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Clinton acredita que Qatar e Arábia Saudita estão a financiar o Daesh

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BRIAN SNYDER / REUTERS

Informação está contida num dos emails privados de John Podesta, diretor da campanha presidencial democrata, que foram divulgados pela WikiLeaks entre sexta-feira e ontem. Campanha democrata diz que materiais não são autênticos e que foram roubados pela Rússia

A campanha de Hillary Clinton está a tentar gerir os danos colaterais da fuga de informação que a WikiLeaks assinou na sexta-feira, dois dias antes do importante segundo debate entre a candidata e o seu rival republicano, quando divulgou mais de dois mil emails do atual diretor de campanha da democrata, John Podesta.

Num email datado de 17 de agosto de 2014, oito meses antes de a ex-secretária de Estado anunciar a sua candidatura à Casa Branca, Clinton apresenta a Podesta, então conselheiro da Casa Branca, uma estratégia detalhada para combater o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh), referindo-se ao grupo pelo acrónimo ISIL (Estado Islâmico do Iraque e do Levante). A par de propor uma campanha militar reforçada para obrigar o grupo radical a bater em retirada do Iraque, Clinton sugere que os EUA confrontem os seus dois maiores aliados no mundo árabe, a Arábia Saudita e o Qatar, pelo que classifica de apoio governamental ao Daesh.

“Precisamos de usar os nossos ativos diplomáticos e os ativos mais tradicionais dos serviços de informação para pressionar os governos do Qatar e da Arábia Saudita, que estão a garantir apoio financeiro e logístico clandestino ao ISIL e a outros grupos radicais sunitas na região”, refere a antiga senadora nessa mensagem a Podesta, sustentando a acusação em “fontes da região e em dados das secretas ocidentais e das secretas dos EUA”.

O email é um de entre mais de duas mil mensagens privadas da conta de Gmail de Podesta que a WikiLeaks revelou na semana passada, a par de uma nova leva de emails do democrata ontem publicada, em mais uma tentativa de embaraçar a campanha de Clinton a um mês das eleições presidenciais. A campanha democrata começou por ficar em silêncio face à divulgação, mas ontem declarou que os materiais publicados não são autênticos.

Podesta abandonou o cargo de assessoria na Casa Branca para dirigir a campanha presidencial de Hillary Clinton

Podesta abandonou o cargo de assessoria na Casa Branca para dirigir a campanha presidencial de Hillary Clinton

Drew Angerer / Getty Images

Em declarações aos jornalistas, o agora chefe da campanha de Clinton disse que os emails divulgados integram um conjunto maior de informações confidenciais e privadas que têm sido obtidas pela Rússia através de uma série de ciberataques — juntando-se assim à acusação formal feita na sexta-feira pela administração Obama a Moscovo pela alegada invasão dos sistemas informáticos de elementos do Partido Democrata para “influenciar o resultado das presidenciais” de 8 de novembro.

Na mesma conferência, Podesta disse ainda que o FBI já está a investigar o ataque e apontou o dedo a um assessor de Donald Trump, Roger Stone, que ele diz que tem estado em contacto com o fundador da WikiLeaks, Julian Assange. “Penso que é uma suposição razoável, ou pelo menos uma conclusão razoável, que o sr. Stone e a campanha de Trump receberam um aviso prévio do que Assange ia fazer.”

“Estes são documentos roubados pelo governo russo que foram instrumentalizados pela WikiLeaks para ajudar a eleger Donald Trump”, reforça Glen Caplin, porta-voz da campanha de Clinton, em entrevista à Yahoo News. “Não vamos confirmar a autenticidade de nenhuma alegada comunicação específica”, diz em resposta às alegações contidas no email que Clinton enviou a Podesta em agosto de 2014.

Segundo o mesmo portal de notícias, um outro membro da campanha democrata tentou deitar água na fervura, sublinhando que “não há nada de novo” nas acusações de Clinton às autoridades do Qatar e da Arábia Saudita. “Ela tem repetidamente denunciado os sauditas e os qataris pelo seu patrocínio do terrorismo”, diz a assessora sob anonimato. “E, de uma vez por todas, os sauditas, os qataris e outros precisam de impedir os seus cidadãos de financiarem diretamente organizações extremistas, bem como escolas e mesquitas em todo o mundo que já encaminharam muitos jovens rumo à radicalização.”

O reino saudita professa o wahhabismo, uma corrente radical sunita que se assemelha à interpretação que o Daesh faz dos textos sagrados islâmicos

O reino saudita professa o wahhabismo, uma corrente radical sunita que se assemelha à interpretação que o Daesh faz dos textos sagrados islâmicos

Jordan Pix / Getty Images

Como exemplo de que Clinton tem criticado abertamente o alegado financiamento do Daesh e outros grupos pelos dois aliados árabes dos Estados Unidos, a mesma fonte cita um discurso da democrata no Instituto Brookings em 2015 no qual sublinhou que “ninguém pode negar que muito do extremismo registado hoje no mundo é um resultado direto de políticas e financiamento executados pelo Governo saudita e por indivíduos do país. Seríamos tolos se não reconhecêssemos isso”.

Essa e outras declarações públicas recentes de Clinton não vão, contudo, tão longe quanto o alegado email que enviou a Podesta há dois anos a partir da sua conta privada. Se nesse discurso ao Brookings e noutras instâncias a candidata democrata acusou a Arábia Saudita de prestar “apoio geral” a mesquitas em várias partes do mundo que se sabe, de fontes seguras, que financiam o terrorismo global, na mensagem que enviou ao homem que agora dirige a sua campanha a antiga senadora acusa os próprios governos saudita e qatari de serem eles a financiar o Daesh — uma alegação muito mais séria e com potenciais implicações diplomáticas muito mais graves.

“Claramente, este email de Clinton mostra que o reino da Arábia Saudita continua a financiar e a prestar apoio logístico de forma encapotada a grupos terroristas que matam americanos”, diz Kristen Breitweiser, que lidera um grupo de cidadãos norte-americanos, familiares das vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001, que recentemente conseguiu ver aprovada uma lei para abrir processos judiciais contra as autoridades sauditas por financiarem a Al-Qaeda.

“Aparentemente, toda a gente em Washington sabe que os sauditas estão a fazer isto e, ainda assim, a Casa Branca e o Departamento de Estado recusam-se a responsabilizar [os sauditas]. Este é um claro exemplo da diferença entre a forma como as pessoas falam umas com as outras em privado e o que declaram publicamente”, acrescenta Breitweiser citando um outro email de Podesta com excertos de um discurso pago de Clinton, no qual a candidata defende que “para se conseguir fazer coisas” tem de se ter uma personalidade privada e outra pública.

Durante esta campanha para as presidenciais, Clinton assumiu uma postura contrária à da administração Obama, dizendo que, se fosse Presidente, teria aprovado a lei que permite que cidadãos dos EUA processem países patrocinadores de terrorismo. O Presidente de saída vetou essa proposta de lei, levando a que o Congresso revertesse pela primeira vez uma decisão presidencial desse calibre para aprovar a legislação no final de setembro.

Através da Qorvis Communications, uma das agências de relações públicas e lobbying contratadas para o representar no Ocidente, o governo da Arábia Saudita disse que não comenta “documentos vazados” mas sublinhou, ainda assim, que as alegações contidas no email enviado por Clinton a Podesta são “ridículas e desafiam a lógica”.

“A Arábia Saudita está na vanguarda do combate ao terrorismo na região e em todo o mundo”, diz o reino em comunicado. “O Daesh é um inimigo declarado da Arábia Saudita. Já pediu que o governo saudita seja deposto e tem no reino do Golfo um dos seus principais alvos porque foi onde o islão nasceu e é onde estão albergadas duas mesquitas sagradas.”

Continua, para já, por apurar se foi Clinton quem escreveu o email em questão ou se estava simplesmente a reenviar a Podesta um documento político redigido por um assessor ou por outra fonte. Na semana passada, especialistas de segurança nacional dos EUA avisaram que a Rússia poderia tentar “manipular” os materiais privados que roubou, mas até agora a campanha democrata ainda não apresentou provas que sustentem a sua versão de que os emails divulgados não são autênticos.