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Dão a cara mais duas vítimas do que Trump garante ser só “conversa de balneário”

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Spencer Platt

Jessica Leeds e Rachel Crooks eram jovens quando, em momentos distintos, se cruzaram pela primeira vez com o empresário que este ano disputa as eleições presidenciais com Hillary Clinton. Leeds seguia a bordo de um avião há 30 anos quando sentiu as mãos de Trump a apalparem-na. Crooks estava à espera de um elevador na Trump Tower quando foi beijada na boca contra a sua vontade

Jessica Leeds queria "esmurrar o televisor" no domingo à noite quando começou a assistir ao segundo debate presidencial entre Donald Trump e Hillary Clinton. A primeira pergunta dos eleitores que foi colocada aos candidatos presidenciais referia-se à sua fibra moral e se consideram que são um bom exemplo para os jovens e o moderador Anderson Cooper não deixou escapar a oportunidade para lançar logo aí a questão que ocupava as mentes dos espectadores desde a sexta-feira anterior: teria Trump noção de que as suas declarações numa gravação de 2005 divulgada pelo "Washington Post", na qual se gaba de apalpar e beijar mulheres sem o seu consentimento, equivalem a abuso sexual e violação?

O empresário foi perentório e não teve de pensar duas vezes: o que os americanos e o resto do mundo ouviram nessa conversa de há 11 anos entre ele e o apresentador Billy Bush, garantiu o aspirante à Casa Branca, foi apenas isso, uma conversa. Na sua visão uma "conversa de balneário" – coisas que os "machos alfa" dizem entre si quando estão juntos sem mulheres por perto, como defenderia Nigel Farage, um dos mais proeminentes apoiantes de Trump deste lado do Atlântico.

Não, Trump nunca beijou ou tocou indecentemente numa mulher sem o seu consentimento, garantiu o próprio nessa noite. Isto depois de, no dia anterior, ter sublinhado num vídeo onde alegadamente pedia desculpa que, no caso dele, trata-se "só de palavras" e que Bill Clinton, o marido da rival que ficou, enquanto Presidente, conhecido pelos seus casos extramaritais, "é que abusou de mulheres".

Nessa noite de domingo, sentada à frente da sua televisão em Manhattan, Leeds, de 74 anos, sentiu-se enganada. Há mais de três décadas, quando era uma jovem empresária, embarcou num voo para Nova Iorque e foi convidada por uma hospedeira de bordo a mudar-se da classe económica para a primeira classe. Leeds não percebeu porquê mas aceitou e cerca de 45 minutos depois de o avião ter descolado, quando já estava instalada no lugar oferecido, o também jovem empresário que seguia ao seu lado levantou o braço da cadeira que os separava e começou a tocar-lhe.

Nunca se tinham conhecido nem ela lhe tinha dado qualquer sinal de que pudesse estar interessada naquilo. "Ele parecia um polvo", recorda mais de 30 anos depois numa entrevista exclusiva ao "New York Times" publicada ontem à noite. "As mãos dele estavam em todo o lado", sublinha, explicando que o jovem Trump lhe mexeu nos seios e que tentou meter a mão no meio das pernas dela. Foi aí que Leeds descongelou e se levantou de súbito, fugindo para as traseiras do avião sem acreditar no que tinha acabado de acontecer. “Foi uma violação", garante hoje.

Leeds levou alguns anos ganhar coragem para começar a partilhar a sua experiência. Isso aconteceu no ano passado quando aquele mesmo homem que abusara dela 30 anos antes – entretanto famoso pelo império de casinos e hóteis com o seu nome espalhados pelos EUA e por causa de um reality show em que despedia aspirantes à sua empresa – anunciou que ia candidatar-se à presidência do país.

Ao "New York Times", Leeds diz que contou a sua história a pelo menos quatro pessoas próximas nessa altura, com as quais o jornal também falou na última semana. E o seu caso não é único. Rachel Crooks tinha 22 anos e era rececionista da Bayrock Group, uma empresa de investimento em imobiliário que estava instalada na Trump Tower em Manhattan, quando se cruzou com Trump à porta de um elevador do edifício numa manhã de 2005.

Ciente de que a sua empresa tinha negócios com o magnata, decidiu apresentar-se e estendeu-lhe a mão. Trump respondeu ao cumprimento mas não a deixou seguir caminho, conta agora Crooks, onze anos depois do sucedido, para que as pessoas saibam quem é verdadeiramente o homem que pretende bater Clinton nas presidenciais dentro de três semanas, a 8 de novembro.

Nesse dia de 2005, em vez de largar a mão de Crooks, Trump deu-lhe beijos nas bochechas. E aí, recorda a americana, "beijou-me diretamente na boca".

Crooks sentiu o mesmo que Leeds: o que aconteceu não foi um acidente, foi uma violação do seu corpo e do seu espaço privado. "Foi tão inapropriado", recorda, agora com 33 anos, em entrevista ao NYT. "Fiquei tão desconcertada por ele ter pensado que eu era insignifcante ao ponto de ele poder fazer aquilo."

Abalada, Crooks regressou à sua secretária e ligou de imediato à irmã Brianne Webb, que ainda vivia na pequena cidade do Ohio onde cresceram. "Ela estava muito afetada com aquilo", recorda Webb. "Eu, sendo de uma localidade com 1600 pessoas e ingénua, perguntei-lhe: 'Tens a certeza de que ele não te beijou sem querer na boca, quando queria apenas cumprimentar-te com um beijo na cara?' Ela disse: 'Não, ele beijou-me na boca'. E eu pensei: 'Isso não é normal'."

Desde sexta-feira que a campanha de Trump e o próprio candidato republicano têm garantido que o conteúdo da gravação de 2005, o mesmo ano em que Crooks foi beijada contra a sua vontade, não corresponde à forma como o empresário trata as mulheres. Mas isso não é verdade, sublinham agora Leeds e Crooks, cujas histórias nunca tinham sido reveladas publicamente.

As suas declarações ao diário nova-iorquino ecoam os relatos de outras mulheres que, no último ano e meio, decidiram denunciar o que sofreram às mãos de Trump – caso de Temple Taggart, ex-Miss Utah, que diz que o agora candidato presidencial a beijou na boca mais do que uma vez sem o seu consentimento, quando ela tinha 21 anos e era concorrente ao título Miss Universo no concurso de beleza gerido pelo empresário.

Contactado pelo "NYT" na terça-feira à noite para uma reação às acusações mais recentes de assédio e abuso, um "Trump muito agitado" voltou a desmentir tudo. "Nada disso aconteceu", garantiu o candidato "aos gritos com a jornalista que o questionou", escreve o jornal. No mesmo telefonema, o aspirante à Casa Branca acusou o jornal de estar a inventar histórias para denegrir a sua campanha e prometeu processar o grupo de media se as histórias de Leeds e Crooks fosse publicadas. "Você é um ser humano nojento", disse à jornalista que o confrontou com as alegações das duas mulheres.

A repórter voltou a perguntar-lhe o mesmo que Anderson Cooper, sobre se algum dia Trump beijou ou apalpou mulheres da forma despreocupada e invasora como manifestado na gravação incriminatória que o "Washington Post" tornou pública. Trump voltou a insistir: "Eu não faço isso. Não faço isso. Aquilo era só conversa de balneário."

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Para as mulheres que partilharam as suas histórias com o jornal, a gravação é muito mais do que só uma conversa de homens — é um testamento do comportamento sexista de Trump e da forma como trata as mulheres. Quando a ouviram, ambas sentiram uma espécie de alívio ao saberem que não foram as únicas a sofrer abusos às mãos do empresário. Tal como Taggart, que diz que a forma como ele se gaba nesse vídeo de "beijar mulheres bonitas sem lhes pedir licença" é a descrição perfeita do que lhe aconteceu há alguns anos e que ela denunciou em maio passado.

Crooks e Leeds nunca denunciaram os seus casos às autoridades, mas ambas partilharam o sucedido com familiares e amigos. Leeds, à data com 38 anos, decidiu não apresentar sequer queixa à tripulação do voo: por pior que se sentisse, o que lhe aconteceu era comum para as mulheres, no mundo dos negócios e fora dele, nos anos 1970 e 1980, lembra. "Aceitámos isto durante anos", conta hoje com alguma tristeza. "Fomos ensinadas que, se isto acontece, a culpa é nossa." Dois anos depois de ter sido apalpada por Trump, voltou a cruzar-se com o magnata num evento de caridade em Nova Iorque, onde ele a reconheceu e a insultou.

Depois do segundo frente a frente entre Clinton e Trump, e depois de no ano passado ter ganhado coragem para partilhar o que viveu com o filho, um sobrinho e duas amigas, Leeds decidiu enviar um email ao "New York Times" a denunciar o incidente – que descreveria em mais detalhe numa série de entrevistas com a jornalista do diário nos dias seguintes. "O comportamento dele está enraizado na sua personalidade", escreveu na mensagem enviada. "Para aqueles que até votariam nele, peço-lhes que reflitam sobre isto."

Crooks, por sua vez, recorda o regresso a casa no dia em que foi beijada contra vontade por Trump, o esforço para partilhar com o namorado da altura o que tinha acontecido. "Eu perguntei-lhe 'Como foi o teu dia?'", recorda Clint Hackenburg. "Ela ficou calada uns segundos e depois começou a chorar desconsolada." Depois de Crooks lhe descrever o que tinha acontecido, debateram o que deviam fazer. "Penso que mais perturbador do que ele a beijar foi ela sentir que não podia fazer nada por causa da posição dele", conta o ex-namorado. "Ela tinha 22 anos. Era uma secretária. Este era o seu primeiro emprego desde que saíra da faculdade. Lembro-me de ela dizer: 'Não posso fazer nada contra este tipo, porque ele é o Donald Trump'."

Durante o resto do ano em que trabalhou na Bayrock, Crooks fugia sempre que avistava Trump na sua torre, tendo recusado participar na festa de natal da Organização Trump para evitar cruzar-se com ele. No ano seguinte mudou-se para o Ohio, onde agora trabalha numa universidade. Decidiu contar a sua história depois de ler um artigo do "New York Times" em maio sobre a forma como o candidato presidencial trata as mulheres, onde estão incluídas as denúncias de Taggart.

Crooks ficou chocada mas, ao mesmo tempo, sentiu um certo alívio. "Estava preocupada que aquilo tivesse acontecido a outras pessoas, mas também me deu algum conforto saber que não fui a única a quem ele fez aquilo", contou ao jornal depois de, também ela, enviar um email para a redação a fim de partilhar a sua história. Na entrevista, reforça a mesma ideia que Leeds: "As pessoas devem saber que este comportamento [de Trump] é real e está disseminado."