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Entrevista ao Nobel: “O mais difícil diz respeito à linha traçada entre justiça e paz”

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YOAN VALAT / Getty

É uma entrevista que readquiriu pertinência neste dia em que se soube que Juan Manuel Santos é o Nobel da Paz 2016. Concedida ao Expresso há dois anos, numa altura em que o acordo de paz com as FARC dava passos firmes, o presidente da Colômbia explicava por que motivo o mundo inteiro devia estar atento ao desenrolar das negociações. E disse-o de forma clara: o fim do conflito representa um passo em frente no desenvolvimento do país e na diminuição do tráfico de cocaína em todo o mundo – Portugal incluído

Nicolau Santos

Nicolau Santos

Diretor-Adjunto

Numa visita-relâmpago a seis capitais europeias, em novembro de 2014, o chefe de Estado colombiano pediu apoio político e financeiro para o processo de paz numa altura em que negociava a paz com a guerrilha das FARC. Em entrevista ao Expresso, Juan Manuel Santos dizia que o fim do conflito é um passo em frente no desenvolvimento do país e na diminuição do tráfico de cocaína em todo o mundo.

Qual é o papel do seu país na América Latina?
A Colômbia está a sofrer uma transformação profunda e positiva. Há quatro anos, vivíamos uma situação difícil no contexto internacional, tínhamos más relações com os nossos vizinhos, sofríamos com o bloqueio do tratado livre de comércio com a Europa e os EUA. Impunham-nos vistos para viajar para a América Central e as Caraíbas. Hoje, a Colômbia lidera em todos os indicadores económicos e sociais, é o país da América Latina que mais tem crescido, tem a inflação mais baixa, uma taxa de investimento elevada, gera mais emprego e reduziu a pobreza e a pobreza extrema.

A questão da paz é fundamental para a Colômbia. Mas há uma crítica de que as negociações estão a arrastar-se há muito tempo.
Este conflito armado dura há 50 anos, é o mais antigo e o único que ainda subsiste no hemisfério ocidental. Na verdade, 50 anos não se resolvem em 50 semanas, mas avançámos muitíssimo mais do que havíamos feito em inúmeras tentativas anteriores. Estabelecemos uma agenda de cinco pontos, conseguimos acordo em três. Estou confiante que num curto prazo chegaremos a acordo em todos eles.

Há resistência de sectores militares?
Todos os sectores militares no ativo apoiam a paz. Entre os negociadores plenipotenciários há dois generais na reserva muito populares e contamos com um apoio unânime dos militares.

Sente da parte das FARC vontade de levar o processo de paz até ao fim?
Tenho de reconhecer que sim. No dia em que não haja vontade, levanto-me da mesa e vou-me embora.

Tem seguido a estratégia de divulgar parcialmente os acordos. Porquê?
Decidimos divulgar os textos dos acordos porque durante a campanha política na Colômbia surgiram notícias infundadas sobre decisões que supostamente tínhamos negociado e que não correspondiam à verdade. E as pessoas começaram a acreditar nessas mentiras.

Quais os pontos mais difíceis ainda por negociar?
O mais difícil diz respeito à linha traçada entre justiça e paz. Que justiça estamos dispostos a aplicar ou a sacrificar para conseguir a paz. Este é o problema central de qualquer conflito armado, que tipo de penas serão aplicadas e em que condições.

Porque veio à Europa pedir apoio para o processo?
Vim à procura de um apoio essencialmente político. É muito importante que qualquer decisão tomada pelos colombianos seja apoiada pela comunidade internacional, para sustentar os acordos. A Europa tem um papel especialmente importante no contexto internacional, sobretudo nestes assuntos. Além disso, vai ajudar-nos a preparar a fase do pós-conflito, que será tão complexa como o atual processo.

Em que medida estas negociações afetam os europeus?
A paz na Colômbia será boa para os colombianos, a região e o mundo. O narcotráfico é um dos pontos sobre os quais chegámos a acordo. A guerrilha das FARC comprometeu-se a erradicar o narcotráfico e a não defender os cultivos ilícitos, colaborando com o Governo na sua substituição por cultivos legais. Sendo a Colômbia o maior exportador de cocaína do mundo, e assim tem sido ao longo de 35 anos, isto representa um benefício enorme para o país e para a Europa. A quantidade de cocaína que chega a Portugal, a Espanha, a Inglaterra ou a França vai diminuir substancialmente.

Mas o cultivo de droga continuará a ser mais lucrativo do que outras culturas lícitas...
O facto de as FARC ajudarem a que os agricultores não cultivem coca ou outros produtos ilícitos constitui uma grande mudança. Até agora, as FARC punham minas para proteger os cultivos ilícitos que as financiam.

O Presidente faz uma separação entre as FARC e os narcotraficantes...
As FARC têm dito, com algum cinismo, que não são narcotraficantes, que apenas lucram com o narcotráfico. Realmente, não são um cartel de narcotráfico, temos de ser realistas e justos.

Mas se o narcotráfico era uma das fontes de financiamento das FARC, o fim dessa fonte de financiamento não os obrigará a encontrar alternativas? Ou as FARC vão desaparecer como organização?
Elas financiam-se porque dispõem de um dispositivo militar muito forte espalhado pelo país. Para o manterem precisam de comprar armas e munições, usando o dinheiro do narcotráfico. Isto deixará de ser necessário, porque a "marca" FARC vai desaparecer.

Uma das questões importantes é a questão da terra. O Presidente assinou uma lei que levantou especulações de que estaria a tentar tirar a terra aos proprietários...
Os agricultores e proprietários que adquiram as suas terras legalmente e que as cultivam de forma legal nada têm a temer. Só devem ter medo os que adquiriram terras pela violência, expulsando os agricultores ou que usaram dinheiro do narcotráfico para comprar propriedades. Esses, sim, serão expropriados.

Existe alguma estimativa de quanto deveria ser o envelope financeiro justo por parte da comunidade internacional para apoiar a Colômbia?
Sim... tanto quanto for possível.

Tem uma previsão para o fim das negociações?
Espero que seja tão rápido quanto possível, porque quanto mais depressa concluirmos os acordos, mais vidas poderemos salvar, evitando mais sofrimento. Estamos a negociar os dois pontos mais difíceis e oxalá possamos terminar brevemente esta guerra de 50 anos.

Que está a ser feito para proteger as vítimas do conflito?
As vítimas da Colômbia são mais de seis milhões. Aprovámos uma lei muito audaz para começar a compensá-las antes do fim do conflito. Até hoje indemnizámos 480 mil vítimas e temos de continuar a fazê-lo. É um custo enorme que estamos a suportar. Não somente vamos protegê-las como, pela primeira vez, estamos a ouvi-las e a integrá-las no centro na solução do conflito.

“Portugal é um viveiro de estrelas”

As relações entre Portugal e a Colômbia nunca estiveram tão bem, afirmou o Presidente Manuel Santos que vê com agrado os investimentos portugueses no seu país.

Como avalia as relações atuais entre a Colômbia e Portugal?
Os dois países atravessam o melhor período das suas relações. É uma relação fluida, de amizade, de parceiros.

As relações são apenas económicas?
Mantemos há quatro anos relações muito importantes, com dividendos elevados. A ligação direta da TAP entre Portugal e a Colômbia prova que somos um país estratégico para o turismo português. A cooperação e comunicação têm sido muito positivas no campo político e vemos Portugal como um aliado e amigo permanente no contexto internacional. Portugal apoiou a abolição dos vistos Schengen e isto foi importantíssimo para a Colômbia.

Quais são os setores da economia colombiana que necessitam de mais investimentos internacionais?
Precisamos de uma taxa de investimento muito elevada para garantir um alto índice de crescimento. Há uma relação direta entre mais investimento e mais crescimento. A taxa de investimento é, neste momento, a mais elevada da América Latina, acima dos 30% da nossa economia. Os projetos de infraestruturas na Colômbia são muito ambiciosos, tivemos grandes investimentos neste sector. Estamos a fazer o mesmo que Espanha e Portugal fizeram na década de 80. Privilegiamos os investimentos nas tecnologias, em particular na biotecnologia. Somos um país estratégico para desenvolvimentos nessa área. A Colômbia está a converter-se, graças à sua situação geográfica, num centro logístico de investimento e de exportação.

O comportamento dos investidores portugueses tem respondido às necessidades da economia e da sociedade colombianas?
Têm sido muito importantes, estão a investir de forma estratégica e bem fundamentada. Acabo de saber que a Jerónimo Martins, que possui várias lojas na Colômbia, vende acima das suas expectativas. Há investimentos em sectores de grande dinamismo na Colômbia, como os da construção e das infraestruturas. Recentemente inaugurei um hotel do grupo Pestana que está em pleno funcionamento. Há outros investidores e todos estão a ter sucesso. Considero os investidores estrangeiros parceiros no progresso da Colômbia.

E está contente com o sucesso dos futebolistas colombianos em Portugal?
Portugal é um viveiro de estrelas de futebol. Por aqui passaram Falcao e James. Têm o Jackson Martínez, o Quintero, Montero... Portugal trouxe boa sorte à formação de futebolistas colombianos.