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Em busca 
da saída limpa que vai tardar

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O diretor do Expresso, Pedro Santos Guerreiro, 
com a embaixadora Kirsty Hayes e os gestores Pedro Oliveira (BP) e João Castello Branco (Semapa)

Luis Barra

A retirada do Reino Unido da UE não tem de ser uma tragédia, mas a incerteza continua a preocupar os agentes económicos

Já passaram 100 dias e “não houve nenhuma crise”. “Mas ainda não saímos.” O assunto é o ‘Brexit’ e quem assim fala é a embaixadora britânica em Portugal, Kirsty Hayes. Num Expresso do Meio-Dia dedicado ao impacto económico e financeiro da saída do Reino Unido da União Europeia, a diplomata frisou que o resultado do referendo de 23 de junho não significa que o seu país vá “voltar as costas à Europa”, embora deva construir “novas relações fora da União”.
Numa manhã em que o que mais se ouviu na residência oficial da embaixadora foram apelos ao “bom senso”, representantes da indústria e da banca juntaram-se a peritos para discutir os riscos e as oportunidades que o ‘Brexit’ acarreta. Se todos assumem que a saída não volta atrás, nenhum sabe prever o seu formato.

“Pode ser um não-acontecimento ou uma catástrofe. Visto de Londres, de momento, parece a primeira hipótese. Mas não está excluído que possa vir a ser uma catástrofe”, alertou Christopher Bellamy. O advogado, chairman da Linklaters Global Competition Practice, chamou a atenção para o longo caminho ainda por percorrer. “Muita legislação europeia vai ficar em vigor até se concluir a árdua tarefa de analisar tudo para ver o que queremos manter. Só no sector energético há 524 regulamentações ou diretrizes europeias vigentes!”

Bellamy considera que seria um erro a União Europeia assumir uma postura punitiva nas negociações, que deverão começar em março próximo (ver caixa). “Certas capitais que olham mais para dentro podem pensar que o Reino Unido vai pedir algo e que podem cobrar-lhe um preço, para deixar aviso a potenciais ‘desertores’, como disse Juncker”, explicou o jurista, que entre 1992 e 1999 foi juiz do Tribunal de Primeira Instância da UE. “Mas nem o Governo nem o povo veem as coisas assim.” Se não houver consenso e o ‘Brexit’ tiver de ser “duro”, afirma, os britânicos apoiarão a primeira-ministra Theresa May.

O pior é a incerteza

O prazo de dois anos, previsto no Tratado de Lisboa, é “curto” para a complexidade das negociações, mas longo para mercados que odeiam incerteza. “A instabilidade política afeta sempre a economia”, afirmou o CEO da BP Portugal, Pedro Oliveira. “E os bens energéticos são dos primeiros a ressentir-se.” Contra o que é habitual, a empresa assumiu uma posição contra o ‘Brexit’. “Acostumada a lidar com risco geopolítico, dada a sua natureza”, a BP “tem um ADN europeu” e, com o preço do crude em baixa, fez uma aposta forte em operações downstream na Europa, como refinaria e processamento, explicou. Não houve, porém, alterações à gestão de risco. “Somos espectadores atentos”, disse o gestor.

O CEO da Semapa, João Castello Branco, é mais cético. Fala de “risco muito grande, económico e político”, e assume que o mercado britânico está “menos atrativo”, pelo que a empresa desistiu de investimentos e olha para outras latitudes. Tendo Bellamy admitido a reposição de vistos e tarifas comerciais, Castello Branco reagiu: “Nem me ocorreu! Se a discussão azedar a esse ponto, prevejo uma desgraça.” Bellamy crê que as tarifas são evitáveis, com um acordo que contemple os serviços financeiros.

A embaixadora Hayes reconhece que “a questão das tarifas e barreiras é crucial” e insiste: “Londres quer acesso ao mercado, mas isso é bom para todos.” Defende um “acordo de comércio livre” e considera politicamente difícil que o Executivo de May ceda na questão da imigração. “O Reino Unido continua a precisar de pessoas da UE e de outros lados. A questão está na capacidade nacional para decidir quem deve estar ou não”, diz a embaixadora, para quem os benefícios que o país tem tido com a imigração são grandes, mas não isentos de problemas sociais.

A força da City

Pedro Siza Vieira, da Linklaters, lembrou que “não há nenhum modelo” que se possa adotar tal e qual. Bellamy vê virtualidades num acordo como o que a UE tem com o Canadá, por não incluir a livre circulação de pessoas. Por enquanto, reina a dúvida. “Há empresas em pausa”, admite a diplomata, mas este verão a japonesa Softbank comprou a britânica Arm Holdings, fabricante de chips para smartphones, por 24 mil milhões de libras (27 mil milhões de euros). Bellamy vê nos próximos anos “uma ocasião para repensar o Estado e o seu papel e modernizar o país, para o manter dinâmico, criativo e com uma orientação global”.

As ralações dos empresários passam pela City de Londres. “É um ecossistema central, com reguladores fortes e um sistema jurídico e judicial fiável”, defendeu Siza Vieira, que atribui tais méritos à história, à desregulação dos anos 80 e ao facto de haver muitas regras comuns com as europeias, para as quais os britânicos deram grande contributo. “A City como plataforma beneficia toda a Europa”, conclui.

Daí que seja preciso “cuidado”, reage Rogério Alexandre, responsável pela operação portuguesa do Barclays. Realça a importância do passporting (a possibilidade de as empresas licenciadas num país do Espaço Económico Europeu poderem ter atividade em todo esse espaço). “Se não se mantiver, terá de haver outro regime. O que não pode haver é um gap”, alerta. Citando o presidente da bolsa de Londres, Xavier Rolet, Bellamy afirma: “Atacar o passporting é prejudicar os interesses dos clientes.” Além de que os serviços que saírem de Londres não irão forçosamente para Frankfurt, Paris ou Milão, mas para Singapura ou Nova Iorque, diz.

Pedro Siza Vieira (Linklaters) interveio num painel com João Moreira Rato (Universidade Nova de Lisboa) e Rogério Alexandre (Barclays)

Pedro Siza Vieira (Linklaters) interveio num painel com João Moreira Rato (Universidade Nova de Lisboa) e Rogério Alexandre (Barclays)

Luis Barra

João Moreira Rato, da Universidade Nova, pensa que se parte da infraestrutura londrina — nomeadamente o clearing, isto é, volumosas e abundantes operações de intermediação — migrasse para outros países europeus, “os custos das operações financeiras poderia subir”, até porque há perdas de escala e nenhuma praça financeira tem a dimensão da capital britânica.

Moreira Rato avisa que “ninguém sai a ganhar de um confronto”. Siza Vieira admite que ele possa surgir, “se as posições se enquistarem”, e pensa que, em todo o caso, a “Europa vai perder muito com o ‘Brexit’, pois o Reino Unido tem sido uma voz pelo mercado livre, pelo comércio, pela iniciativa, por uma regulação inteligente, além de contraponto a outras potências”. Hayes prevê que, apesar da “decisão histórica” tomada nas urnas, “muita coisa vai ficar na mesma”.

Durante o debate, o presidente da Câmara de Comércio Portuguesa no Reino Unido alertou que, segundo um estudo recente da Global Consulting, Portugal seria o quarto mais afetado pelo ‘Brexit’ entre os 27 países da nova UE. Moreira Rato vê atrativos no país, como o clima, a mão de obra especializada e barata. Rogério Alexandre fala da “capacidade de formação” e de um país “atlântico e cosmopolita”, mas ambos lastimam a lentidão da justiça, alguma imprevisibilidade fiscal e excesso de burocracia.

A embaixadora destaca o turismo (2,2 milhões de britânicos visitaram Portugal em 2015) e as exportações lusas, superiores às que vêm do Reino Unido. Confia que os laços históricos com Portugal façam do país uma voz construtiva nas negociações. Siza Vieira concorda (e todos são por uma solução racional) mas, remata: “Se tudo fosse racional, talvez nem tivesse havido referendo, e as coisas não estariam como estão.”

Artigo originalmente publicado no Expresso de 8 de outubro de 2016