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Furacão Matthew faz mais de 300 mortos no Haiti mas balanço deverá ser “muito superior”

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HECTOR RETAMAL

É o país que nunca recupera. Depois do devastador sismo de 2010, que provocou milhares de desalojados, muitos deles sem casa seis anos depois do desastre, a ilha caribenha continua a braços com o pior furacão a atingir as Caraíbas em quase uma década

À medida que as equipas de resgate e salvamento vão conseguindo aceder às partes do Haiti mais atingidas pelo furacão Matthew, o balanço de mortos continua a aumentar, tendo ultrapassado já os 300, um número que segundo as autoridades deverá "muito superior". Só em Roche-a-Bateau, pelo menos 50 pessoas perderam a vida. Na cidade de Jeremie, a poucos quilómetros de distância, 80% dos edifícios colapsaram totalmente. Na província do Sul, 30 mil casas ficaram destruídas.

Pelas 23h locais de quinta-feira, 5h da manhã em Lisboa, o furacão ainda não tinha atingido a costa da Florida, onde na quarta-feira as autoridades norte-americanas declararam estado de emergência, a par da Carolina do Sul, antecipando a chegada do Matthew. Durante a noite, e depois de ter perdido força na quinta-feira de manhã, o furacão voltou a situar-se na categoria 4, a segunda classificação mais alta numa escala de cinco, com ventos de cerca de 230 quilómetros/hora.

À AFP, o senador haitiano Herve Fourcand disse que já foram confirmados mais de 300 mortos no pequeno país insular e quatro na República Dominicana (no leste da mesma ilha), um número muito superior às 23 vítimas mortais confirmadas na quarta-feira e que deverá ser revisto para cima assim que as equipas de resgate conseguirem alcançar a parte mais remota da ilha, que ficou quase totalmente inacessível após o colapso de uma ponte e deslizamentos de terras que criaram muitos obstáculos nas principais estradas e acessos àquela zona. À Reuters, um outro funcionário do Governo haitiano disse sob anonimato que há pelo menos 339 mortos já confirmados.

Depois de devastar partes do Haiti e de Cuba, a mais poderosa tempestade tropical a atingir as Caraíbas desde 2007 (quando a região foi varrida pelo furacão Felix) chegou esta madrugada às Bahamas, onde várias árvores e postes de eletricidade foram arrancados pela raiz sem haver, contudo, registo de vítimas mortais ou feridos graves. A maioria das mortes registadas no Haiti eram de cidades e pequenas aldeias piscatórias da costa sul da ilha, onde muitos perderam a vida na sequência da queda de árvores, de detritos de casas projetados pelos fortes ventos e da subida dos caudais dos rios.

O Matthew atravessou a península de Tiburon, levando o mar a invadir a terra e milhares de casas a ficarem totalmente destruídas pelos ventos fortes e as chuvas torrenciais, sobretudo entre segunda e terça-feira. O colapso de uma importante ponte na terça à noite deixou o sudoeste do Haiti sem acessos, razão pela qual o balanço de vítimas é ainda provisório e deverá ser "muito superior", avisam as autoridades. Organizações não-governamentais no terreno dizem que a eletricidade e as linhas telefónicas continuam em baixo pelo quarto dia consecutivo e que começam a escassear os alimentos e a água potável para distribuir entre a população.

O país que nunca recupera

É um cenário semelhante ao que foi registado há seis anos, quando o país ficou devastado por um sismo de magnitude 7.0 na escala de Richter que atingiu fortemente a capital haitiana, Porto Príncipe, e que afetou três milhões de pessoas. Entre 230 e 300 mil pessoas morreram e mais de 300 mil ficaram feridas. Seis anos depois, várias partes da ilha continuam por reconstruir, com muitas pessoas ainda desalojadas e agora novamente castigadas pelo furacão Matthew.

Mais de metade da população urbana do Haiti vive em favelas sobrepopuladas que não têm estrutura para aguentar qualquer sismo, furacão ou outro tipo de desastre natural. Uma epidemia de cólera, potenciada pelo sismo de 2010, já matou milhares de pessoas no país nos últimos seis anos e a desflorestação massiva da nação pobre tem levado à erosão do solo, deixando as milhares de cabanas das encostas de Porto Príncipe, a capital, ainda mais vulneráveis a chuvas e tempestades. Nas zonas rurais, a parte superficial do solo que é usada para agricultura é normalmente levada pelas águas à mínima chuva torrencial ou tempestade.

A isso acresce a instabilidade política e a corrupção endémica num país sem governo efetivo há várias décadas e onde este domingo a população ia voltar às urnas para escolher os seus próximos líderes, um sufrágio que foi suspenso por causa do Matthew. No Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, o Haiti está em 163.º lugar de um total de 188 países.

O sudoeste do Haiti ficou devastado e inacessível depois de quatro dias de tempestade e cheias

O sudoeste do Haiti ficou devastado e inacessível depois de quatro dias de tempestade e cheias

HECTOR RETAMAL

O correspondente da BBC no terreno diz que as pessoas estão a tentar lidar com a destruição em massa das suas localidades e já a tentar reerguer as suas habitações sem a ajuda do exército ou da polícia. Jean Joseph, residente de Les Cayes, a cidade mais afetada pelo Matthew, fala em "total devastação". "O que está a acontecer agora é que várias pessoas estão só a andar de um lado para o outro", disse ao canal britânico. "Não têm casas. Muitas delas estão só a andar pelas ruas. Não sei o que vão fazer."

De acordo com o gabinete de coordenação de assuntos humanitários da ONU, há pelo menos 350 mil pessoas a precisar de assistência urgente no país. Suzy DeFrancis, porta-voz da Cruz Vermelha Americana, acrescenta que, neste cenário, a prioridade é conseguir que as redes de telefone voltem a funcionar.

"Vamos trazer tecnologia para ajudar a consegui-lo", referiu esta sexta-feira. "E também temos armazéns com ajuda de emergência que vamos distribuir. Algumas das necessidades urgentes de muitas famílias são utensílios de cozinha para poderem fazer refeições e kits de higiene. O que mais nos preocupa é a cólera, portanto iremos ajudar a distribuir tabletes para purificar a água."

Os EUA já anunciaram o envio de nove helicópteros militares para ajudar a distribuir comida e água nas áreas mais atingidas pelo furacão. A zona do Haiti mais atingida é também a mais pobre do país, com a maioria dos residentes a viver em habitações frágeis erguidas em zonas propensas a inundações.

É esperado que o Matthew atinja nas próximas horas a Florida, onde as previsões de forte ondulação marítima, chuvas torrenciais e ventos de 200 quilómetros/hora levaram à evacuação de várias zonas costeiras. Ao longo do dia, o furacão deverá atingir os 965 quilómetros da costa leste dos Estados Unidos, de Boca Raton, na Florida, até Charleston, na Carolina do Norte, antecipnado-se que zonas do interior sejam igualmente afetadas pela subida da água do mar e chuvas fortes. Pelo menos três milhões de residentes estão abrangidos pela ordem de evacuação, incluindo os residentes de grandes cidades como Jacksonville, na Florida, e Savannah, na Georgia, que estão na rota do furacão.