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Guterres e nós, os povos

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TONY KARUMBA / GETTY

Guterres ganhou. Sentou-se num trono sem cetro na mão, a ONU não tem sequer o império que porfia, o império da paz. Arranca com altas expectativas, que ele próprio criou. Já a esperança criamo-la nós. Nós, os povos. Guterres não conseguiu mudar Portugal, mas pode mudar o mundo

O orgulho descomunal não é só por Guterres ser português. É pela forma limpíssima como ganhou. É pela certeza que temos sobre quem ele é que nos alimenta a expectativa do que será: um secretário-geral da ONU com princípios humanistas e ação por nações unidas num mundo caótico. Acima da expectativa está a esperança: Guterres não manda no mundo mas pode mudar o mundo. No fim, os bons ganham sempre. E o fim está distante deste início.

Guterres ganhou esta guerra em paz e pela paz. Desconhecemos manobras de bastidores ou se negociou compromissos ou concessões, mas conhecemos as manobras que se fizeram contra ele, numa candidatura tardia patrocinada pela Alemanha. Ele, um português, sem lóbis financeiros nem políticos, valeu por si próprio. A sua vitória não resultou da inclusão de interesses nem da exclusão de partes.

O nosso gáudio coletivo é natural, pela sensação de partilha de Guterres ser um de nós. Mas ele não é apenas um de nós por ser português. Ele é um como nós. Brilhante, estudioso, negociador, mas um como nós. Um como nós porque não subiu pela perfídia decadente mas ascendente da política “House of Cards”. Um como nós mesmo porque, como disse Marcelo, ele é o melhor de nós. O melhor do que nós somos.

Mas agora Guterres senta-se num trono sem cetro na mão, ele não tem império. O mundo que tem na cabeça não o tem aos pés. A ONU é um projeto maravilhoso que nasce nos escombros do pós-guerra mas perdeu a força porque se perdeu em si própria. Perdeu a missão de pacificação do mundo pela função de pacificação de si própria. É uma instituição domesticada na resignação da derrota do multilateralismo, com respostas antigas para perguntas novas, sem reformismo nem progressismo, parada numa política quase ignorada por países-potência (como os Estados Unidos e a Rússia) e quase ignorando países-emergentes (como a China). Ban Ki-Moon foi um secretário geral anódino, passivo e irrelevante. Como muitos poderes quiseram que fosse.

Só que a ONU, sendo uma elite política (a da diplomacia), não existe essencialmente por causa das elites políticas, mas pelos povos. A frase da carta de candidatura de António Guterres, “nós os povos” (“we the peoples”, uma referência óbvia ao “we the people” que abre a Constituição dos Estados Unidos – e, já agora, também a da Índia), condensa mais que um programa de ação, é uma carta fundadora do mandato a que se propôs. É uma carta que deve ser lida, porque diz tudo ao que Guterres vai. Não somos nós que exageramos as expectativas – foi ele próprio.

Para isso, Guterres não pode ser a desilusão que foi como primeiro-ministro de Portugal, deixando marcas sem deixar marca. Tinha as características únicas que tem agora, de seriedade, inteligência e brilhantismo, mas tirando casos pontuais meritórios (na ciência, na educação, na cultura), limitou-se a gerir a situação. Foi um desistente da reforma do país. Da sua frase “razão com coração”, perdeu-se no coração a palavra razão.

A dimensão internacional de Guterres provém da sua dimensão humana – da sua dimensão humanista, que soube tornar uma dimensão política. Ter estado dez anos no ACNUR deu-lhe experiência e conhecimento no difícil dossiê dos refugiados, mas foi sobretudo o que fez nesses dez anos que nos dá garantias sobre o que quererá fazer. Estes são dossiês que – como a sangrenta guerra na Síria – não estiveram na consciência coletiva das opiniões públicas do ocidente. Só nela entraram pelo incómodo de milhares desses refugiados entrarem pelas fronteiras aquém mar que nos separavam da barbárie. Mesmo assim, a atitude política europeia parece mais preocupada com os vivos que chegam a terra do que com os mortos que perecem no mar. Os desesperados não eram esperados e o “lá longe” não nos preocupava muito. Talvez nem pouco.

Os refugiados, o terrorismo e o radicalismo religioso são alguns dos enormes desafios da ONU. Como a guerra da Síria, onde não há capacetes azuis, que cristaliza a tensão máxima no que há de ser o redesenho do Médio Oriente, que se desfigurou antes de se transfigurar, para um dia se reconfigurar no jogo da permanente relação petrolificada que estabelece com a Rússia e os Estados Unidos, por detrás de muitos que estão à frente.

O inventário de crises de Guterres é o de um mundo de conflitos. O novo secretário-geral não tem poderes para resolvê-los sozinho, mas tem o poder da nobre atividade da diplomacia, que ele próprio divisa pela paz e pela dignidade humana, num mapa-mundi de desigualdades, de genocídios, de atrocidades contra os mais fracos, de aquecimento global que globalmente não aquece nem arrefece ninguém.

Ele já era um português cidadão do mundo, agora é um português pelos cidadãos do mundo. Atentemos na expressão: Nações Unidas. Não é preciso dizer mais. Mas é preciso fazer mais. Guterres pode mudar o mundo.