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Fernando Henrique Cardoso: o “amigo do Brasil” Guterres é "a melhor escolha” para a ONU

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José Carlos Carvalho

O antigo Presidente brasileiro disse ao Expresso ver com bons olhos a eleição de António Guterres para o cargo de Secretário-Geral das Nações Unidas. Os dois líderes, responsáveis pela assinatura do Tratado de Amizade, Cooperação e Consulta entre Portugal e Brasil, ajudaram a reforçar as ligações entre os dois países durante os respetivos mandatos como Presidente do Brasil (1995-2003) e primeiro-ministro de Portugal (1995-2002). Hoje, entre os brasileiros, há quem tenha esperança que Guterres possa ajudar o país a ganhar mais relevância dentro da ONU

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista

"Em boa hora foi escolhido António Guterres para suceder a Ban Ki-moon como Secretário-Geral das Nações Unidas." Foi assim que o antigo Presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso comentou ao Expresso a indicação do português pelo Conselho de Segurança para o mais alto cargo da organização.

"A decisão é significativa porque Guterres, pela experiência internacional que possui e pelos seus dotes pessoais, é a melhor escolha para conduzir a ONU num momento tão delicado", acrescentou Cardoso, destacando os "desafios económicos da globalização" e a "crise humanitária" provocada pela guerra como os principais obstáculos que o antigo Alto Comissário para os Refugiados terá de enfrentar.

As relações entre Fernando Henrique Cardoso e António Guterres cimentaram-se durante a presidência de Cardoso, que coincidiu com a eleição de Guterres como primeiro-ministro em Portugal em 1995. Os dois líderes foram responsáveis pela assinatura do Tratado de Amizade, Cooperação e Consulta entre Portugal e Brasil, no ano 2000, a fim de estabelecer princípios como a igualdade de direitos políticos entre cidadãos dos dois países, bem como o reconhecimento de graus académicos, como destacou esta semana o jornal "Folha de S. Paulo". Durante o Governo de António Guterres, Portugal tornou-se o terceiro maior investidor no Brasil.

Já depois de abandonar a política nacional, Guterres manteve uma relação próxima com o Brasil, tendo estado presente tanto na tomada de posse do sucessor de Cardoso, Lula da Silva, como na inauguração do Instituto Fernando Henrique Cardoso, já em 2004. Visitou igualmente o país várias vezes durante o seu período como Alto Comissário para os Refugiados da ONU.

Brasil procura lugar no Conselho de Segurança

Ao Expresso, o antigo Presidente brasileiro revelou que não esquece os laços que se estabeleceram entre os dois países durante o Governo do agora Secretário-Geral da ONU: "No caso de Brasil, sentimos em Guterres um amigo que muito nos entendeu e ajudou quando foi primeiro-ministro", reforçou, destacando a importância de ser a primeira vez que um membro "do mundo cultural português" ocupa um cargo deste tipo.

No Brasil, há quem questione se a eleição de um português tão próximo do país poderá ajudar a concretizar um desejo antigo, articulado também durante a presidência de Cardoso: tornar o Brasil um membro permanente do Conselho de Segurança (CS) da ONU. Esta semana, a "Folha de S. Paulo" destacava inclusivamente que Guterres terá dito no passado ser a favor dessa mudança no CS.

No entanto, há quem alerte para a dificuldade da missão, como é o caso do diplomata Gélson Fonseca Jr., embaixador do Brasil na ONU durante o mandato de Fernando Henrique Cardoso. À agência de notícias russa Sputnik, Fonseca Jr. destacou a ação de Guterres na liderança do Executivo português e do ACNUR como "notável e exemplar", mas realçou a complexidade de um processo para tornar o Brasil membro permanente do CS. "Não basta apenas ao Brasil dizer que quer entrar para o CS da ONU para ser prontamente aceite", declarou. "Mesmo que tenha a posição favorável do Secretário-Geral."