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Merkel endurece posição contra estatuto especial para o Reino Unido

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CHRISTIAN BRUNA/EPA

A chanceler declarou, na quarta-feira, a um grupo de empresários alemães que abrir uma exceção aos britânicos no seio do mercado único representaria “um desafio sistémico para toda a União Europeia”

O discurso da chanceler alemã acontece dias depois de a primeira-ministra britânica, Theresa May, ter anunciado que o Reino Unido vai dar início às negociações formais de saída do bloco regional até ao final de março de 2017.

Angela Merkel endureceu o seu discurso sobre o Brexit, declarando ontem perante uma audiência de líderes empresariais alemães que qualquer exceção nas regras do mercado único europeu representaria “um desafio sistémico para toda a União Europeia”.

Merkel apelou às companhias alemãs que criem uma frente unida com os governos nacionais da UE a 27 nas conversações que levarão ao divórcio do Reino Unido, pedindo-lhes que apoiem o princípio de que “o total acesso ao mercado único só pode ter lugar em troca da subscrição das quatro liberdades” que sustentam esse espaço de circulação de bens e pessoas. Se for aberta uma exceção, no caso ao Reino Unido, “podem imaginar que todos os países irão criar condições à livre circulação de pessoas com outros países”, declarou a chanceler à audiência. “Isso criaria uma situação extremamente difícil.”

O “Guardian” avança que os retumbantes aplausos à chanceler no encontro de quarta-feira tiram força ao argumento dos políticos britânicos favoráveis ao Brexit, que têm defendido que os empresários alemães vão pressionar a chancelaria para preservar as relações comerciais com o Reino Unido a todo o custo. Na semana passada, Markus Kerber, líder da Federação de Indústrias Alemãs, já tinha declarado que as trocas, investimentos e solidariedade potenciados pelo mercado único com os parceiros da UE são mais importantes que a manutenção do volume de negócios das empresas alemãs com o Reino Unido.

Ao mesmo jornal britânico, o primeiro-ministro de Malta, Joseph Muscat, que irá assumir a presidência rotativa da UE quando o Reino Unido ativar o artigo 50 do Tratado de Lisboa formalizando o início da saída, disse que May lhe deixou claro que “controlar a imigração será a sua prioridade número um”. Os quatro pilares do mercado único — livre circulação de bens, capital, serviços e pessoas — não podem ser dissociados uns dos outros, sublinha o governante.

“Isso não pode ser negociado. Estes princípios são a base de tudo o que a UE faz. Claro que, se a prioridade [do Reino Unido] é controlar a imigração, pode não ser um acordo mau. Mas tem de ser inferior em termos gerais. Não pode haver associação [ao mercado livre] com ressalvas”, afirma Muscat.

A postura de Merkel face ao Brexit e aos desejos do Reino Unido de manter a livre circulação de bens, serviços e capital mas não de pessoas contrasta com a postura conciliatória assumida pelos líderes políticos em Berlim no rescaldo do referendo britânico de junho, no qual 52% da população votou a favor da saída da UE. É um tom duro que foi confirmado por Jens Spahn, alto cargo do partido União Democrata Cristã de Merkel: “Não podemos conceder um estatuto especial [ao Reino Unido], senão amanhã teremos 27 acordos especiais. E aí já não haverá mais União Europeia. Temos de negociar com dureza, temos de nos manter firmes”.

Assim que o Governo britânico ativar o artigo 50 do Tratado de Lisboa, o único mecanismo de saída previsto nos tratados-base da UE, o Reino Unido terá um prazo máximo de dois anos para negociar e aplicar o divórcio com o bloco. Nessa altura, a UE a 27 irá levar entre quatro e cinco semanas a definir uma posição comum face ao Brexit, explica Muscat, período após o qual terão lugar conversações diárias geridas por Michel Barnier, o homem escolhido pela Comissão Europeia para negociar o Brexit em nome do bloco, e a sua vice alemã, Sabine Weyand.