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Milhares de colombianos saem à rua pelo acordo de paz com as FARC

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LUIS ROBAYO

Bogotá e outras cidades da Colômbia foram palco de novos protestos na noite desta quarta-feira como forma de pressão ao Presidente Juan Manuel Santos – laureado com o Nobel da Paz há uma semana – para que salve o acordo que uma maioria da população chumbou em referendo no início de outubro

Milhares de pessoas saíram esta quarta-feira à noite à rua em várias cidades da Colômbia, para exigirem que o Governo e os rebeldes de esquerda das FARC salvem o acordo de paz alcançado há um mês para pôr fim a 52 anos de um sangrento civil – que, para surpresa de muitos, foi chumbado em referendo por uma maioria qualificada dos eleitores chamados às urnas a 3 de outubro.

As manifestações desta quarta-feira marcam o segundo dia na mesma semana em que muitos colombianos saíram de casa para demonstrarem o seu apoio ao acordo firmado no final de agosto pelo Governo de Juan Manuel Santos com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), depois de vários anos de negociações de paz mediadas por Cuba.

"Temos visto centenas de representantes de grupos indígenas, de afro-colombianos e de outras minorias a caminharem por Bogotá exigindo a paz", noticia o correspondente da "Al-Jazeera" na capital colombiana. "Marcham juntamente com estudantes, com vítimas do conflito e com famílias comuns."

Em Bogotá, pessoas que perderam familiares e amigos nas várias décadas do conflito levaram fotografias das vítimas para o protesto e foram aplaudidas pelos manifestantes que distribuíam flores brancas em nome da paz. "Somos vítimas desta estado de limbo, precisamos de um acordo agora", disse à Associates Press Diana Gomez, ativista de 39 anos cujo pai foi morto há uma década. Foi um dos inúmeros homicídios que continuam por resolver até hoje, depois de 52 anos de um conflito que provocou mais de 220 mil mortos e que deixou quase oito milhões de pessoas deslocadas.

O acordo final foi assinado a 26 de setembro por Santos e Timochenko

O acordo final foi assinado a 26 de setembro por Santos e Timochenko

ADALBERTO ROQUE/GETTY

Apesar de uma maioria dos colombianos que foram às urnas ter votado contra o acordo de paz alcançado com as FARC, o Comité do Nobel da Paz decidiu laurear o Presidente Juan Manuel Santos com o prémio deste ano, pelos seus esforços para alcançar a paz no país. Houve algumas críticas, entre elas da mais famosa refém das FARC, pelo facto de apenas Santos ter sido laureado, sem se incluir no prémio – como aconteceu, por exemplo, com os representantes de Israel e da Palestina há duas décadas – o representante da guerrilha que tem estado a negociar a paz com o Governo colombiano, depois de ter ordenado aos seus militantes que abandonassem as armas.

Desde que o acordo foi chumbado na consulta popular que o Presidente do país está a tentar reativar as negociações com os partidos da oposição e os representantes das FARC, para adaptar o acordo e tentar que seja aprovado rapidamente. A Al-Jazeera refere que não é para já certo se será possível salvar as negociações, à medida que os opositores a este acordo aumentam a pressão por mais e mais duras penas aos líderes e militantes rebeldes.

Sob os termos do acordo assinado a 26 de setembro, os líderes das FARC passavam a ter direito a um mínimo de 10 assentos parlamentares garantidos, com os militantes que confessem os crimes que cometeram a serem poupados da prisão, sendo em vez disso ordenados a fazer trabalho comunitário nas áreas da Colômbia mais afetadas pelo conflito.

"Esta não é uma questão de alterações cosméticas", disse esta quarta-feira o ex-Presidente colombiano Alvaro Uribe, que liderou a campanha contra o acordo de paz. "Num país de instituições como a Colômbia, a justiça transitória não pode consistir num falhanço em punir os responsáveis por crimes atrozes", acrescentou aos jornalistas depois de entregar ao governo uma lista de propostas de alteração ao documento que, diz, vão reforçar o acordo.

Também esta quarta-feira, o líder das FARC Timoleon Jimenez, nome de guerra Timochenko, tentou manter-se positivo, dizendo que o grupo está aberto a fazer ajustes ao acordo apesar de não estar disponível para reiniciar as negociações do zero. "Pessoalmente, penso que pode ter sido bom isto acontecer", disse em referência ao chumbo do acordo em referendo numa longa entrevista à rádio Caracol. "Permite-nos dissipar várias dúvidas e envolver o importante segmento da sociedade colombiana que não votou, mais de 63%, para que se interessem por este evento histórico."

A marcha desta quarta-feira à noite na praça Bolívar em Bogotá, onde se situam o Congresso e o Palácio Presidencial, pareceu ser maior do que a da semana passada, num potencial sinal de que cada vez mais colombianos estão empenhados em alcançar a paz. Nos últimos dias, aquela mesma praça tem estado ocupada por tentas erguidas por ativistas; na terça-feira, esteve coberta por um enorme lençol branco com os nomes de quase duas mil vítimas do conflito.

Santos, o Nobel da Paz, aplaude e apoia o ativismo assíduo, tendo reiterado ontem a necessidade de se encontrar uma "solução rápida" para o impasse para que o cessar-fogo em vigor não colapse. "A grande maioria das pessoas tem-me pedido que encontre uma solução rapidamente porque a incerteza é o inimigo", disse num discurso transmitido na televisão.