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Reino Unido “poderá ter de pagar muito dinheiro” para manter acesso ao mercado único

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Adam Berry / Getty Images

Questão da poupança nas contribuições a Bruxelas, que foi um dos sustentáculos da campanha a favor do Brexit, não deverá concretizar-se, diz ministro britânico sob anonimato à BBC

Há membros do Governo britânico que acreditam que o Reino Unido vai ter de pagar quase tanto como as contribuições anuais para o Orçamento da União Europeia que cumpria até agora agora enquanto Estado-membro do bloco para poder garantir o acesso ao mercado único europeu.

Ao programa Newsnight da BBC, um ministro do Executivo de Theresa May disse ontem, sob anonimato, que o país pode acabar a “pagar muito” desse dinheiro para assegurar bons termos num futuro acordo de acesso ao mercado comum (sublinhando que o Governo nunca irá comentar este ou outros termos das negociações de saída enquanto estas estiverem a desenrolar-se).

Durante a campanha para o referendo de 23 de junho, a Vote Leave alegou várias vezes que deixar a União Europeia iria corresponder a uma poupança de 350 milhões de libras por semana (cerca de 388 milhões de euros) em contribuições obrigatórias que deixariam de ter de ser pagas.

O valor foi calculado e avançado pela própria campanha Vote Leave, dirigida pelo atual ministro dos Negócios Estrangeiros, Boris Johnson, como estimativa das contribuições médias semanais do Reino Unido à UE. Dele faltam deduzir os subsídios pagos por Bruxelas ao Reino Unido e os rebates no Orçamento do Estado britânico.

A BBC refere que o ministro que agora desmente esta informação, “um dos líderes da campanha ao Brexit”, admite que o país pode acabar a pagar cerca de 5000 milhões de libras por ano (5540 milhões de euros) para financiar fundos da UE em troca de acesso ao mercado único. Esse valor equivale a cerca de metade do que o Reino Unido iria contribuir para a UE fazendo parte do bloco de acordo com dados do Gabinete para a Responsabilidade Orçamental, que apontam para 9600 milhões de libras (mais de 10.600 milhões de euros) de gastos anuais com a UE em 2015.

Reagindo às alegações, um outro alto cargo do Governo britânico descreveu a possibilidade de o país continuar a dar dinheiro a Bruxelas como “o cão que não ladrou”, em referência ao facto de a primeira-ministra, Theresa May, não ter sequer mencionado essa questão quando, na semana passada, delineou o seu plano de negociação do Brexit. Depois de vários meses de silêncio, May anunciou que vai ativar o artigo 50 do Tratado de Lisboa até ao final de março do próximo ano, o único mecanismo dos tratados-base da UE que prevê a saída de um Estado-membro e que impõe um prazo máximo de dois anos para que esteja concluída.

Também no Newsnight, Andrew Tyrie, deputado conservador e membro da comissão de Tesouro da Câmara dos Comuns, disse que é improvável que o Reino Unido continue a contribuir para o Orçamento comunitário assim que a saída do bloco for concluída, mas que, em vez disso, deverá ter de pagar para fundos especiais da UE — entre eles possivelmente um que potencie o desenvolvimento económico dos mais jovens Estados-membros da Europa de Leste e Central — como forma de assegurar termos preferenciais de acesso ao mercado comum.

“A meu ver queremos um alto nível de acesso ao mercado único e parar de jogar pelas regras da Organização Mundial do Comércio corresponderia a um risco de choque económico e certamente a uma desaceleração económica, dado o alto nível de integração comercial que temos atualmente entre a Grã-Bretanha e a UE”, defende o deputado, que integrou a campanha a favor da permanência do Reino Unido no bloco europeu.