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A internet (não) matou a televisão

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O segundo debate presidencial norte-americano, marcado para este domingo à noite, volta a opor Hillary Clinton e Donald Trump num momento em que a democrata está galvanizada pela vitória no primeiro frente e frente, que lhe deu vantagem sobre o rival nas sondagens nacionais. Pela primeira vez, algumas das perguntas que lhes serão colocadas vêm das cabeças de eleitores comuns e não dos moderadores. É uma medida inédita que está longe de ser poderosa. Neste momento, apontam especialistas, a maior parte dos eleitores já escolheu em quem vai apostar e só um grande escândalo conseguirá derrubar uma das candidaturas

John F. Kennedy foi um precursor quando venceu as eleições presidenciais de 1960. Não só foi o mais jovem candidato a ser eleito Presidente dos EUA, como se tornou o primeiro líder católico do país e o primeiro, à data, a ter nascido já no século XX. À lista de itens inéditos acresceu o início de uma nova forma de fazer campanha: os debates televisivos. Com o rival republicano Richard Nixon, foi Kennedy quem inaugurou o modelo ainda hoje seguido e que, há pouco mais de uma semana, atraiu um recorde de espectadores nos EUA e no resto do mundo.

Não é para menos, considerando que este ano a Casa Branca está a ser disputada por uma ex-secretária de Estado que é a primeira mulher nomeada por um dos dois grandes partidos e um empresário e ex-estrela de reality shows que não tem pudores em prometer mundos e fundos xenófobos, por vezes até falsos ou impossíveis de cumprir, para angariar votos — e cuja base de apoiantes parece não se importar com isso.

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Quando Hillary Clinton e Donald Trump tiveram o seu primeiro frente a frente a 26 de setembro, 84 milhões de espectadores sintonizaram as televisões para assistir ao braço-de-ferro. Antes disso, o recorde de audiências num debate presidencial remontava precisamente a 1960: nesse mesmo dia, há 56 anos, cerca de 70 milhões de americanos assistiram ao frente a frente entre Kennedy, então um senador relativamente desconhecido, e Nixon, à data a cumprir o segundo mandato como vice-presidente da administração de Dwight D. Eisenhower.

Isto foi importante numa altura de democratização da televisão nos lares americanos. Nesse ano, 85% das casas já tinham televisores, contra apenas 11% em 1950. E hoje é consensual que o primeiro dos quatro debates foi fulcral para a vitória do democrata. Nixon, que tinha acabado de ter alta do hospital, recusou-se a ser maquilhado e usou um fato cinzento que se confundia com o cenário do estúdio e o apagava nas imagens a preto e branco dos ecrãs. Kennedy apareceu bronzeado, envergando o seu sorriso de marca e um fato azul e falando para as câmaras em vez de se dirigir a Nixon, o oposto do que o republicano fez. Quem assistiu ao debate declarou-o vencedor. Ironicamente, quem só o acompanhou pela rádio sentiu que foi Nixon quem ganhou.

Assim reza a história americana, em estreita relação com a história da televisão, num momento em que a imagem e a aparência passaram a ter um peso fulcral para os eleitores. O poder dos debates ficou provado quando Kennedy foi eleito a 8 de novembro, de tal forma que passariam 16 anos até que outros aspirantes ao cargo — no caso o democrata Jimmy Carter e o republicano Gerald Ford, em 1976 — aceitassem bater-se por votos no pequeno ecrã.

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Potenciais bombas

Mais de 50 anos depois, quase tudo mudou, à exceção da preponderância da televisão. Hillary Clinton sabe-o e foi por isso que esperou pelo debate da semana passada para, no seu fato vermelho em linha com a moda precursora de Kennedy, largar um pequeno explosivo na campanha do rival — ao acusar Donald Trump de insultar e depreciar Alicia Machado, a mulher que ele próprio coroou no concurso Miss Universo em 1996. Trump foi apanhado de surpresa e as suas reações a quente, sobretudo depois de ter passado a madrugada seguinte no Twitter a insultar ainda mais Machado e, por acréscimo, Clinton, só serviram para se enterrar ainda mais. Dois dias depois, o “Daily Beast” garantia que “Clinton guardou as granadas mais explosivas para o segundo debate”. “Mal teve de raspar a superfície para ganhar o primeiro concurso”, escreveu a revista. “E há muito mais lodo de onde esse veio.”

Antes do frente a frente, muitos antecipavam que, pela sua experiência à frente das câmaras (e o quanto as adora), o magnata tinha alguma vantagem sobre a adversária — muitas vezes acusada, a cada aparição televisiva, de não sorrir o suficiente, ou de sorrir demasiado, ou de falar demasiado alto e com demasiada paixão ou de não demonstrar paixão nenhuma. “Donald Trump é uma criatura da televisão e enquanto criatura da televisão tem opiniões fortes sobre o que deve acontecer quando aparece em frente às câmaras”, referia o “Politico” dias antes do encontro. Findos os 90 minutos, houve consenso dentro e fora dos Estados Unidos: Clinton bateu Trump no seu próprio jogo.

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Agora que se preparam para mais um confronto, o segundo de três, este domingo à noite (madrugada de segunda-feira em Portugal), eleva-se a questão: terá Trump uma arma de arremesso pronta a usar contra a rival?

“Este segundo debate é muito importante para a campanha de Hillary Clinton”, sublinha ao Expresso Alex Keyssar, professor de História americana e políticas sociais da Universidade de Harvard. “Ela quer solidificar a sua liderança e manter a tendência [de voto] na sua direção.” Ao contrário do que aconteceu há 56 anos com Kennedy e Nixon, nenhum dos candidatos é desconhecido, muito pelo contrário, e isso também contribuiu para que o primeiro debate fosse uma espécie de feira de vaidades e troca de acusações. “O eleitorado já tem ideias bem formadas sobre quem são os candidatos, portanto, neste momento, penso que as únicas coisas que podem fazer a diferença serão notícias negativas sobre qualquer um deles que ajudarão o outro”, explica Keyssar. “Ou notícias sobre o seu passado ou erros sérios que possam cometer em declarações públicas ou nos próximos dois debates.”

É a mesma ideia que Kim Lane Scheppele sublinha ao Expresso. “Pode haver outros escândalos, reais ou imaginados, ainda por rebentar até ao dia da ida às urnas”, sublinha a especialista de Princeton, uma das responsáveis pelo Programa de Lei e Assuntos Públicos daquela universidade. “Não precisa de ser real para ter impacto, sobretudo se surgir nos últimos dias de campanha.”

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Uma novidade

Este domingo — e pela primeira vez — as perguntas que os moderadores Anderson Cooper e Martha Raddatz vão colocar a Clinton e a Trump não serão apenas deles, mas de americanos comuns que ao longo da última semana têm proposto e escolhido as questões com as quais gostavam de confrontar os candidatos. “Existe mútua frustração com o facto de as perguntas em debates presidenciais serem dominadas por um punhado de personalidades da televisão em vez dos eleitores comuns”, referiu Mike McCurry, vice-presidente da Comissão para os Debates Presidenciais, quando anunciou a novidade. “Isto vai dar mais peso ao debate porque as questões são apoiadas por votos do povo americano.”

A medida inédita foi possibilitada não pela televisão mas pela internet, com milhões de eleitores a acederem ao site PresidentialOpenQuestions.com nos últimos dias, enquanto os media se desdobravam em antevisões do conteúdo do próximo frente a frente com base na inovação. Iriam os utilizadores pedir que os aspirantes presidenciais se pronunciem sobre a morte do gorila Harambe em detrimento do sistema de Segurança Social, questionou a revista “Atlantic” em tom de brincadeira. A julgar pelo que aconteceu na Florida, um dos mais importantes estados em ano de eleições, nem por isso: entre as questões mais populares, cada uma aprovada por 400 mil pessoas ou mais, contam-se a problemática do dinheiro na política e do financiamento de campanhas, o salário mínimo e as alterações climáticas. “O potencial impacto desta novidade é desconhecido”, diz Keyssar com algum ceticismo. “Os votos [das questões pela população] vão certamente ser rastreados, portanto não penso que importe muito.”

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O que importa são as sondagens e aí Clinton vai à frente. A apenas um mês da ida às urnas, as sondagens nacionais no rescaldo do debate dão um avanço de cinco pontos percentuais à democrata e o “New York Times” referia esta sexta-feira que, neste momento, Clinton tem 82% de hipóteses de ganhar e Trump apenas 18%. O cálculo tem por base dados não apenas das sondagens nacionais mas também estatais. As primeiras, explica Keyssar, “dão apenas uma noção da tendência e da opinião geral, mas o que importa, claro, são as sondagens estatais, que existem seguramente em menor número”.

O que esses escassos inquéritos de opinião demonstram é que Trump pode ganhar em cinco dos sete principais estados swing — Florida, Ohio, Carolina do Norte, Arizona e Iowa — e ainda assim perder as eleições. “Isto é assim porque Clinton tem atualmente uma liderança dominante numa série de estados mais populosos”, adianta Keyssar. Por isso e por causa do funcionamento das presidenciais, em que os americanos não elegem o seu líder mas sim os membros do Colégio Eleitoral que irão nomeá-lo. É por isso que se dá tanta atenção aos swing, os estados que oscilam entre o Partido Democrata e o Partido Republicano em cada ano eleitoral. Neste momento, só mesmo uma bomba mediática pode arruinar as hipóteses de Clinton. Resta saber se ela existe e se Trump planeia detoná-la já este domingo ou só no terceiro e último debate, marcado para 19 de outubro, quando faltarão apenas 15 dias para a ida às urnas.

  • “Não mintas, Donald”

    Esta poderá ser uma das frases do debate desta madrugada (02h em Portugal Continental) entre Hillary Clinton e Donald Trump. A candidata democrata às presidenciais americanas tentará irritar o rival republicano, que se apresentou nos últimos dias descontraído e sem necessidade de realizar qualquer ensaio geral. Mas primeiro lembramos a História

  • Há razões para prestar atenção ao debate presidencial desta noite nos EUA

    Esta terça-feira, pelas 2h da manhã em Portugal, tem lugar o único debate televisivo entre os candidatos à vice-presidência antes das eleições de 8 de novembro. O democrata Tim Kaine parte com um avanço sobre o republicano Mike Pence, com base nas mais recentes sondagens nacionais, favoráveis a Hillary Clinton no rescaldo do primeiro frente a frente com Donald Trump há uma semana. Quase metade dos norte-americanos não sabe quem é um ou outro. Mas um deles pode vir a tornar-se o homem mais poderoso e influente do mundo