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Protestos e tensão política regressam à Etiópia

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REUTERS/TIKSA NEGERI

Depois de um confronto no fim-de-semana, que terá originado 55 mortos, a onda de violência escalou e há relatos de fábricas estrangeiras destruídas, bloggers presos e até a internet está bloqueada há dois dias

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

Os confrontos entre manifestantes e forças de segurança que, no fim-de-semana, originaram a morte de, pelo menos, 55 pessoas, trouxeram a tensão política de volta à Etiópia. Dois bloggers terão sido presos por criticar o Governo, há estradas fechadas, uma forte presença da polícia de choque nas ruas e edifícios e o acesso à internet esteve bloqueado nos últimos dois dias e não se sabe se já terá sido restabelecido.

Mais grave, a cidadã norte-americana, Sharon Gray, que se encontrava em trabalho no país, morreu na terça-feira vítima de um ataque com pedras ao carro em que circulava, o que aliás tem sido comum desde o protesto do fim-de-semana.

Há ainda informação de várias fábricas estrangeiras a serem atacadas e destruídas. Foi o caso da têxtil Saying Dima, de origem turca, onde um incêndio terá desfeito um terço das instalações. Há ainda notícias de ataques à central elétrica BMET, também de investidores turcos, a uma quinta de flores e à Dangnote Cement, uma empresa nigeriana.

A tensão está mais do que instalada e poderá escalar nos próximos dias, prevendo-se que o número de mortos venha a aumentar. Aliás, apesar de o Governo etíope dizer que morreram 55 pessoas na manifestação de domingo, há vários ativistas e grupos de defesa dos direitos humanos que denunciam mais de 100 mortos resultantes da investida das forças de segurança. Segundo a Al Jazeera, terá sido necessário usar uma escavadora para remover os corpos.

No total, e segundo os mesmos grupos e ativistas, as forças de segurança terão sido responsáveis pela morte de 500 pessoas desde novembro de 2015 - quando estes protestos começaram, ainda que de forma espaçada - na região de Oromo, onde habita o maior grupo étnico da Etiópia.

Segundo a Al Jazeera, o Governo liderado pelo primeiro-ministro Hailemariam Desalegn diz que esses números estão inflacionados, garantindo que é totalmente a favor da liberdade de expressão e que só prende quem ameaça a segurança nacional.

O que está em causa?

Tudo começou em novembro de 2015 quando Oromo rejeitou os planos do Governo para expandir a capital do país para a sua região, expropriando as suas terras.

Ou seja, no início era mais uma disputa territorial, mas depressa se tornou numa luta política, económica e cultural contra aquele que é considerado um dos governos mais repressivos em África.

Além disso, os confrontos alastraram e já há incidentes na região de Amhara, onde vive o segundo maior grupo étnico, e até à capital Adis Abeba, onde morreu a cidadão norte-americana.