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O outro (e talvez pior) escândalo de Trump: ameaçar que manda prender a oposição se for eleito

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RICK WILKING/REUTERS

A ameaça, feita directamente a Hillary Clinton durante o último debate, é inconcebível numa democracia, como muitos comentadores notaram

Luís M. Faria

Jornalista

O escândalo sobre o vídeo em que Donald Trump se gaba de beijar mulheres e as agarrar nas partes genitais sem consentimento tem dominado a atenção popular. Mas ainda mais escandaloso, segundo muitos comentadores, é a ameaça que ele fez à sua rival Hillary Clinton no debate do passado domingo. Foi durante uma discussão sobre os emails e o servidor privado da antiga secretária de Estado. Trump prometeu que, se for eleito, nomeará um procurador especial para investigar o assunto. Quando Hillary respondeu que ainda bem que ele não está a frente do sistema judicial americano, Trump disse: “Porque você estaria na prisão”.

Custa dizer o que é mais errado nessas afirmações: se o facto de Trump se enganar quanto aos seus poderes – um procurador especial não pode ser nomeado pelo presidente; o sistema está construído de modo a tornar essas decisões independentes da política – se o facto de garantir que uma investigação levará necessariamente Hillary à cadeia. Como quem diz: nos já decidimos que ela será presa, é uma mera questão de formalidades. Como de outras vezes em que ele fez declarações perigosas, a sua campanha tentou desvalorizar, sugerindo que se tratava de uma piada. Mas é difícil acreditar nisso, dada a admiração professa de Trump por ditadores e lideres autoritários que fazem noutros países aquilo que ele agora prometeu fazer nos EUA.

Na Ucrânia, Viktor Yanukovich (antigo cliente de um assessor muito próximo de Trump) prendeu a sua rival e antiga primeira ministra iulia Timoshenko quando venceu as eleições. Acusada de negócios ruinosos para o país, ela passou três anos na cadeia, só sendo libertada após o movimento popular que depôs Yanukovich – a imagem de uma Timoshenko em cadeira de rodas a ir directamente da prisão para a praça Maidan, enfraquecida mas determinada, é uma das imagens marcantes da revolução. Na Malásia, o primeiro-ministro Mohatir Mohamad, que governou o país durante décadas, mandou prender o seu antigo braço direito quando ele se tornou um potencial sucessor. Aí a acusação foi de sodomia.

Em países africanos como o Uganda e o Zimbabué, também tem acontecido com frequência políticos da oposição irem parar à cadeia (ou pior), antes ou depois das eleições. E, claro, há os exemplos da Rússia e da Venezuela. Neste último país, o líder da oposição Leopoldo Lopez foi condenado a catorze anos por ter organizado manifestações contra o regime. Essas manifestações foram reprimidas violentamente, e agora o governo parece querer acusar Lopez por cada uma das mortes ocorridas. Quanto à Rússia, são demasiados os exemplos de opositores políticos que o regime prendeu, desde o bilionário Mikhail Khodorkhovsy até ao blogger Alexey Navalny. Um toque perverso habitual em Putin é acusar os opositores daquilo que eles próprios combatem: corrupção. Como quem diz, se somos todos iguais (algo em que uma boa parte dos russos acreditam) vocês não deviam ter querido armar em moralistas. Agora vão pagar por isso.

Em inúmeras ocasiões Trump tem expresso a sua admiração por Putin, descrevendo-o como um líder forte. Também reconheceu admirar os chineses pelo modo firme como derrotaram uma insurreição estudantil – i.e. o massacre de Tiananmen. A diferença é que os Estados Unidos, ao contrário desses países, são uma democracia desde a origem. Nada na lei, e em particular na Constituição, autoriza Trump a fazer o que ele se propõe. Em democracia a lei criminal não deve servir motivos políticos, e jamais num debate presidencial alguém ameaçou um opositor de o mandar prender se ele perdesse as eleições.

Mais uma vez, tratou-se de uma estreia que era melhor não ter acontecido. Alguém comentou que o mais triste de tudo foram os aplausos de parte da audiência quando Trump disse o que disse. Se ele levasse a sua avante, os Estados Unidos ficariam ao nível de uma república das bananas. E a ausência de condenação expressa por parte de muitos líderes do seu partido faz deles, como disse alguém, “republicanos das bananas”…