Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“A campanha de Clinton é como o FC Porto a jogar contra a equipa de Trump da terceira divisão”

  • 333

getty

A maioria dos analistas previa algumas explosões de bombas mediáticas na sexta-feira, a dois dias do segundo debate entre Hillary Clinton e Donald Trump. Mas ninguém antecipava que, de uma assentada, três revelações distintas viessem definir tão profundamente as 48 horas mais marcantes da corrida deste ano à Casa Branca — e o consequente frente a frente que os candidatos presidenciais tiveram esta madrugada. A um mês da ida às urnas, há quem antecipe que a gravação de 2005 onde Trump se gaba de abusar sexualmente de mulheres porque é uma “estrela” vai cair no esquecimento até lá, como todas as outras acusações que já surgiram contra o candidato republicano. Apesar disso, há unanimidade entre os especialistas consultados pelo Expresso sobre a democrata ter a eleição quase garantida

Todos os artigos que o “Huffington Post” tem publicado sobre o candidato republicano à Casa Branca desde o início da corrida eleitoral terminam sempre com a mesma nota dos editores: “Donald Trump incita regularmente à violência política e é um mentiroso em série e um xenófobo feroz que repetidamente tem prometido proibir todos os muçulmanos — 1,6 mil milhões de membros de uma religião inteira — de entrarem nos Estados Unidos”. A nota de rodapé é um sinal claro dos tempos. E depois do debate desta madrugada (ainda noite de domingo nos EUA) podia passar a incluir novas acusações marcantes ao candidato mais invulgar — e mais perigoso — que algum dia disputou a presidência dos EUA.

Pela primeira vez na história eleitoral do país, um candidato usou um frente a frente televisivo com a rival para prometer que, se for eleito, vai mandar um “procurador especial” investigá-la e prendê-la por ter apagado milhares de emails privados após ter sido judicialmente intimada a entregá-los ao Departamento de Estado, após denúncias de ter usado um servidor privado enquanto chefe da diplomacia no primeiro mandato de Barack Obama (isso está a valer-lhe comparações a ditadores e autocratas que, noutras partes do mundo, mandam prender os seus opositores assim que chegam ao poder).

getty

Pela primeira vez na história eleitoral do país, o mesmo candidato trouxe consigo para o debate ao vivo três mulheres que acusam Bill Clinton de violação e abuso sexual e uma que acusa a mulher do antigo Presidente e atual candidata ao cargo de ter defendido em tribunal o homem que a violou e de se ter rido na cara dela (uma das primeiras, Paula Jones, é a mesma mulher que o próprio Trump classificou em 1998 como uma “falhada” que “se calhar até é responsável pelo que lhe aconteceu”).

Pela primeira vez na história eleitoral do país, esse mesmo candidato, repetidamente acusado de mentiras, racismo, sexismo e xenofobia, tornou-se o primeiro a perder uma grossa faixa de apoios do partido pelo qual se candidata por causa da gravação de 2005 que o “Washington Post” revelou na sexta-feira em que Trump comenta com um apresentador de televisão (primo direito de George W. e Jeb Bush) como beija e apalpa os genitais de mulheres sem o consentimento delas - porque é uma “estrela” e por isso pode fazê-lo.

Em reação ao escândalo, que potenciou o mais feroz movimento antiTrump dentro do Partido Republicano, a revista “Slate” escreveu que tudo não passa de uma jogada calculada dos republicanos. “O partido apoiou a sua visão de uma América só de brancos até ele representar uma ameaça para os eleitores de que o partido mais precisa.”

Esses eleitores são, na verdade, eleitoras: mulheres de classe média e média-alta, com graus académicos, muitas republicanas desde sempre, outras tantas indecisas, muitas agora suficientemente enojadas com a postura de superioridade que o candidato assume em relação às mulheres e pelas expressões “vulgares” ouvidas nessa gravação.

getty

Uma das grandes incógnitas daqui até à noite eleitoral é quantas dessas mulheres vão, ainda assim, votar nele. Se todas se unissem nas urnas, apontava este fim de semana o site de sondagens e análise da corrida eleitoral “FiveThirtyEight”, Trump perderia nos 50 estados norte-americanos e no distrito de Columbia.

“Sempre julgámos que Clinton ia ganhar estas eleições. Mas a campanha de Trump tem sido surpreendentemente resiliente, dada a quantidade de declarações ofensivas e mostra de falta de interesse dele em expandir a sua base de eleitores”, explica ao Expresso Mike Jakeman, analista da Intelligence Unit da revista “Economist”. “Vimo-lo a cair nas sondagens antes, em particular quando atacou a família do soldado Khan após a convenção democrata, mas ele tem sido sempre rápido a recuperar. A gravação de 2005 está a ser diferente porque forçou muitos legisladores republicanos a abandoná-lo. Mas isto acontece em parte porque muitos deles estão também em campanha eleitoral - se este escândalo tivesse rebentado mais cedo, provavelmente não desertavam. Aqui [na unidade de análise política da “Economist”] achamos que, como resultado disto, o seu rating vai cair, mas vai provavelmente voltar a subir antes da eleição. Posto isto, continuamos confiantes de que Hillary Clinton vai ganhar e que os democratas vão reaver o controlo do Senado em novembro.”

getty

A previsibilidade do imprevisível

Jakeman e outros especialistas consultados pelo Expresso antes e depois do debate estão alinhados sobre a natureza do duelo desta noite. Voltou a ter momentos inéditos, como aliás toda a campanha, e voltou a resultar na vitória declarada de Hillary, como no rescaldo do primeiro frente a frente, embora com uma margem inferior a separá-la de Trump. “O tom do debate”, defende o analista da “Economist”, foi “agressivo, hostil e pessoal” e “a falta de conhecimentos e interesse em política da parte de Trump já significava que o debate ia inevitavelmente ser pessoal, mas a ferocidade com que se atacaram mutuamente não deixa de ser inédita na história dos debates presidenciais dos EUA. Trump foi certamente mais eficaz que no primeiro debate, mas é difícil imaginar que a sua performance possa ter atraído novos eleitores”, defende o analista.

“Acho que Trump pode ter conseguido travar [o impacto da] desaprovação da sua candidatura por republicanos proeminentes, mas fez pouco para aumentar a sua base eleitoral”, concorda Marty Linsky, professor de ciência política em Harvard durante 25 anos e cofundador da empresa de liderança Cambridge Leadership Associates. Isto porque, continua Jakeman, “ele não tem qualquer interesse em atrair eleitores swing”. “Em vez disso, quer cimentar o apoio daqueles que estão firmemente sentados à direita do espectro político.”

getty

Na sexta-feira, antes de rebentar a bomba de 2005 e de Trump vir garantir que se tratou apenas de “conversa de balneário” (vários atletas estão a usar as redes sociais para garantir que não falam em violar mulheres quando estão no balneário) — tentando virar o jogo contra Hillary porque ele “só proferiu palavras” mas o marido dela “agiu” e abusou de mulheres —, Robert Hayashi, da Universidade Amherst, já tinha transmitido a mesma ideia ao Expresso.

“As mais importantes tendências e sondagens a seguir são ao nível estatal nos estados swing e as campanhas, sobretudo a de Clinton, têm métodos de análise das intenções de voto muito mais sofisticados que produzem retratos instantâneos mais precisos e granulares da corrida presidencial”, defende o professor de história da política americana. Tal traduz-se num cenário “não muito bom para Trump à medida que perde apoios em estados importantes, como no meu estado-natal da Pensilvânia”, acrescenta Hayashi. “E sim, Trump pode ganhar em muitos desses estados swing e ainda assim perder as eleições por causa do sistema de colégio eleitoral que temos nos EUA.”

Na entrevista ao Expresso há três dias, as previsões do especialista de Amherst não estiveram longe do que acabou por ser o debate desta madrugada. Hayashi antevia que o empresário ia “continuar ao ataque” mas que Clinton é “demasiado experiente, equilibrada, inteligente e disciplinada para cair em qualquer armadilha de Trump”, aparte o facto de “já não haver surpresas que possam desafiar o apoio à democrata, porque os americanos já ouviram falar de Bengazi e do servidor privado de email e das indiscrições do seu marido”. Pelo contrário, previu corretamente Hayashi, Trump foi forçado a assumir que fugiu aos impostos entre 1992 e 2010, depois de ter declarado um prejuízo de quase mil milhões de dólares em 1995 para se aproveitar de lacunas na lei tributária — o que “muitos americanos veem como mais um exemplo do que os enfurece e os tem deixado tão descontentes nestas eleições”.

Na conversa, o especialista referiu que daqui e até dia 8 de novembro, será muito difícil Clinton perder os apoios redobrados que já angaria, suficientes para lhe garantirem a eleição. A mesma ideia que Linsky defende. “Ela é uma candidata cheia de falhas, que angaria profunda antipatia, mas a menos que cometa algum erro horrível ou que se dê uma crise internacional sem precedentes, não existe hipótese de Trump recuperar e ultrapassá-la”, refere o professor de Harvard.

getty

Só Clinton a lutar por votos

Questionados sobre se a eventual crise com potencial para alterar o resultado eleitoral já aconteceu — depois de, também na sexta, a admistração Obama ter acusado formalmente a Rússia de ingerência nas eleições americanas através de ciberataques aos sistemas informáticos do Partido Democrata —, os dois analistas deram respostas semelhantes, traduzidas num redundante “não”, pelo menos ao nível do possível impacto nas intenções de voto.

“Existe pouco mais que a administração Obama possa fazer [em relação a isso], mas existe, pelo contrário, o contínuo risco de deslegitimação destas eleições, o que irá alimentar a ira daqueles que apoiam o derrotado, presumivelmente os apoiantes de Trump”, explica Linsky, defendendo que a ira já gerada pelos comentários do republicano sobre as mulheres há 11 anos basta para, até ver, roubar totalmente a atenção desta acusação inédita ao Governo Putin e também dos emails do diretor de campanha de Clinton que a WikiLeaks divulgou na sexta-feira e que incluem excertos de discursos da candidata pagos por multinacionais e grandes bancos que contrariam diretamente as suas promessas de campanha.

getty

Neste momento, e apesar de Trump se ter saído melhor do que era antecipado considerando a fraca prestação no anterior debate, os dirigentes do Partido Republicano continuam a analisar as escassas hipóteses de forçarem o próprio candidato a afastar-se das eleições e deixar que o seu vice, Mike Pence, assuma o leme. Mas as hipóteses de tal acontecer, aponta Linsky, são “próximas do zero, a menos que ele decida desistir”.

“Vejo muito poucas hipóteses de ele ser substituído por Pence”, concorda Jakeman. “Trump não tem nada a ganhar em afastar-se agora e, como não sente qualquer lealdade ao Partido Republicano, não vai ser demovido pelas opiniões de altos cargos do partido”, entre eles o senador John McCain, rival de Obama nas eleições de 2008, e John Kasich, que disputou as primárias deste ano com o magnata de imobiliário. “Ele veio endereçar um descontentamento muito profundo e difundido, em particular entre os trabalhadores brancos de classe média, mas tem falhado em alargar a sua base de apoiantes por causa do seu discurso abertamente racista e sexista, da sua conduta e da cada vez mais óbvia falta de compreensão sobre os assuntos mais urgentes que a nação enfrenta”, refere Hayashi.

Para o especialista da universidade liberal de Massachussetts, a isto acresce o facto de os democratas estarem a anos-luz de distância dos republicanos no que toca a mobilizar indecisos e independentes no terreno. “O Partido Democrata desenvolveu estratégias de campanha extraordinariamente eficazes com recurso a análise de dados sofisticada e a esforços para chegar aos eleitores que podem alargar a vantagem de Clinton”, explicava há alguns dias. “A campanha de Clinton é como o FC Porto a jogar contra a equipa de Trump da terceira divisão. Ela está rodeada de profissionais de campanha experientes que fazem um uso sofisticado da tecnologia e que se apoiam no aparato de mobilização do Partido Democrata, ao passo que Trump é aconselhado, sim, por políticos profissionais mas também por membros da sua família sem qualquer experiência em gerir campanhas eleitorais. Além disso, ele confia frequentemente nos seus próprios instintos, o que já se provou desastroso.”

getty

Clinton e Trump voltam a encontrar-se para o terceiro e último debate desta corrida presidencial na noite de 19 de outubro, quando vão faltar duas semanas para a ida às urnas. Até lá, será difícil que Trump consiga destronar a liderança da rival mas não é demais lembrar que, como em tudo o resto, também aqui estamos a navegar território inédito e desconhecido. Ainda assim, aponta Hayashi, existe uma vulnerabilidade na teoria de Allan Lichtman, o homem que, em 30 anos, acertou sempre nos vencedores das presidenciais e que diz que Trump vai vencer. “Esta não é uma eleição presidencial vulgar em larga medida porque Trump é um candidato tão atípico: um a quem falta o apoio do aparato do partido e que foge das estratégias tradicionais de campanha.” E poderá ser isso, mais do que qualquer insulto ou controvérsia, a ditar a sua derrota.

  • Quem ganhou o segundo debate presidencial? “Não interessa, perdemos todos”

    Analistas apontam que variações do valor da moeda mexicana e das acções no mercado asiático indicam que Donald Trump acabou de conseguir prolongar um pouco as suas escassas hipóteses de bater Hillary Clinton nas eleições gerais dentro de um mês. Debate “sórdido” desta madrugada confirma o início de um novo momento da campanha: a partir de agora vale mesmo tudo até ao dia 8 de novembro

  • O saldo do debate: Trump sobreviveu

    Quando muita gente esperava que o debate desta madrugada assinalasse o fim do candidato republicano, Donald Trump confundiu as expectativas e, numa performance tipicamente agressiva contra a sua rival Hillary Clinton, terá dado novo alento aos seus apoiantes

  • CNN dá vitória a Clinton no segundo debate

    57% do total de eleitores inquiridos pelo canal americano dão a vitória à ex-secretária de Estado contra 34% que apontam o candidato republicano como vencedor. Outros inquéritos de opinião falam num empate virtual, todos registando uma ligeira margem da democrata sobre Trump

  • “Tudo isto é muito mau, mas ainda ficará pior”

    Existirão mais revelações sobre os avanços e eventuais crimes sexuais de Donald Trump. Peritos ouvidos pelo Expresso garantem que nunca viram nada assim e que o candidato à presidência dos EUA tem os dias contados. A fuga de apoiantes já começou