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“Ninguém estava preparado para a vitória do ‘Não’ ”

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O Presidente colombiano, Juan Manuel Santos venceu o Nobel da Paz

Reuters

Domingo, os colombianos decidiriam, em referendo, não aceitar os termos do acordo de paz assinado em agosto entre o Governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). O choque foi geral e “não se pode esperar demasiado tempo para encontrar consensos porque a sociedade está polarizada”. Nesta entrevista, feita antes da atribuição do Nobel da Paz ao Presidente Juan Manuel Santos (ver página ao lado), Juan David Cárdena Ruiz, Professor de Política e Comportamento Eleitoral da Universidade La Sabana, procura explicar a insólita vitória do “Não”

O resultado do referendo foi recebido na Europa com choque. Na Colômbia também?
O resultado foi completamente inesperado, mesmo para quem votou contra a validação dos acordos de paz. Fomos inundados por sondagens que davam uma folgada vitória ao “Sim” e por uma forte campanha por parte do Governo. Surpreendeu-nos a todos.

Apesar dos esforços do Governo e do apoio internacional, porque optou o eleitorado pelo “Não”?
A diferença de votos não foi grande mas há ainda muitos colombianos com uma opinião irremediavelmente negativa sobre as FARC. A campanha do “Não” enfatizou a violência do passado, reacendeu no nosso imaginário coletivo memórias muito dolorosas. E usou também a religião, a família, a sexualidade entre outros valores que pesam muito na forma como os colombianos decidem.

A abstenção ultrapassou os 60%. Houve excesso de confiança?
Sim. A prova disso é que acordámos numa enorme incerteza quanto ao futuro porque nenhum dos lados estava preparado para este resultado e não tinham sido estudados outros cenários. O Governo foi demasiado confiante e descurou a oposição histórica dos colombianos à guerrilha.

Qual a divisão demográfica e geográfica dos votos?
As atitudes e o comportamento em relação ao processo de paz diferem muito conforme a distância a que cada pessoa esteve do cenário de guerra. As pessoas que sofreram mais com a violência quiseram pôr-lhe um ponto final e votaram em massa pelo “Sim”.

E nas cidades?
Nas maiores áreas metropolitanas — não em todas, Bogotá votou “Sim” — o voto no “Não” justifica-se com o alinhamento de alguma população no conservadorismo de Alvaro Uribe. Nas zonas economicamente mais desenvolvidas, com grande propriedade rural, a probabilidade de que a população viesse a apoiar um acordo que propõe uma espécie de reforma agrária era pouca. Houve também o medo de que a reintegração alterasse o tecido social.

Os acordos eram muito benevolentes para os crimes das FARC?
Se compararmos este processo com outros, apesar de ser dos mais longos e dos mais violentos, não podemos dizer que seja benevolente: é o possível. As pessoas não entendem, na sua necessidade natural de ajustar contas, o significado de “justiça transitiva”. Não é a mesma que corre nos tribunais, é acionada para possibilitar a paz. O acordo centra-se na procura da verdade e na necessidade de reparação da sociedade em vez de impor castigos penais — isto foi uma decisão política e a maioria não concordou.

Para onde poderá agora ir o país?
A incerteza é grande. Os rebeldes continuam comprometidos com o acordo, o Governo está confuso e até a oposição está em choque com a sua própria vitória. Tem de passar algum tempo até que se afinem estratégias dos dois lados. Mas a sociedade está polarizada e espera repostas rápidas dos seus atores políticos. A única coisa que ficou clara é que o país acordou diferente no domingo.

A violência pode voltar?
Penso que não. A pressão social está a aumentar para que se continue a procurar uma solução pacífica, até entre os partidários do “Não”. As FARC estão comprometidas com o cessar-fogo e a comunidade internacional é um fator dissuasor de violência. Porém, grupos como o ELN (Exército de Libertação Nacional), os paramilitares (de extrema-direita), ou os Bacrim (abreviatura para bandos criminosos, ligados ao tráfico de droga) poderão criar problemas.

Que farão agora o Governo, a oposição e os rebeldes?
Além das eventuais alterações aos acordos, o mais importante é construir pontes na direção dos 63% que não votaram. É preciso unir as pessoas, mobilizá-las. Será necessário criar um consenso nacional entre os dois sectores da sociedade.

Acha possível que ex-guerrilheiros possam vir a ser aceites como deputados?
Se não aceitarmos o seu contributo no Parlamento, ou pelo menos como uma força política com capacidade eleitoral, este conflito pode nunca chegar ao fim.