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Quem ganhou o segundo debate presidencial? “Não interessa, perdemos todos”

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JIM LO SCALZO / EPA

Analistas apontam que variações do valor da moeda mexicana e das acções no mercado asiático indicam que Donald Trump acabou de conseguir prolongar um pouco as suas escassas hipóteses de bater Hillary Clinton nas eleições gerais dentro de um mês. Debate “sórdido” desta madrugada confirma o início de um novo momento da campanha: a partir de agora vale mesmo tudo até ao dia 8 de novembro

As 48 horas que precederam o debate deste domingo à noite (madrugada de segunda em Lisboa) em St. Louis, no Missouri, foram extraordinárias em eventos. Depois de o "Washington Post" divulgar, na sexta-feira ao final do dia, uma gravação de 2005 em que Donald Trump comenta, com o apresentador de televisão Billy Bush, que por ser uma "estrela" pode fazer o que quiser às mulheres, "não esperar" e "beijá-las logo" e agarrá-las pelos genitais", muitos antecipavam que o candidato republicano (cada vez mais sozinho dentro do partido) ia ser facilmente destronado por Hillary Clinton no frente a frente, o segundo de três até à ida às urnas.

Mas não foi isso que aconteceu. Num debate classificado pela CNN e outros media como "sórdido", os dois candidatos estiveram, à vez, ora no topo ora em baixo, mas a democrata não conseguiu angariar nem um terço dos aplausos e risos que o seu rival entre os eleitores indecisos que assistiam ao braço de ferro ao vivo, o primeiro em formato 'town hall', durante o qual ambos responderam pela primeira vez a perguntas propostas e votadas por eleitores comuns, colocadas pelos seus autores.

Trump pareceu dar a nota para o debate ainda antes de ele ter início, ao convocar para os minutos anteriores uma conferência de imprensa com quatro mulheres alegadamente vítimas de abuso sexual pelo marido da candidata democrata, que depois se sentaram na primeira fila da assistência e a quem Trump fez referência já durante o debate, para distrair as atenções sobre as acusações de incitamento a abuso sexual e violação contido na gravação de 2005 desenterrada pelo "Washington Post".

A primeira pergunta veio de uma professora, que lançou o isco a Trump perguntando aos dois candidatos se sentem que são bons exemplos e modelos para a juventude. Anderson Cooper, um dos dois moderadores, não deixou escapar a deixa e pressionou o republicano sobre o conteúdo dessa "conversa de balneário" (palavras de Trump e dos seus apoiantes, como o ex-porta-estandarte do Brexit Nigel Farage).

"O que diz naquela gravação traduz-se em abuso sexual, compreende isso?", questionou o apresentador da CNN. Trump respondeu que quem não compreendeu nada foi ele (para não acusar o resto dos americanos, incluindo os republicanos que o têm abandonado) e com a maior rapidez saltou de assunto para sublinhar que o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) é um problema "a sério" e que enquanto Presidente ele irá "tratar dele". O conteúdo da gravação – a primeira de vários registos embaraçosos e potencialmente explosivos que, apontam até conselheiros de Trump, vão continuar a ser divulgados daqui até à eleição – nunca mais voltaria ao debate, um que, contra todas as expectativas, não marcou mais uma vitória esmagadora de Clinton.

Aponta a "Fortune" que, a julgar pelas variações registadas nos mercados mexicano e asiático, Trump esteve longe de ser completamente derrotado pela rival como aconteceu há duas semanas, quando se encontraram para o primeiro frente a frente. "O valor do peso mexicano subiu para o seu nível mais alto em mais de um mês e um punhado de comentadores de mercado dizem que [essa moeda] se tornou no melhor indicador sobre se os investidores acham que Trump pode ser Presidente", escreveu a revista no final da hora e meia de debate sem pausas. E se assim é, acrescenta-se no mesmo artigo, "os ganhos no peso indicam que os investidores pensam que as hipóteses de Trump [vencer] depois do debate de domingo à noite acabaram de se prolongar." O mesmo é lido por analistas no facto de as ações em bolsa asiática terem subido também logo a seguir ao frente a frente.

"Foi-nos prometida uma guerra nuclear"

Na sua análise do encontro entre os aspirantes à presidência, a BBC refere que, depois de "nos ter sido prometida uma guerra nuclear por causa de alegações de má conduta sexual [por Trump], não demorou muito até a coisa explodir. Mas ao contrário de uma guerra nuclear real, com mútua destruição garantida, os participantes ficaram de pé e tiveram de aguentar o debate durante mais de uma hora". O resultado? Uma "trapalhada confusa" para o canal britânico, "uma paródia à democracia americana", cortesia de Trump, para o "Quartz", que refere que "não interessa quem ganhou o debate porque todos perdemos". "Esse facto foi deixado claro durante uma hora e meia em horário nobre na televisão e ninguém – nem os moderadores do debate nem a sua opositora, Hillary Clinton – conseguiu travá-lo", é apontado no site.

Assim foi para gáudio daqueles que continuam a apoiar Trump e que estão habituados ao seu estilo agressivo e imune aos factos, até agora exclusivo dos seus eventos de campanha em estádios e centros de conferências. A lista dos que o apoiam foi emagrecendo nas últimas 50 horas, depois de divulgada a gravação em que se gaba das abordagens sexuais a mulheres sem o seu consentimento. Apesar de o anterior rival das primárias republicanas John Kasich e do antigo candidato presidencial do partido John McCain terem retirado o seu apoio formal a Trump, a lista de grandes figuras partidárias que continuam ao seu lado é forte: nem Paul Ryan, líder da maioria republicana na Câmara dos Representantes, nem Reince Priebus, diretor da Comissão Nacional Republicana, nem Ted Cruz nem uma série de outros políticos o abandonaram, embora tenham condenado a uma só voz o que ele disse há onze anos.

Mike Pence, o seu parceiro na corrida presidencial, e Melania Trump, a sua mulher, também disseram não "apoiar" as declarações "impróprias" do aspirante à Casa Branca, mas sublinharam que isto aconteceu há onze anos e que ele já pediu desculpa pelo que disse, pedindo à América que o perdoe.

Na sua defesa ao caso, durante as 48 horas mais intesas desta corrida eleitoral antes do debate da noite passada, Trump defendeu-se dizendo que "Hillary não se qualifica para ser Presidente" porque o seu marido é um "violador", apontando o dedo a Bill Clinton e dizendo que ele, Trump, só tem "conversas de balneário" mas que o antigo Presidente dos EUA "abusou mesmo" de mulheres. Poucos podiam antecipar que faria aquilo que prometeu antes do primeiro debate mas que não chegou a fazer (sentar uma ex-amante de Bill Clinton na assistência), trazendo em vez dela quatro alegadas vítimas do antigo líder e dando-lhes meia hora de tempo de antena em frente às câmaras antes de subir ao palco com a rival.

Já durante o frente a frente, Trump jogou baixo e Clinton tentou responder com agileza, mas nem sempre conseguiu manter as rédeas da discussão como no anterior debate, visivelmente mais cansada e apagada. Trump, pelo contrário, estava mais bem preparado do que nunca, usando citações de discursos pagos da ex-secretária de Estado contra ela (acabadas de revelar pela WikiLeaks ao mesmo tempo que a gravação do "Washington Post") – e recorrendo até a críticas tecidas por Bernie Sanders quando disputou as primárias democratas com a antiga senadora. Por várias vezes, muitas mais do que aconteceu com Clinton, a assistência de indecisos riu e aplaudiu sucessivas tiradas de Trump, chegando a apupar a democrata em algums dos momentos em que tentou defender-se.

Entre elas, e a par de ter falado do Daesh quando foi confrontado com as suas declarações mais do que "vulgares" sobre como trata as mulheres, o republicano prometeu que, se for eleito, vai nomear um procurador especial para mandar prender Hillary, uma ameaça inédita de prisão de um opositor político na história das eleições americanas.

A par disso, recusou-se a condenar a Rússia pelos ciberataques de que foi formalmente acusada pela administração Obama como forma de "influenciar estas eleições" a favor de Trump; reforçou várias vezes que Bill Clinton é "abusivo com as mulheres" para atacar a rival; acusou Hillary e as altas estruturas do Partido Democrata de falsearem as primárias para impedirem uma vitória de Sanders, algo que ficou comprovado em anteriores emails internos revelados pela WikiLeaks; continuou a disparar mentiras e informações nada factuais sobre quem começou o movimento 'birther' (que punha em causa a naturalidade de Obama), sobre não ter apoiado a invasão do Iraque (apoiou), sobre a sua posição quanto à imigração muçulmana e sobre outros tópicos abordados.

A contrastar com isso, os moderadores – com a ajuda de uma pergunta da assistência sobre impostos – conseguiram pôr Trump a confirmar uma notícia recente sobre ter escapado aos impostos federais sobre rendimentos entre 1992 e 2010, depois de ter declarado um prejuízo de quase mil milhões de dólares em 1995. "Claro que sim [que não pagou], tal como os doadores da campanha dela”, retorquiu, apontando repetidamente os nomes de George Soros e Warren Buffet. Dir-se-á que foi a única vitória do debate.

Em última instância, Trump conseguiu não se espalhar ao comprido e, acima disso, conseguiu escapar quase ileso a questões preponderantes e preocupantes que, noutras circunstâncias, poderiam ter ditado uma nova derrota no modelo de debates televsivos. Isso não aconteceu mas, tal como a vitória declarada de Hillary no primeiro debate conta pouco, também o que se passou esta noite deverá contribuir pouco para alterar as intenções de voto.

Tudo indica que daqui e até 8 de novembro, quando os norte-americanos são chamados a eleger o seu próximo Presidente, o nível de baixaria e de revelações incómodas e estrondosas vai manter-se, senão reforçar-se. Cada candidato tem mais cartadas para jogar e o que quer que pudesse estar a impedir essas jogadas, depois desta noite, deixou de contar. É o vale tudo nos próximos 30 dias.