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Assad promete “limpar” Alepo e usar cidade como “trampolim para expulsar ou matar rebeldes”

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SANA

Em entrevista ao diário russo “Komsomolskaya Pravda”, Presidente da Síria promete “continuar a limpar” cidade do leste onde mais de 250 mil civis estão encurralados pelos bombardeamentos intensivos das forças leais ao regime em parceria com a Força Aérea russa

O Presidente da Síria vai manter em vigor a intensa campanha militar de "limpeza" da cidade sitiada de Alepo, onde mais de 250 mil pessoas estão encurraladas há vários meses e a ser alvo de bombardeamentos contínuos pelas forças do seu Governo, aliadas às forças russas, desde o colapso de um cessar-fogo negociado entre Moscovo e Washington no final de setembro.

Em entrevista ao tablóide russo "Komsomolskaya Pravda" na quinta-feira à noite, citada pelo "The Guardian" na sua edição online, Bashar al-Assad disse esperar que Alepo sirva de "trampolim" para expulsar os "terroristas" que restam no país para a Turquia ou, pelo contrário, matá-los. Essa é a classificação que o regime sírio dá aos rebeldes de oposição a Assad desde o início da guerra civil há cinco anos e meio.

Com cada vez mais países e organizações a acusarem o seu regime de cometer crimes de guerra em Alepo, uma acusação igualmente proferida contra a Rússia sua aliada, Assad diz que a vitória naquela cidade estratégica será a única forma de garantir que o Exército sírio "liberta" outras áreas do país dos "terroristas". Alepo, acrescentou, já deixou de ser a capital industrial e comercial da Síria mas, ainda assim, reaver o controlo da cidade terá importantes ganhos políticos e estratégicos para o seu Governo.

"Vai ser um trampolim para [nos] movermos para outras áreas, para libertarmos outras áreas dos terroristas, é esta a importância de Alepo", declarou na entrevista sobre a cidade que ao ritmo da ofensiva, diz o enviado especial da ONU, poderá estar dizimada dentro de dois meses. "É preciso continuar a limpar esta área e a empurrar os terroristas para a Turquia para que regressem para lá, de onde vieram, ou para os matar. Não existe outra opção. Alepo vai ser um importante trampolim para conseguir isto."

Só esta semana, de acordo com ativistas no terreno, as forças leais a Assad já mataram mais de 150 pessoas no leste de Alepo com o apoio de aviões de guerra russos. O crescente número de vítimas civis em Alepo, onde muitos dos edifícios e acessos já foram reduzidos a pó, tem levado vários países e grupos de direitos humanos, à cabeça o Reino Unido e a ONU, a acusar o regime sírio e o Governo russo de cometerem crimes de guerra.

Na sequência da retomada da ofensiva aérea contra a cidade sitiada há vários meses, os Estados Unidos tinham ameaçado suspender as negociações de paz em curso com a Rússia, mas ontem foi anunciado que representantes dos dois países vão voltar a encontrar-se este sábado para tentar resgatar o acordo de trégua que colapsou no final de setembro.

Na quinta-feira, enquanto a coligação internacional liderada pelos EUA continuava a debater formas de intervir para travar os bombardeamentos a Alepo sem entrar em confronto direto com os russos, o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros reforçou as acusações de crimes de guerra contra o Governo de Vladimir Putin — que o Presidente russo reduz a mera "retórica" dos rivais.

"Não podemos ficar a assistir enquanto Alepo é pulverizada desta forma", declarou Boris Johnson. "Temos de fazer alguma coisa... Se isso quer dizer que podemos criar uma coligação para alcançar ações mais cinéticas não posso adivinhar. Mas o que a maioria das pessoas quer agora é um novo leque de opções."

Na mesma entrevista ao jornal russo, Assad disse ontem que a Arábia Saudita se ofereceu para ajudar o seu Governo se ele aceitar cortar relações com o Irão, um dos maiores aliados do regime sírio. De acordo com o Presidente sírio — que, em março de 2011, respondeu com mão dura às manifestações pacíficas que exigiam a abdicação da dinastia Assad, no poder há 46 anos, potenciando o que é hoje uma das mais sangrentas guerras em curso no mundo — os sauditas disseram-lhe: "Se se afastarem do Irão e anunciarem que vão cortar todo o tipo de relações com o Irão, nós vamos ajudar-vos. Muito simples e muito direto ao assunto."

Assad referiu ainda que a guerra civil da Síria, que em quase seis anos já provocou meio milhão de mortos e muitos mais milhões de deslocados e refugiados, transformou-se num conflito entre a Rússia e o Ocidente. "O que temos visto recentemente, nas últimas semanas, talvez nos últimos meses, é algo que vai para além da Guerra Fria", diz na mesma entrevista. "Não sei o que lhe chamar [...] Não penso que o Ocidente e em particular os EUA tenham suspendido a sua Guerra Fria, mesmo depois do colapso da União Soviética."