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Espanha indignada com comentários contra criança doente com cancro

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Adrián Hinojosa tem oito anos e foi diagnosticado com Sarcoma de Ewing. Gostava de vir a ser toureiro e muitos dos que são ‘figura’ em Espanha juntaram-se num espetáculo solidário, a favor das crianças com cancro, como ele. Foi um festival bonito, mas que alguns antitaurinos comentaram da forma mais cruel nas redes sociais. A Justiça vai ter a última palavra

Poucos a conheceriam, mas Aizpea Etxezarraga é uma defensora dos animais. E levará tão a peito essa causa que não hesitou em recorrer ao Facebook para desejar a morte a uma criança de oito anos, doente com cancro, só por Adrián Hinojosa ser aficionado e ter expressado o desejo de vir a tornar-se matador de touros.

Esta foi a mensagem que publicou, na íntegra: “O que é que eu acho? Não vou ser politicamente correta. Que me importa. Que morra, que morra já. Um menino doente que quer curar-se para matar herbívoros inocentes e saudáveis que também querem viver. Por favor! Adrián, tu vais morrer”.

Para lá da revolta e da indignação gerada – houve outros comentários, mas este, em particular, motivou em Espanha uma onda de solidariedade para com o rapaz –, a crueldade desta mulher conseguiu o feito de unir sobre a mesma etiqueta #AdianTeVasaCurar defensores da ‘fiesta’ e antitaurinos.

Mas o caso ultrapassou a discussão pública e vai chegar à justiça. A Fundação do Touro de Lide de Madrid anunciou esta segunda-feira que vai mover um processo, não apenas a Aizpea (cujo perfil foi entretanto eliminado da rede social) mas “contra todas as pessoas que tenham atentado contra o direito à honra do pequeno Adrián”. E também o provedor de Justiça da Comunidade de Valência pediu que o Ministério Público se pronuncie quanto ao teor das mensagens partilhadas contra o menino, para avaliar se existe delito de incitação ao ódio e à violência.

Na origem desta polémica estão as fotos publicadas após a realização, no dia 8 de outubro, de um festival taurino solidário, em Valência, organizado em favor da Fundação Infantil de Onco. O espetáculo reuniu várias figuras de renome da tauromaquia espanhola – os que não puderam estar presentes enviaram objetos pessais para serem leiloados – e foi, para o miúdo, uma tarde em grande. Os matadores dedicaram-lhe cada uma das suas lides, a praça encheu-se com sete mil pessoas que o ovacionaram longamente, e no final teve a honra de dar a volta à arena com os seus ídolos, que o carregaram aos ombros, para sair pela porta grande – o símbolo máximo do triunfo nas corridas espanholas. A foto de Adrián com uma montera negra na cabeça (como os toureiros) e um sorriso rasgado comoveu muita gente, mas inspirou também crueldade.

Felizmente, o menino guardou apenas a parte boa da experiência. Como conta o “La Razon”, o pai fez questão de o manter afastado. “Foi um golpe duro, que nos afetou bastante. Parece-me inconcebível que alguém possa desejar a morte de alguém, ainda por cima de uma criança e de uma criança que está doente. Espero que estas pessoas nunca passem por aquilo que nós estamos a viver, ainda que estejamos na disposição de adotar as devidas medidas legais”, afirmou Eduardo Hinojosa, que fez questão de elogiar a disponibilidade dos toureiros: “O mundo do toureio, que tanto atacam, voltou a dar o exemplo e a mostrar que é melhor que aqueles que colocam os animais acima da vida das pessoas”.

Diagnosticado há cerca de um ano com Sarcoma de Ewing, um tipo raro de cancro que lhe afeta o sacro e o osso ilíaco, atualmente com ramificações que chegaram já aos pulmões, Adrián tem dificuldade em andar. O tumor atingiu o sistema nervoso e, mesmo que ainda consiga fazer uma vida relativamente normal, teve de deixar de treinar o toureio de salão, que o fazia sonhar com a carreira de matador.

Os touros são uma paixão, explica o pai, herdada do avô paterno desde que este o levou a ver uma novilhada, tinha Adrián apenas três anos. Foi no hospital, enquanto aguardava por mais uma sessão de quimioterapia, que o menino comentou com o pai que devia ser organizada uma corrida para ajudar as crianças que, como ele, precisam de tratamentos contra o cancro. O pai ouviu e resolveu levar a ideia muito a sério, procurando o apoio que viria a tornar possível o espetáculo de outubro.

Desde o início, a família fez questão de deixar claro que não queria nenhum do dinheiro angariado. A receita, até ao último cêntimo, deverá reverter para uma entidade que investigue o tratamento contra a doença. O que nunca ninguém esperou é que a alegria de Adrián pudesse ter inspirado sentimentos tão negativos.