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Presidente das Filipinas desafia EUA e UE a cortarem financiamento ao país

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NOEL CELIS

Ministro da Defesa do arquipélago asiático diz que forças de segurança "conseguem viver" sem a ajuda externa, após Rodrigo Duterte ter declarado que os filipinos "não são mendigos" e que "a nação vai sobreviver" se deixar de receber apoios da comunidade internacional face à violenta guerra ilegal contra as drogas em marcha há três meses

Rodrigo Duterte continua investido na campanha de provocações e insultos a vários líderes mundiais, desafiando quinta-feira os Estados Unidos e a União Europeia a "avançarem" com a retirada de apoio financeiro às Filipinas se estão desagradados com a sangrenta onda de execuções extrajudicais e operações oficiais antitráfico de droga em marcha no país desde que tomou posse como presidente a 1 de julho.

"Vão-se embora, levem o vosso dinheiro para outro sítio qualquer, nós vamos sobreviver como nação", disse o líder filipino num discurso aos agentes da polícia de Butuan, no sul do arquipélago. "Como é que vocês olha para nós, como mendigos? Nós vamos sobreviver. Mesmo que tenhamos de atravessar dificuldades, nós vamos sobreviver. Mas nunca, nunca iremos comprometer a nossa dignidade. Se pensam que está na altura de retirarem a vossa assistência [financeira], avance - nós não vamos implorar por ela", declarou, acrescentando que não espera que nem os EUA, nem a UE, nem organizações de direitos humanos compreendam as suas políticas.

A sua grande promessa de campanha, que tem estado a ser implementada desde que tomou posse há três meses, é uma guerra contra as drogas que já conduziu ao homicídio de mais de 3680 pessoas suspeitas de tráfico e/ou consumo de droga — 1390 delas em operações oficiais da polícia e 2294 por alegados vigilantes não-identificados que, segundo uma reportagem recente do jornal "The Guardian", não são mais que agentes das forças de segurança disfarçados que atuam sob ordens diretas do novo Governo.

Na semana passada, dois senadores norte-americanos lançaram o alerta sobre o amontoar de mortos em operações formais e execuções extrajudiciais nas Filipinas relacionadas com a guerra contra as drogas, pedindo que o pacote de ajuda externa ao país seja revisto. Ben Cardin, senador democrata pelo estado de Maryland, acusou Duterte de defender e patrocinar o que "corresponde a homicídios em massa". Patrick Leahy, democrata que representa o estado de Vermont no Senado americano, acrescentou: "Nenhuma quantidade de mortos vai resultar em reformas que melhorem o sistema judicial, que acabem com a corrupção e a impunidade das forças de segurança ou que reabilitem aqueles que se veem encurralados no vicioso ciclo de toxicodependência".

De acordo com dados dos EUA, está prevista a atribuição de 188 milhões de dólares (168,5 milhões de euros) às Filipinas em 2017, depois de 236 milhões de dólares (211,5 milhões de euros) em ajuda externa em 2015. A assistência anual da União Europeia às Filipinas ronda os 58 milhões de euros.

O desafio feito por Duterte às duas potências foi sustentado pelo seu ministro da Defesa, que esta sexta-feira declarou que as forças de segurança filipinas "conseguem viver" sem a ajuda dos EUA e da UE. Quarta-feira, Delfin Lorenzana tinha assumido um tom mais conciliatório ao dizer que Duterte "podia estar mal informado" quando disse que os exercícios militares conjuntos das Filipinas com os EUA no disputado Mar do Sul da China não vão trazer qualquer benefício ao país. Mas esta sexta, o ministro disse que o valor do apoio militar dos EUA às Filipinas "não é assim tão alto" e que o Exército pode pedir ao Congresso que compense o orçamento militar se a administração norte-americana decidir suspender o financiamento militar de entre 50 e 100 milhões de dólares. "Nós conseguimos viver [sem esse dinheiro]", declarou numa conferência com jornalistas estrangeiros.

Numa entrevista esta semana à Al-Jazeera, Phelim Kine, do ramo da Human Rights Watch para as Filipinas, avisou que a ajuda externa ao país pode estar a ser usada para financiar "a violência ilegal excessiva" cometida pelas autoridades a mando do Governo. Duterte, por sua vez, sublinhou quinta-feira que os Governos estrangeiros "nunca irão entender o sofrimento por que estamos a passar", sublinhando que o país "tem um problema em tentar preservar a sociedade".

As declarações de um presidente cada vez mais criticado no exterior e adorado no país, batizado "Justiceiro" devido à mão dura contra o tráfico e consumo de droga na cidade de Davao, que governou durante 22 anos, seguem-se a um controverso post de Facebook publicado pelo seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Perfecto Yasay, que esta semana escreveu que Duterte quer libertar as Filipinas da "dependência com algemas" dos EUA. No post intitulado "A América falhou-nos", Yasay diz que o presidente foi "forçado a realinhar" a política externa para não se submeter às exigências e interesses norte-americanos.

"Romper com a dependência que algema as Filipinas para dar respostas efetivas às ameaças de segurança internas e externas tornou-se imperativo para pôr fim à subserviência da nossa nação aos interesses dos Estados Unidos", escreveu. No mesmo texto, o chefe da diplomacia filipina acrescentou que, no Mar do Sul da China, os EUA não podem garantir qualquer ajuda ao país para proteger a sua soberania. "O pior é que o nosso único aliado não pode dar-nos garantias de que, ao assumirmos uma postura mais dura pelo respeito da nossa soberania à luz da lei internacional, ele venha em nossa defesa sob o atual tratado [ratificado em 1951] e os acordos militares em vigor."

Na segunda-feira, o presidente filipino voltou a atacar Barack Obama, dizendo que o líder norte-americano "pode ir para o inferno" e dando a entender que pode "acabar com" a relação com os Estados Unidos — isto depois de um outro insulto que proferiu ter levado o Presidente dos EUA a cancelar um encontro com Duterte na cimeira da ASEAN. Obama não é o único alvo das críticas e insultos de Duterte, que nos últimos meses já escolheu como alvos o Papa Francisco e os líderes da União Europeia por criticarem a atual onda de execuções no país.