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“Tudo isto é muito mau, mas ainda ficará pior”

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Saul Loeb-Pool

Existirão mais revelações sobre os avanços e eventuais crimes sexuais de Donald Trump. Peritos ouvidos pelo Expresso garantem que nunca viram nada assim e que o candidato à presidência dos EUA tem os dias contados. A fuga de apoiantes já começou

Soube-se nas últimas 72 horas que Donald Trump não se consegue conter quando vê mulheres bonitas, casadas ou não, e que desata a beijá-las e a “agarrá-las pelos genitais”. Ontem de manhã, Ben Carson, conselheiro do candidato republicano à Casa Branca e seu antigo rival nas primárias do Partido, alertou que “há mais bombas a caminho”.

Reconhecendo que a campanha de Trump vive momentos difíceis — 16 senadores e governadores conservadores retiraram o apoio ao magnata e o Comité Nacional Republicano reuniu-se para reavaliar a corrida presidencial —, Carson afirmou à Fox News que novos escândalos “surgirão a conta-gotas”.

Bill Pruit, produtor das duas primeiras temporadas do reality show “The Apprentice”, protagonizado por Donald Trump, assegurou no Twitter que, no que respeita a gravações, “existem muito piores”, dando a certeza de que “isto é só o início”.

No debate televisivo de ontem à noite (madrugada desta segunda em Lisboa) entre os candidatos à presidência dos Estados Unidos, Trump defendeu-se, explicando que “tudo não tinha passado de uma conversa de balneário”. “Sim, estou envergonhado, mas prometo que vou acabar com o Estado Islâmico”, declarou, relacionando dois assuntos distintos.

Hillary, a rival democrata, lamentou que Donald tenha provado, mais uma vez, que “não está preparado para ser presidente”. A conversa arrastou-se. Até que o multimilionário nova-iorquino virou a discussão para os emails que a antiga secretária de Estado apagou da sua caixa de correio eletrónico, já depois de ter sido convocada a prestar declarações no Congresso americano sobre o teor dessas mesmas mensagens — um interrogatório que durou 11 horas.

Após a troca de palavras, o candidato republicano prometeu que “ela será alvo de uma investigação levada a cabo por um procurador especial” e “irá parar à prisão”.

Abuso de poder e assalto sexual

De volta aos avanços sexuais de Donald Trump que continuam a marcar a agenda política americana. Em entrevista ao Expresso, Kathleen Hall Jamieson, ex-diretora de comunicações do Congresso americano e atual professora da Universidade da Pensilvânia, onde dirige o Centro Annenberg, explica o impacto das revelações na corrida à Casa Branca.

“Novas provas podem mudar mentalidades. Quando Trump se defendeu, ele disse que as palavras proferidas não reflctem o que ele é hoje. O problema é que as declarações sobre os genitais a Billy Bush (apresentador do programa 'Access Hollywood' e primo de George W. Bush) e a Howard Stern (polémico locutor de rádio) não são meras palavras, descrevem ações. Ele fez o que disse. E fez várias vezes. Coisas como entrar no vestiário das concorrentes de Miss Universo, por exemplo, ou concordar com Stern que a filha Ivanka é um 'pedaço' de mulher."

Jamieson recorda que, segundo vários membros do Partido Republicano, “estamos a falar de crime de assédio e, discutivelmente, de abuso de poder e abuso sexual. Para muitas pessoas ele é um predador sexual. Se as provas se amontoarem, mudará a perspetiva sobre o candidato. Uma nova perspetiva sobre o candidato pode mudar comportamentos e atitudes dos eleitores”.

Mulheres, republicanas e pró-Hillary

A professora universitária aponta para o impacto das palavras de Trump num eleitorado fundamental nestas eleições, o das mulheres brancas, detentoras de graus académicos e que vivem nos subúrbios endinheirados das grandes cidades.

“Estamos a falar de um setor na maioria republicano e bastante conservador, que vota sempre no candidato da direita por ele defender os valores tradicionais. Ora, essas eleitoras detestam gente vulgar e mal-educada e é por isso que as sondagens indicam que elas estão a transferir o seu apoio para Hillary Clinton.”

O professor da Universidade de Syracuse Robert Thompson, director do Bleier Center for Television and Popular Culture, concorda com Jamieson e assegura que nunca viu nada assim na história política do país. “Nem o que se passou nas primárias de 1992 é parecido, quando Bill Clinton foi acusado de ter um caso extraconjugal com Gennifer Flowers. Ocorreu muito antes das eleições e a verdade é que, quando chegou a campanha propriamente dita para as presidenciais, o rival de então, George H. W. Bush, recusou-se a falar do assunto. O problema é que este escândalo sobre os comportamentos sexuais de Trump rebenta um mês antes das eleições. Duvido que ele tenha tempo para recuperar.”

Com milhões de americanos a votarem neste preciso momento, aproveitando a janela do sufrágio antecipado, ambos especialistas indicam que mais novidades nesta matéria podem ser fatais.

“Se tivermos novas provas de comportamentos daquele género, tal como Ben Carson deu a entender, não tenho dúvidas de que tudo isto é muito mau, mas ainda ficará pior”, conclui Jamieson.

Note-se que, no decurso do debate de ontem à noite, Trump confirmou, também, que não pagou qualquer imposto federal sobre rendimentos entre 1992 e 2010, depois de ter declarado um prejuízo de quase mil milhões de dólares em 1995. “Claro que sim, tal como os doadores da campanha dela”, retorquiu.

Este assunto ainda hoje revolta diversos pequenos empresários americanos que alegam calotes de milhões de dólares por parte do magnata. Mais de uma dezena deles contou a sua história ao Expresso, na edição do passado sábado.

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