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O saldo do debate: Trump sobreviveu

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SAUL LOEB / AFP / Getty Images

Quando muita gente esperava que o debate desta madrugada assinalasse o fim do candidato republicano, Donald Trump confundiu as expectativas e, numa performance tipicamente agressiva contra a sua rival Hillary Clinton, terá dado novo alento aos seus apoiantes

Luís M. Faria

Jornalista

Donald Trump conseguiu estancar a hemorragia. É assim que vários comentadores norte-americanos descrevem o resultado do debate ocorrido entre as 21h e as 22h30 deste domingo nos EUA (madrugada de segunda-feira em Portugal) entre o candidato republicano e a sua rival democrata, Hillary Clinton. Quando muita gente esperava que o debate assinalasse o fim efetivo da sua candidatura – mesmo que ele não desistisse formalmente – Trump lançou-se ao ataque e conseguiu abalar a sua rival diversas vezes, ao contrário do que tinha acontecido no primeiro frente a frente. Ao fazê-lo, terá conseguido segurar pelo menos uma parte substancial do seu apoio popular.

Eis uma passagem típica do tom da noite. Foi na parte do debate em que se falava da utilização de um servidor privado por parte de Hillary quando era secretária de Estado. Trump voltou a acusá-la de ter comprometido a segurança nacional. Pior ainda, de ter cometido um crime ao mandar apagar 33 mil desses emails após receber uma ordem oficial para os entregar ao comité que investigava o caso no Congresso. Hillary tentou dizer que não era verdade, mas o rival interrompeu:

TRUMP: Oh, não os apagou?

COOPER: Deixe-a responder, por favor.

CLINTON: Eram emails pessoais, não oficiais.

TRUMP: Oh, 33 mil. Pois.

CLINTON: Não – bem, entregámos 35 mil, portanto…

TRUMP: Oh, pois. E quanto aos outros 15 mil?

COOPER: Por favor deixe-a responder. Ela não falou enquanto o senhor falava.

CLINTON: Sim, é verdade, não falei.

TRUMP: Porque não tem nada a dizer.

Ainda a propósito do mesmo assunto, Hillary tinha dito que era muito bom que o sistema legal americano não estivesse nas mãos de uma pessoa com o temperamento de Donald Trump.

TRUMP: Porque você estaria na cadeia.

Este gênero de interrupção, que foi ainda mais frequente no primeiro debate, é uma marca do estilo de Trump. Independentemente de algum ponto retórico que possa marcar aqui ou ali, dá uma ideia de impulsividade e falta de disciplina que não o favorece. A mesma ideia dão as suas queixas sobre a alegada parcialidade dos moderadores (“são três contra um”), aos quais chegou a acusar de não o deixarem falar sobre um assunto que tinham sido eles próprios a introduzir, e no qual tinham insistido…

Falsos moralistas

Trump vinha de umas 48 horas que terão sido as piores da sua campanha até agora, depois de o diário “Washington Post”, na passada sexta-feira, ter tornado público um registo de 2005 em que ele aparece a falar com um apresentador de televisão num autocarro. Na gravação, Trump diz claramente que não resiste à beleza feminina e conta que beija as mulheres que o atraem mesmo sem o consentimento delas. Diz também que as agarra pela c… quando quer. Quando se é uma celebridade pode-se fazer tudo, explica.

No fim de semana, uma procissão de congressistas e governadores republicanos rescindiram o seu apoio a Trump, apelando alguns a que ele saia da corrida e deixe o caminho livre ao candidato republicano à vice-presidência, Mike Pence. Ele acusou-os de hipocrisia e garantiu que nunca desistiria. A sua diretora de campanha acrescentou que muitos desses agora moralistas estiveram eles próprios envolvidos em histórias de abuso sexual.

De qualquer modo, no debate desta madrugada a questão era inevitável, e surgiu logo ao princípio. Uma mulher na audiência (o debate era no formato ‘town hall', em que os candidatos estão rodeados por cidadãos que podem fazer perguntas de vez em quando) perguntou aos candidatos se achavam que o seu comportamento era um bom exemplo para a juventude americana.

Hillary foi a primeira a responder. Agradecendo à mulher, perguntou-lhe se era professora e disse que era uma boa questão. “Tenho ouvido muitos professores e pais a falar das suas preocupações sobre coisas que estão a ser ditas e feitas nesta campanha. E acho que é muito importante tornar claro às crianças que o nosso país é realmente grande porque somos bons. E vamos respeitar-nos e erguer-nos uns aos outros”.

Embora expressa em tom positivo, a crítica a Trump era evidente. Mas quando chegou a sua vez de responder, ele não se atrapalhou. Aparentemente contrito – ou mais precisamente, entre o contrito e o zangado, com os cantos da boca virados para baixo numa expressão dura – pediu desculpa a sua família e a América, admitindo que o havia dito na gravação era errado, embora não fosse mais do que ‘conversa de balneário’, como a descreveu.

Acrescentou que Bill Clinton tinha feito muito pior, e que no caso do ex-presidente estavam em causa ações, não apenas palavras. Uma linha de argumentação que já tinha usado, e que visa atacar diretamente Hillary, a quem Trump acusa de ter atacado as mulheres que se queixavam das investidas sexuais do marido. Para reforçar o ponto – e enfraquecer psicologicamente a adversária – Trump disse que três dessas mulheres se encontravam ali na audiência. Duas horas antes, tinha aparecido na companhia delas e ainda de uma quarta mulher que foi violada aos 12 anos em 1975. Hillary, nessa altura professora de direito, foi a advogada do violador, ao que parece por nomeação do tribunal. Num livro de memórias, ela descreve o caso como terrível.

Ela parada, ele a rondar

O resto do debate focou uma variedade de assuntos, desde a economia até a Síria, passando pelo papel da Rússia na campanha, a islamofobia, o racismo e o modo depreciativo como Hillary se referiu aos apoiantes de Trump (“deploraveis”) e os méritos e de méritos da reforma do sistema de saúde promovida por Obama. Hillary concordou que há coisas a corrigir no chamado Obamacare, mas disse que seria pior rejeitá-lo e começar de novo, voltando a deixar milhões de pessoas sem cobertura médica.

Como sempre, Trump interrompeu-a frequentemente, metendo buchas e acusando-a de estar na vida pública há trinta anos e nada ter feito para melhorar a vida dos americanos, mesmo quando era senadora. Hillary lembrou que o presidente na altura era republicano e a Constituição dava-lhe poder de veto. O seu tom geralmente calmo contrastava com a irritação que ele deixava transparecer. A própria forma como ambos usavam o espaço – ela ficando parada ou indo para junto das pessoas na audiência, ele sempre em circulação quando estava calado, rondando-a à distância enquanto ela falava – poderá ter reforçado a empatia de parte do eleitorado feminino com Hillary.

A ex-secretária de Estado defendeu acaloradamente as suas atividades na vida pública – “na verdade, durante mais de trinta anos” – e enunciou uma lista de coisas que tinha conseguido fazer ao longo desse tempo, muitas delas relacionadas com proteção das crianças e das mulheres. Disse que nesta campanha, pela primeira vez na sua vida, se via obrigada a questionar as aptidões básicas de um adversário para ocupar o lugar a que se candidatava. E recusou responder diretamente as acusações mais pessoais de Trump.

Um momento raro de cortesia

Este teve um dos seus melhores momentos quando um dos moderadores referiu que Hillary, num dos seus discursos pagos a instituições financeiras como a Goldman Sachs – obtidos por ‘hackers’ ligados à Rússia e publicados há dias pela Wikileaks – explicara como um político tem de ter duas posições, uma pública e outra privada. Hillary tentou justificar-se dizendo que fizera o comentário após ver o filme de Steven Spielberg sobre Lincoln, no qual o lendário presidente aparecia a negociar com congressistas a emancipação dos negros. Muitas dessas negociações, obviamente, foram nos bastidores. Trump não aceitou a justificação. Ela mente e desculpa-se com o ‘Honest Abe' (o Abe honesto) que nunca disse uma mentira na vida. A audiência riu.

Foi um raro momento leve num encontro que terá sido o mais azedo em toda a história dos debates presidenciais nos EUA. O tom tinha sido dado logo ao início, quando os candidatos entraram no palco da Universidade Washington, em St Louis (Missouri). Hillary saudou Trump mas não lhe estendeu a mão, e ele, apercebendo-se disso, recuou um pouco.

Outro momento que divertiu o público foi quando os moderadores pediram aos candidatos que explicassem o que fariam para melhorar o sistema de saúde. Clinton tinha prioridade na resposta, pois era a sua vez, mas disse:

CLINTON: Se ele quer começar, pode começar. Não, avance, Donald.

TRUMP: Não, sou um gentleman, Hillary. Avance.

As gargalhadas do público disseram tudo. No contexto do escândalo que agora aflige Trump e das histórias afins que correm sobre ele, aquele “sou um gentleman” teve uma conotação irónica. Sem dúvida, aliás, intencional…

No final, um aperto de mão

O único aperto de mão aconteceu no fim, quando Trump já tinha prometido nomear um “procurador especial” quando for presidente para garantir que Hillary será presa (uma promessa que lembrou o que acontece em democracias menos maduras como a Ucrânia e a Indonésia) e ela o acusara de racismo, misoginia e outras formas de intolerância, bem como de não pagar impostos sobre o rendimento. No que toca a esta última questão, Trump explicou que se limita a aproveitar as leis que os políticos profissionais como Hillary, na sua extrema incompetência e na sua cumplicidade com os ricos do país, têm permitido continuar como estão.

Terminado o debate, os dois foram cumprimentar pessoas: Trump os membros da sua família, Hillary pessoas na audiência. E depressa começaram os selfies, com vários membros da audiência a irem aos dois candidatos. Para já, Trump sobreviveu. Embora atualmente as sondagens lhe deem apenas uma probabilidade média de 15 por cento de vencer as eleições, pelo menos o Partido Republicano não lhe vai fazer nenhum pedido oficial para desistir.

ROBYN BECK / AFP / Getty Images

Como sempre, Trump interrompeu-a frequentemente, metendo buchas e acusando-a de estar na vida pública há trinta anos e nada ter feito para melhorar a vida dos americanos, mesmo quando era senadora. Hillary lembrou que o Presidente na altura era republicano e a Constituição dava-lhe poder de veto.

Hillary defendeu acaloradamente as suas atividades na vida pública – “na verdade, mais de trinta anos” – e enunciou uma lista de coisas que tinha conseguido fazer, muitas delas relacionadas com proteção das crianças e das mulheres. Disse que, pela primeira vez na sua vida, se via obrigada a questionar as aptidões básicas de um adversário para ocupar o lugar a que se candidatava. E recusou responder diretamente as acusações mais pessoais de Trump.

Este teve um dos seus melhores momentos quando um dos moderadores referiu que Hillary, num dos discursos pagos que fez a instituições financeiras como a Goldman Sachs, explicara como um político tem de ter duas posições, uma pública e outra privada. Hillary tentou justificar-se dizendo que fizera o comentário após ver o filme de Steven Spielberg sobre Lincoln, no qual o lendário Presidente aparecia a negociar com congressistas a emancipação dos negros. Muitas dessas negociações, obviamente, eram nos bastidores. Trump não aceitou a justificação: “Ela mente, e desculpa com o ‘Honest Abe' (o abe honesto) que nunca disse uma mentira na vida.” A audiência riu-se.

Foi um raro momento leve num encontro que terá sido o mais azedo em toda a história dos debates presidenciais nos EUA. O tom tinha sido dado logo ao início, quando os candidatos entraram no palco da Universidade Washington, em St. Louis (Missouri). Hillary saudou Trump mas não lhe estendeu a mão, e ele, apercebendo-se disso, recuou um pouco.

O único aperto de mão foi no final, quando Trump já tinha dito que Hillary devia estar na cadeia por causa dos seus emails (prometeu mesmo nomear um “acusador especial” com esse fim, uma promessa que lembrou o que acontece em democracias menos maduras como a Ucrânia e a Indonésia) e ela o acusara de racismo, misoginia e incompetência, bem como de não pagar impostos sobre o rendimento. Trump explicou que se limita a aproveitar as leis que pessoas como Hillary permitem continuar como são.

A seguira os dois foram cumprimentar pessoas: Trump os membros da sua família, Hillary pessoas na audiência. E depressa começaram os selfies, com vários membros da audiência a irem até junto dos dois candidatos. Para já, Trump sobreviveu, embora as sondagens lhe deem apenas uma probabilidade média de 15% de vencer as eleições.