delas e uma outra que acusa a mulher do antigo Presidente e candidata democrata nestas eleições de se ter rido na cara dela quando defendeu em tribunal o homem que a violou.

Paula Jones, uma das mulheres a quem Trump recorreu (sob suspeita de as ter subornado para assistirem ao debate ao vivo), foi insultada e gozada pelo próprio candidato republicano em 1998, quando Jones falou publicamente pela primeira vez. Dias antes do segundo debate televisivo com Hillary, Trump já tinha usado a fama do antigo Presidente, que durante o seu mandato foi acusado de uma série de casos extramaritais, o mais famoso deles com Monica Lewinsky, para se defender das acusações de assédio e abuso sexual de mulheres patentes na gravação de 2005 (longe de serem as primeiras).

No rescaldo desse debate, na terça-feira passada, Silver o seu FiveThirtyEight voltaram a ganhar protagonismo com uma sondagem onde era revelado que, entre as mulheres, Clinton tem neste momento uma vantagem de dez pontos percentuais sobre o rival republicano. Reciprocamente, apontou Silver, se apenas os homens votassem nestas eleições a 8 de novembro, Donald Trump venceria com 350 assentos no Colégio Eleitoral contra 188 para a rival democrata.

Não demorou muito até o Twitter ganhar uma nova hashtag, que entrou diretamente para a lista de etiquetas mais populares que estão a ser usadas na rede social: #RepealThe19th. Na prática, quem usa a expressão pede a anulação da 19.ª emenda constitucional, que foi aprovada a 18 de agosto de 1920 para, pela primeira vez, garantir o direito de voto às mulheres brancas dos Estados Unidos. E quem a usa, notam os media norte-americanos como a revista "The Atlantic", são homens brancos que sentem a sua masculinidade ameaçada por, entre outros motivos, uma mulher, e não um homem, estar prestes a ser eleita Presidente dos EUA — algo inédito na História do país.

As reações furiosas das utilizadoras do sexo feminino e de todos os que apoiam a igualdade de género também não tardaram: Massacre a tiro -> "Não se atrevam a tocar na 2.ª emenda!" / Mulheres a denunciarem um predador sexual -> "Acabem com a 19.ª, lê-se num tweet a comparar o empenho dos republicanos na defesa da posse de armas e a reação condenatória às mulheres por denunciarem comportamentos abusivos de Trump para com o sexo oposto.

O tweet foi partilhado por vários utilizadores, entre eles uma mulher de 33 anos que vive em Nova Iorque e que disse à "Yahoo" que a comparação "sumariza qualquer coisa que pudesse dizer" sobre o assunto. "Terrível, é completamente terrível", acrescenta ao mesmo site Rachel, uma mulher de 31 anos de Atlanta. "Estou ofendida mas não surpreendida", aponta uma outra eleitora americana, de 37 anos, habitante de Minneapolis. "Dado que duvido que alguém vá repelir a 19.ª emenda antes de 8 de novembro, não posso levar [os homens] a sério sobre isto. Se eles pensam que a única forma que têm de ganhar é retirar a todo um sexo os seus mais básicos direitos civis, então quer dizer que estão a ficar assustados — o que, na verdade, me diverte", continua Claire.

"Posto isto, penso que o tom e a mensagem da campanha eleitoral estão a ter um impacto terrível nas décadas de trabalho a favor da igualdade de género. Claro que algumas pessoas são sexistas e idiotas e vão continuar a sê-lo, não posso mudar isso. Mas o que é que esta retórica a nível nacional diz aos jovens americanos que ainda estão a formar as suas visões do mundo e os seus valores? Esta atitude para com as mulheres é absolutamente inaceitável, e ainda assim Trump e os seus apoiantes não só a desculpam como a celebram. E claro que é escusado dizer: Porque é que as mulheres ainda vão votar neste monstro?".

Na quarta-feira, o "New York Times" publicou uma reportagem em que duas mulheres dão a cara pela primeira vez contra Trump, acusando-o de, em momentos distintos, as ter beijado ou apalpado sem consentimento e sem sequer se conhecerem. Numa reação pública a essa denúncia, Michelle Obama discursou ontem contra o candidato republicano e todos os que o apoiam e atacam as mulheres.

"Tenho de dizer-vos que ouvi aquilo tudo [a gravação de 2005] e que o senti na pele", disse a primeira-dama. "Estou certa de que muitos de vocês também o sentiram na pele, em particular as mulheres. Os comentários vergonhosos sobre os nossos corpos. O desrespeito pelas nossas ambições e intelecto. A crença de que se pode fazer o que se quer a uma mulher. É tudo cruel. É assustador. E a verdade é que magoa."

Hoje, já depois do poderoso discurso de Obama (que alguns comentadores dizem ser uma armadilha montada contra Trump a cinco dias do seu último debate com Clinton), Trump voltou a desmentir todas as acusações, dizendo que são "total e absolutamente falsas" e reforçando a ideia de que está a ser alvo de uma campanha para o denegrir.